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domingo, 25 de janeiro de 2015

Como me safei (inadvertidamente) do golpe do dinheiro achado na rua

Este é o texto 10 de 10 da Primeira Maratona de Posts do Patinete a vela.

Se você acompanhou a maratona, percebeu que a maior parte dela foi dedicada ao conto O Ouro do Imperador, um conto épico em 8 capítulos.

Este é o último texto da maratona e, para variar um pouco, decidi contar uma experiência que vivi durante minha viagem pelo leste europeu em 2013, mais especificamente em Kiev, Ucrânia. Eu não sabia no momento, mas estava sendo alvo de um golpe que felizmente (para mim) acabou não dando certo.

Sem mais delongas, apresento a vocês


Como me safei (inadvertidamente) do golpe do dinheiro achado na rua

Em outubro de 2013 a Ucrânia ainda não estava passando por toda essa comoção das manifestações de impeachment do presidente Yanukovich e passear pelas ruas de Kiev não era algo tão emocionante quanto ficaria poucos meses depois, quando manifestantes se envolveram em confrontos violentos com a polícia.

Como em qualquer grande capital, não faltam os espertos que querem se aproveitar de turistas desavisados para fazer com que estes se desprendam de seus pobres dinheirinhos.

Eu quase fui vítima de uma dupla destes espertos um dia, quando estava caminhando tranquilamente pelas ruas de Kiev. Eu estava consultando um mapa da região, procurando a próxima atração turística que eu iria visitar, quando de repente aparece ao meu lado um homem de seus quarenta anos com um simpático bigodinho, fazendo um movimento como se tivesse acabado de levantar algo que estava no chão. Falando em russo, ele mostrou para mim um maço de dinheiro dentro de um envelope plástico e disse algo do gênero: “Olha só que sorte, olha o que eu achei”.

Eu nem pensei que havia qualquer coisa de errado. Falei para ele que sim, que era muita sorte mesmo, parabéns para ele, bla bla. Consegui entender que ele queria dividir o dinheiro comigo, alegando que era uma “tradição ucraniana” o ato de dividir dinheiro encontrado no chão com a pessoa que estivesse junto. Veja que o maço era grande, devia ter pelo menos um centímetro de espessura de notas novinhas, e ele me mostrou que em um dos lados do maço havia notas de dólares e no outro lado havia notas de euros.

Eu recusei, agradecendo. Não por desconfiança, mas porque no momento pensei que a pessoa que tivesse perdido o dinheiro estaria realmente em apuros e eu não queria ser o responsável por me aproveitar da desgraça da pessoa alheia. Pensei e compartilhei com esse homem a minha opinião de que infelizmente nem adiantaria anunciar à polícia que o dinheiro havia se perdido, que provavelmente o dinheiro nem sequer passaria além do policial que nos atendesse.

O homem continuou andando ao meu lado, insistindo algumas vezes que eu aceitasse que pelo menos ele me pagasse uma cerveja, mas eu recusei, sempre sendo simpático. Conversamos um pouco e ele me informou que era bielorusso, mas como meu russo é apenas de sobrevivência não conseguimos conversar por muito tempo.

Não precisaríamos conversar muito, porque pouco tempo depois apareceu um outro homem correndo e nos chamando. Este sim era intimidador: bem cara de mafioso russo, alto, encorpado, mais gordo do que musculoso, usando uma jaqueta de couro. Ele começou a perguntar se nós tinhamos encontrado um pacote de dinheiro no chão e eu já estava esperando que o bielorusso mostrasse o maço que ele havia encontrado quando de repente fico chocado quando o cara faz cara de bobo e diz que não encontrou nada.

O russo alto insistiu, dizendo que nos viu pegando algo do chão, e ficou insistindo para o bielorusso falar alguma coisa.

Eu não sei o que aconteceu comigo. Eu não estava ciente de que estava sendo vítima de um golpe, por isso eu estava tentando dar a chance para que o bielorusso confessasse que ele estava de fato com o dinheiro antes de eu interceder denunciando sua atitude desonesta. O bielorusso não fazia nada, só ficava olhando com cara de bobo. O russo insistiu e pediu para o bielorusso mostrar seus bolsos e então o conteúdo de sua carteira. O bielorusso mostrou o conteúdo de um de seus bolsos e de sua carteira e o dinheiro não apareceu (porque estava no outro bolso que o espertalhão não mostrou). O russo então se virou para mim e pediu que eu mostrasse o conteúdo de meus bolsos e de minha carteira.

Minha carteira estava vazia, ou melhor com apenas umas poucas notas de Hryvnas (a moeda ucraniana), por isso o russo constatou que eu tampouco estava com o dinheiro.

Durante todo este desenrolar eu estava muito puto com o bielorusso. Eu ainda queria que ele tivesse a chance de se “redimir”, por isso fiquei esperando até o último momento para denuncia-lo ao russo. Especialmente porque eu achava que o russo poderia moer o bielorusso de porrada se descobrisse que o cara o estava enganando. Eu mesmo não estava com medo, porque estava com a consciência tranquila por não ter pego dinheiro. Minha idéia era esperar que o russo desistisse e fosse procurar o dinheiro em outro lugar, então eu imediatamente o chamaria e denunciaria o bielorusso malandro. Mas não houve oportunidade de chegar a este ponto porque o russo insistiu para que o bielorusso mostrasse o conteúdo do outro bolso, e quando o bielorusso tentou mover seu bolso de forma a não revelar nada foi possível ver o cantinho do maço de dinheiro aparecendo.

O russo apontou, falando “Taí meu dinheiro”, ao que o bielorusso rapidamente tirou o dinheiro do bolso, colocou na mão do russo e saiu andando. O russo falou algumas coisas para ele. Eu nesse momento fiquei extremamente envergonhado com a atitude que eu tive durante toda a situação e simplesmente saí andando, também receando que poderia sobrar algum problema para mim.

Passei as próximas horas me sentindo um pouco mal, decepcionado com a forma como agi. Eu devia ter falado logo de cara para o russo que o dinheiro estava com o bielorusso. Este último estava agindo como um bandido, e por alguma razão eu estava praticamente “acobertando" o desgraçado. Deve haver alguma explicação psicológica pelo modo como agi com ele. Talvez por causa da interação que tivemos antes eu tivesse criado uma simpatia por ele, o que fez com que eu agisse praticamente como um cúmplice. Fiquei com muita raiva dele.

Mais tarde, ao contar esta história para meu amigo ucraniano que estava me hospedando, ele declaro que provavelmente o que eu tinha vivenciado fora um golpe, um “scam”, uma trapaça. Eu não consegui entender a moral do golpe: alguém me oferece dinheiro? Normalmente golpes envolvem tirar dinheiro da vítima, e não oferecer.

Eu acabei pesquisando na internet e descobri que a idéia do golpe é algo assim: o malandro 1, vamos chamá-lo de o sortudo, finge que encontra o dinheiro e oferece dividi-lo com a vítima. É possível que outras pessoas, que não sejam eu, aceitem a divisão, então o sortudo divide o dinheiro e desaparece. A vítima continua andando feliz, por ter simplesmente ganho dinheiro assim, do nada, até que aparece o malandro 2. Chamemos este de o gorila, porque é um cara enorme e intimidador. O gorila começa a pressionar a vítima dizendo que sabe que ela aceitou o dinheiro, e quando finalmente a vítima devolve o dinheiro ele reclama que está faltando a metade. Usando suas técnicas de intimidação, o gorila força a vítima a ressarci-lo com seu próprio dinheiro, e o que inicialmente parecia sorte dos céus acabaria se tornando um evento de grande prejuízo para a vítima.

Quando li sobre esse golpe pensei em como era arriscado para os trambiqueiros. Imagina se a vítima, ciente do golpe, assim que o sortudo lhe oferece dinheiro, saísse correndo e sumisse? Ela sumiria com uma boa grana dos bandidos, pelo menos uns mil dólares.

A não ser que, o mais lógico, fosse dinheiro falso. Neste caso, se a vítima percebesse isso talvez pudesse se livrar da intimidação do gorila.

Uma coisa interessante deste golpe é que para funcionar a vítima em si já tem que agir um pouco de má fé, aceitando dinheiro que pertence a outra pessoa. Então o próprio golpe é como se fosse uma punição por sua ganância. Será que os golpistas se consolam pensando deste jeito?

No final das contas, achei que este golpe é muito idiota e me surpreenderia descobrir que funciona.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Zombie Jesus



Em 2012 tive o grande privilégio de ir à Comic Con em San Diego com dois casais de amigos meus. A Comic Con é a grande Meca internacional para Nerds de Carteirinha como eu e foi uma experiência incrível, mas este post não é para falar sobre a Comic Con e sim sobre uma situação em particular que aconteceu durante este evento.

Bom, você já deve ter ouvido falar da Comic Con (senão, o que está fazendo lendo este blog??? Saia daqui! Você não é o público alvo!!!). Um dos elementos tradicionais deste grandioso evento é o fato de que a comunidade nerd aproveita para se fantasiar de seus personagens favoritos e poder se encontrar e agir de forma irracional ao encontrar com muitos de seus ídolos da cultura pop (americana, diga-se de passagem).

Outra tradição da Comic Con são as manifestações das igrejas evangélicas americanas, que todo ano enviam representantes para segurarem cartazes na tentativa de convencer ao público nerd que ler gibis não é legal mas que ler a bíblia é. Eu não sei ao certo qual é o problema que os cristãos fundamentalistas americanos vêm na Comic Con, mas eu acho que tem a ver com o que eles rotulam como “adoração de falsos ídolos” e o mandamento “não te vestiras com a cueca por cima da calça” como os fãs do Super-Homem o fazem.

Então, se você frequentar a Comic Con é muito provável que você veja alguns lunáticos como os da foto abaixo.


São jovens crentes que ficam segurando cartazes alertando aos nerds pecadores que “Jesus concede vida eterna”, ou “Nenhuma pessoa é honrada” ou “Deus é rico em misericórdia”. Tem que ter muita fé para achar que, no meio de uma multidão que pagou caro para estar em um evento onde é bombardeada por todo tipo de mecanismo audiovisual reforçando as séries e videogames que mais gosta, alguém vai olhar para essas letras pretas sobre fundo amarelo e pensar… “O que estou fazendo de minha vida? Este sabre de luz, ou esta caneca do Jurassic Park que eu adoro são falsos ícones de satanás, tenho que entregar a minha vida a Jesus!!!”. Não sei qual é a efetividade dessas estratégias, mas deve ser um “rito de passagem” para o cristão ativista do futuro, por isso eles continuam fazendo.

Infelizmente no momento não pensei em tirar foto, mas um cartaz que me chamou a atenção tinha as seguintes palavras: “The blood of Jesus will rinse all evil” (“O sangue de Jesus irá lavar todo o mal”). Não entendo qual é o contexto original desta frase, mas assim que eu a vi eu não consegui parar de pensar em zumbis. Tem algo errado comigo? Por ter pensado que existe uma analogia óbvia entre o sangue de Jesus e um zumbi sanguinário que contamina seus seguidores com seu sangue, expurgando-os do mal?

Zumbis nunca saíram de moda, mas em 2012 esse novo frenesi de mortos vivos ainda estava meio que voltando. Eu já estava havia alguns anos envolvido em meu projeto acadêmico de apreciação da fina arte da não-morte e já havia acumulado algumas pérolas ao meu repertório cinematográfico sobre o tema (que incluía filmes sobre Zumbis Nazistas, todos os filmes de George Romero desde Night of the Living Dead até Diaries of the Dead, todos os filmes da série Return of the Living Dead, e muitos outros), e a Comic Con estava cheia de revistas em quadrinhos todas as combinações de zombie + qualquer coisa que você pensar. Zombe bunnies? Tinha lá. Zombie strippers? Tinha! Mas mesmo assim, o status da cultura de zumbis ainda não havia atingido o patamar que atingiria nos anos seguintes em que a série The Walking Dead (que na época estava na terceira temporada eu acho) cresceu tanto em popularidade que de repente filmes de zumbi deixaram de ser entretenimento da elite e passaram a ser entretenimento das massas, gerando aberrações como por exemplo o filme “Meu namorado é um Zumbi” e livros como World War Z, Orgulho e Preconceito e Zumbis, etc etc.

Ah, não me deixe continuar falando de zumbis porque desse jeito nunca vou terminar a história original… Eu desandei no ponto em que estava mencionando as placas dos ativistas evangélicos americanos, lembra? Bom, quando eu vi a placa falando sobre o Sangue de Jesus a primeira coisa que veio à minha mente foi como seria muito engraçado se houvesse um participante da Comic Con fantasiado de Jesus zumbi segurando exatamente aquela placa, a que tinha escrito “O sangue de Jesus irá lavar todo o mal”. Fui até o albergue em que eu estava hospedado pensando nisso.

Cedo na manhã seguinte vou até o refeitório do albergue para tomar café da manhã. Sendo uma das atividades mais legais quando se viaja, puxei conversa com o rapaz ao lado que também estava tomando café. Não lembro do diálogo exatamente, mas deve ter começado comigo perguntando se ele estava participando da Comic Con (dãaaa), ele mencionando que estava participando como expositor e que era desenhista de quadrinhos e eu imediatamente falando para ele: “CARA! Alguém tem que fazer um gibi sobre Jesus Zumbi, que adquire novos seguidores mordendo e arrancando pedaços da carne deles! Cara, sério!”.

Por uma dessas casualidades incríveis, não é que esse mesmo cara com quem eu estava conversando era o desenhista de um gibi chamado… ZOMBIE JESUS???

É isso aí, eu falei para ele “NO FUCKING WAY MOTHEFUCKER!” (hm… podem não ter sido essas exatas palavras) e eu pedi imediatamente para que ele desenhasse para mim o Zombie Jesus. Ele pegou uma folha de meu fiel bloquinho e fez justamente isso.



Eu estava pasmo com a coincidência. Ele me falou que o gibi dele estaria exposto no balcão XX do corredor YY e que seria legal se eu passasse por lá e blah blah, todo esse papo de quadrinista querendo vender seu peixe.

Enfim, mais tarde na Comic Con eu encontrei o guichê dele e comprei um exemplar desta obra que é o ápice da cultura humana. Uma revista chamada… Zombie Jesus! Oh yeah!



Bom, vou ser sincero. O gibi é uma porcaria. Se os muçulmanos ficaram ofendidos com o que a revista Charlie Hebdo fez com Maomé, eles deveria ter visto o que estes caras fizeram com Jesus.

A analogia de Jesus com mortos vivos é muito óbvia, e é muito fácil cair nos lugares-comuns e fazer uma história totalmente sem criatividade. Ao contrário do brilhante curta Fist of Jesus, que também explora (em uma visão cômica) como seria se os poderes de cura de Jesus na verdade transformassem seus seguidores em zumbis, o gibi Zombie Jesus tem uma sequência muito óbvia de eventos: Jesus morre, volta como zumbi, transforma seus seguidores em zumbis, é caçado pelos romanos, capturado, levado para ser morto por leões famintos no Coliseu, então transforma os leões em zumbis, mata todo mundo e continua vagando por aí conseguindo mais seguidores. A história é bem chata e os leões zumbis são particularmente apelões. Mas pelo menos há algumas pérolas interessantes que salvam um pouco a dignidade dos roteiristas desta obra.

Por exemplo, quando os legionários romanos cercam o Zombie Jesus e gritam para ele: "Heed our words and prepare for your final crucifixion" (“Jesus de Nazaré! Ouça nossas palavras e prepare-se para sua crucificação final”). Já que uma crucificação pelo visto não era suficiente…

Outra: quando Jesus é capturado e levado ao Coliseu para sua execução mas consegue transformar em zumbis os dois leões que iriam refestelar em sua carne, ele grita para o Imperador: “You cannot kill that which cannot be crucified” (“Você não pode matar o que não pode ser crucificado”). É uma frase muito profunda! E muito verdadeira! Por exemplo, pensemos em coisas que não podem ser crucificadas. Eu não consigo crucificar uma tesoura, logo não é possível matar uma tesoura! Lógica sem erros!

Zombie Jesus, além de uma máquina de matar, quero dizer, de converter, também tem seu senso de humor sarcástico. Logo antes do Imperador ser morto por seus legionários leais, Zombie Jesus compartilha sua sabedoria: "Rome was not eaten in a day. You will do well to remember that.” ("Roma não foi devorada em um dia. Você fará bem em lembrar-se disso"). Não teria que lembrar por muito tempo, já que o Imperado é morto logo em seguida.

Por último, você já pensou que talvez as palavras de Jesus na última ceia fossem literais? Pelo menos as de Zombie Jesus eram! "Who so eateth my flesh and drinketh my blood hath eternal life and I will raise him up for my flesh is meat and my blood is drink” ("Aquele que comer de minha carne e beber de meu sangue terá vida eterna e eu o erguerei pois minha carne é carne e meu sangue é bebida”).

Enfim, embora a qualidade do gibi fosse baixissima, foi muito legal conhecer o cara que desenhava Zombie Jesus na manhã seguinte ao dia em que pensei em como seria legal se houvesse um gibi sobre Jesus Zumbi.

É a magia da Comic Con… Onde todos os tipos de zumbi têm lugar…

domingo, 4 de janeiro de 2015

Protótipo de aplicativo: Quanta saudade

Algo muito comum de se ouvir de brasileiros que moram fora ou que acabaram de fazer uma viagem muito longa é como sentiram falta do arroz com feijão. 

Pois é, viajar é muito bom, morar fora é fantástico, mas tem coisas daqui do Brasil que dão muita saudade quando você fica muito tempo fora.


Para matar essa saudade, o aplicativo para iPhone Quanta saudade permite ao usuário relembrar todas aquelas coisas gostosas que deixou para trás quando decidiu desbravar o mundo. E também permite mostrar aos amigos estrangeiros o que é uma coxinha!


segunda-feira, 14 de abril de 2014

O casamento do Joffrey - Finalmente!



Em setembro do ano passado consegui participar como figurante na gravação da quarta temporada da série Game of Thrones. Você pode ler mais a respeito neste post.

Depois de angustiantes seis meses de espera, finalmente o casamento do Joffrey foi exibido na HBO. Obviamente eu estava ansioso para saber se eu tinha aparecido em alguma cena, porque passei os últimos seis meses me alugando para todo mundo que eu conhecia e, se eu não aparecesse na série, ficaria um pouco sem graça.

Mas apareci!!! Eba! São vários pedacinhos em que eu apareço de relance, mas pelo menos o suficiente para ser reconhecido e poder apresentar como evidência.

É muito estranha e legal a experiência de assistir o episódio em cuja filmagem participei. Na primeira vez que assisti nem consegui prestar atenção na festa do casamento, porque eu fiquei apertando pausa a cada 5 segundos, voltando atrás, avançando... Assisti de modo muito não linear hehe.

Mas quando assisti depois com calma, fiquei impressionado com a transformação que houve desde o set até a imagem na TV. O set de filmagem era legal demais, mas quando você olhava as mobílias, talheres e decorações de perto elas não pareciam tão realistas assim. Mesmo quando os atores estavam interpretando a cena não parecia tão emocionante assim. Mas quando apareceu na tela! Todo o desenvolvimento do casamento do Joffrey ficou incrível!

Outra coisa interessante é que foram cinco dias de filmagem, das 8:00 às 18:00, para produzir apenas UMA cena de QUINZE MINUTOS! Percebi como uma quantidade enorme de cenas que a equipe passou horas filmando foram cortadas, e é aí que você vê a preocupação dos caras com a perfeição. A trupe de malabaristas e cuspidores de fogo que aparecem no banquete foram filmadas por horas, e eu cheguei até a pensar que poderia estragar a cena se saturassem com cenas deles. Mas no final das contas ficou perfeitamente balanceado. Mas é aquilo - filmaram horas e horas para usar apenas quinze minutos no final. Não é à toa que GoT é a série mais cara da televisão.

Aaaaaah, e a pior parte foi ter que segurar o mega-spoiler que aconteceu nessa cena, que eu presenciei sendo filmada de todos os ângulos possíveis. Deu até para memorizar as falas do Joffrey hehehe.

Abaixo seguem algumas fotos para provar que não estou mentindo.

Oh saudades de ti, King's Landing!






E, para finalizar, só para você ficar com um pouquinho mais de inveja...
A adorável rainha-mãe

O melhor personagem da série, ao lado de Tyrion Lannister

Lord Tywin Lannister, outro personagem fantástico

Ser Jamie Lannister
O rei Joffrey. Foi um prazer te servir... o vinho envenenado!!!

Podrick Payne




domingo, 30 de março de 2014

Taí um jeito caro de desenhar um pentagrama

Dá uma olhada nesta foto do céu de Londres (você pode ver o Big Ben ao lado). Sou o único que consegue enxergar um pentagrama lá?

Considere que cada lado do pentagrama corresponde ao rastro deixado por um jato comercial e voilà, temos uma arte realizada por uma esquadrilha da fumaça bem cara!



sábado, 8 de março de 2014

Um nerd de São Paulo na corte do rei Joffrey

Dubrovnik é uma cidade no litoral da Croácia que, por ser uma cidade fortificada que preserva um visual medieval fantástico, é muito usada como cenário para a filmagem de filmes e séries. Você deve ter ouvido falar em uma seriezinha chamada Game of Thrones, que por acaso é a melhor série de todos os tempos já produzida para a televisão, e não sei se você sabia mas muitas das cenas ambientadas em King’s Landing são filmadas lá mesmo em Dubrovnik.

Por ter conseguido conversar com as pessoas certas e estar no lugar e na hora certos, consegui me infiltrar nas filmagens da quarta temporada como figurante. A cena da qual participei foi filmada entre 9 e 13 de setembro, e foi uma experiência incrível! Abaixo faço um relato de como foi. Infelizmente, devido a um contrato que assinei com a HBO eu não posso divulgar fotos ou informações mais específicas sobre o que foi filmado até que estas informações sejam divulgadas pela própria HBO, então terei que esperar até a estréia da nova temporada, prevista para abril de 2014 para postar fotos em que eu apareça. As fotos que eu coloquei no post são de lugares neutros ou são fotos que foram vazadas em outros lugares (neste caso marcados com [*]), então se você que está lendo for um advogado da HBO por favor não me processe!

Editado em 19/03/2014: A Lidiany do GameOfThronesBR publicou uma entrevista comigo! Dá uma olhada lá depois de ler este post!

Editado em 14/04/2014: Saiu o episódio! Coloquei as fotos do casamento do Joffrey neste post.

Editado em 18/11/2014: Respondi no quora.com à pergunta What is it like to be an extra no Game of Thrones.

Editado em 10/01/2015: A minha resposta no quora.com também foi publicada no site Business Insider.

Editado em 16/07/2017: Na véspera da estréia da sétima temporada de GoT foi publicada uma nova entrevista comigo no site Business Insider.

E agora, ao relato…

Ao fundo, o Centro Velho de Dubrovnik

Desembarque em King's Landing

Parti de Londres para Dubrovnik no voo das 5 da manhã, após ter passado a noite no aeroporto de Gatwick. O voo acabou sendo bem cansativo, mas eu estava tão empolgado com o que estava prestes a acontecer que nem liguei. Cheguei às 10 da manhã e liguei para o gerente dos figurantes para dizer que já havia chegado. Ele me explicou mais ou menos como chegar ao local onde os ajustes das fantasias eram feitos, que era em um distrito a meio caminho entre o aeroporto e Dubrovnik. Peguei um transporte desde o aeroporto e pedi para descer no meio do caminho.

Foi um pouco difícil encontrar o lugar. Por não ter explicado direito para o motorista onde eu deveria descer, acabei descendo em um ponto antes. O ponto ficava na estrada, onde não havia lugar para pedestres caminharem, então em vários momentos tive que caminhar no meio da estrada mesmo. O trajeto até o galpão onde ficava a base dos figurinos foi longo, sob um sol escaldante. Ainda me perdi por lá e tive que tentar me comunicar com as poucas pessoas que eu via na rua para encontrar o lugar preciso.

Mas finalmente cheguei. Uma vez lá, o lugar era inconfundível. Onde mais eu poderia ver soldados Lannister, aldeões e nobres sentados assistindo a uma trupe de malabaristas?

Entrei no terreno da base dos figurinos e já senti que estava entrando em outro mundo. Logo de cara pedi ajuda a um rapaz que estava fantasiado com a armadura vermelha dos guardas dos Lannister. Ele me levou até o local onde eu deveria me apresentar e fui atendido por uma moça, que me cumprimentou falando "Ah, você que é o rapaz do Brasil? Bem vindo!" e me pediu para esperar.

A experiência já estava sendo muito legal. Eu estava dentro de um enorme galpão, sentado em um canto onde várias fileiras de cadeiras estavam organizadas. O setor onde eu esperava estava separado do resto do galpão por uma cortina, através da qual dava para entrever suportes carregados com fantasias de todos os tipos. Mas a quantidade de fantasias era tão grande que havia vários suportes espalhados mesmo do lado em que eu me encontrava, então enquanto eu esperava eu pude espiar um pouco. Havia muitas fantasias de homens e mulheres nobres, mas evidentemente o que chamava minha atenção eram as armaduras. Havia algumas armaduras vermelhas dos Lannister e as armaduras com escamas metálicas da King's Guard.

Uma foto do armazém das fantasias[*]. 


Enquanto observava as fantasias eu ficava imaginando qual seria a fantasia que eu usaria. Durante a negociação prévia por e-mail, o gerente dos figurantes me havia dito que eu seria um membro da nobreza. Achei muito legal esta possibilidade, mas devido a mudanças de agenda eles tiveram que trocar minha fantasia. Então fiquei secretamente desejando que, com um pouco de sorte, eu pudesse receber alguma armadura de soldado. Ei, eu sei o que você está pensando! Eu até que poderia ser um soldado! Um soldado um pouco pançudo e pouco musculoso, mas e daí???


A espera acabou sendo um pouco longa. Enquanto eu esperava vi alguns figurantes aparecendo com os figurinos que usariam na gravação daquele dia. Estavam fantasiados com roupas de aldeões e caras e corpos sujos. Em particular, a fantasia de um velhinho estava tão boa que eu olhava para ele e sentia pena, quase tive vontade de dar uma esmola. O engraçado é que eu veria esse mesmo velhinho no dia seguinte com roupa de nobre, o que demonstra como King's Landing oferece oportunidades de crescimento para qualquer um mesmo. Enquanto esperava, chegou uma menina que também estava esperando pelo seu figurino. Perguntei se ela seria figurante, e ela me disse que era contorcionista. Perguntei se era a primeira vez que ela estava no Game of Thrones, ao que ela me respondeu que não. Pensei na única cena que eu lembrava que tinha uma contorcionista e antes que eu pudesse perguntar, ela me respondeu: "eu fiz a cena em que Tyrion paga pelos serviços do Podrick levando-o para o bordel". Aham, quem assistiu a terceira temporada lembrará quem era ela, uma das únicas quatro mulheres do mundo conhecido capazes de realizar o nó Meereenese.

Então eu fui finalmente chamado! Eu estava empolgadíssimo! Mesmo quando fui informado de que de membro da nobreza eu havia sido demovido para serviçal eu ainda estava feliz. Experimentei a fantasia, que era uma vestimenta medieval completa. Uma calça roxa larga por baixo, botas de couro, uma túnica roxa e um lenço preto amarrado no pescoço. Um comissário de bordo medieval, podemos dizer. A fantasia havia caído bem, mas ainda era necessário fazer um ajuste da barra. A costureira que me ajudou com a fantasia fez as medidas necessárias, logo em seguida me levou para tirar uma foto, e o processo estava terminado. Tirei a fantasia e, quando estava indo embora, fui informado sobre como seria o primeiro dia de gravação: eu deveria estar às três e vinte da manhã em um ponto de espera, onde um transporte iria buscar os figurantes e leva-los para a base dos figurinos.

Não apareço nesta foto, mas ela mostra meus colegas serviçais e mostra
a fantasia que eu usei. Passamos 4 dias inteiros filmando juntos. [*]


Consegui chegar a Dubrovnik sem problemas. A base dos figurinos ficava a uns 7 km da cidade, e em vez de esperar pelo ônibus acabei pedindo carona na estrada. Um rapaz da Sérvia, que não falava uma palavra de inglês, parou para me dar carona. Ele foi muito legal e me deixou na rua de meu albergue. Fiz o checkin, deixei minhas coisas, fui até a cidade velha para passear um pouco e voltei para dormir cedo. O dia seguinte seria muito especial e eu não queria me arriscar a perder o ônibus!

Forte Lovrijenac, logo ao lado do local das filmagens.

A serviço do rei

Cheguei à base dos figurinos às 3:40 da manhã de segunda-feira, em um ônibus lotado de figurantes. Lá nos esperava uma longa mesa com um generoso café da manhã: pães, ovos fritos, presunto, queijo, salsichas, cereais, frutas, biscoitos, café, suco, chá… Nós figurantes experimentariamos uma longa espera até a hora de ir ao local de filmagem, então pelo menos a organização nos manteria bem alimentados até lá.

Aos poucos, na medida em que terminavam de tomar o café da manhã, os figurantes iam se dirigindo para o interior do grande galpão onde se encontravam as fantasias. Lá cada um de nós passaria pelo mesmo processo: seriamos chamados para o outro lado da cortina, onde colocaríamos nossas fantasias com ajuda das funcionárias, depois seriamos encaminhados a um outro salão dentro do galpão onde receberíamos algum tratamento para o cabelo. Os homens seriam barbeados e depois receberiam um "penteado medieval", por assim dizer. As mulheres sofreriam um pouco mais, pois deveriam receber aqueles penteados elaborados cheios de tranças.

Na saída do galpão, a transformação era impressionante. Onde antes havia jovens e idosos com suas roupas modernas, agora começavam a se concentrar homens e mulheres vestidos como nobres, soldados e serviçais. Grupos de mulheres nobres se reuniam em rodinha e conversavam enquanto fumavam seus cigarros. Soldados e serviçais faziam bagunça e piadas em voz alta, enquanto alguns, acostumados com a rotina diária, aproveitavam o tempinho livre para tirar uma soneca.

Mulheres nobres esperando pelo ônibus na base dos figurinos. [*]

Algumas visões eram surreais e fascinantes. Por exemplo, ver um soldado de armadura mexendo em seu iPhone; um idoso nobre tomando suco de caixinha; uma moça da nobreza saindo do banheiro químico; um soldado com um maço de cigarros em sua bota. Esses anacronismos eram tão interessantes e bizarros que eu não conseguia parar de simplesmente ficar caminhando em volta e observando.

Neste primeiro dia de filmagem acabei fazendo amizade com um rapaz chamado Phil, o mesmo soldado Lannister que me ajudou quando cheguei para o ajuste das fantasias. Ele é um grande fã de Game of Thrones e pudemos conversar por várias horas sobre a série (nossa… como sou nerd…). Por incrível que pareça, é baixa a proporção de figurantes que é de fato fã da série. A grande maioria é composta por croatas que estão lá apenas pelo dinheiro (sim, você é pago para ser figurante!), e muitos deles nunca assistiram a série. Havia, claro, alguns poucos fãs que viajaram exclusivamente para ser figurantes. A maioria com quem pude conversar era da Inglaterra, mas fiquei sabendo de um rapaz que viera da Alemanha e havia alguns americanos por lá. Mas todo mundo ficava impressionado quando eu falava que tinha vindo do Brasil! Era difícil alguém vir de tão longe para isso.

Lá pelas 7:30 da manhã, cada "categoria" de figurantes (serventes, homens nobres, mulheres nobres, soldados) foi chamada e passou por revista pela equipe de figurino e maquiagem para ver se estava todo mundo com aquele visual medieval perfeito. Assim que passávamos pela revista, entravamos no ônibus que nos levaria para o local de filmagem.


Fascinado como eu estava por tudo o que estava acontecendo em meus primeiros dias em Dubrovnik, não pude deixar de me impressionar com a bela vista da Cidade Velha que tínhamos do ônibus no caminho até o local da filmagem. Este é de fato o local perfeito para filmar uma cidade-fortaleza medieval. Uma muralha de mais de 2 km de extensão protege um núcleo de casas e igrejas de pedra, à beira do mar Adriático, com uma vista do oceano maravilhosa. Com um pouco de esforço, eu conseguia imaginar que as frotas de cruzeiros e barcos de turismo que chegavam ao porto de Dubrovnik eram na verdade as embarcações de Lord Stannis tentando invadir King's Landing.

O local das filmagens era um parque localizado bem próximo à Cidade Velha, separado da fortaleza de Lovrijenac por um pequeno trecho de mar. No topo desta fortaleza normalmente há uma bandeira da Croácia, mas durante as filmagens uma bandeira da casa Lannister-Baratheon tremulava ao vento. Quem subisse a esta fortaleza poderia ter visão de longe do set de filmagem, mas seria inibido de tirar fotos por um segurança da produção que ficava lá o dia inteiro. Eu concluí que o trabalho desse segurança devia ser o mais monótono e chato de toda a produção da série, por isso espero que ele tenha recebido um bom pagamento. Este cara merece.

A bandeira Lannister-Baratheon tremulando ao vento.

O parque estava todo preparado para a cena que iríamos gravar. Na verdade não sei o quanto posso escrever a respeito, pois tenho um contrato de confidencialidade que me impede de passar informações. Teoricamente só posso comentar sobre coisas que já tenham sido exibidas e anunciadas pela HBO, por isso vou tentar ficar no lado conservador em minhas descrições.

O que posso afirmar é que a produção da série é fenomenal. Acho que meu respeito pelo esforço que a equipe de produção realiza aumentou em várias ordens de grandeza. Principalmente porque dias depois da filmagem eu tive chance de visitar o mesmo lugar, completamente limpo, e aí eu tive a verdadeira sensação da transformação que estes caras conseguiram realizar no local.

A cena era um grande festim, e o local estava preparado para tal. Havia dezenas de grandes mesas, com pratos, talheres e belas comidas falsas. Eu fiz uma contagem por alto e pude contar mais de 100 figurantes fazendo o papel de homens e mulheres nobres. A produção da série era tão cuidadosa que, para filmar de forma realista um festim com mais de cem convidados, eles fizeram um festim com mas de cem convidados! E a atenção aos detalhes era impressionante. Havia muitos cantos escondidos onde a equipe de produção se preocupou em colocar uma planta, ou uma parede falsa, ou um porta-estandarte. Aquele canto poderia nunca ser filmado, mas o importante é que, se fosse filmado, seria realista.

Como você já deve ter imaginado, o trabalho de figurante não é muito glamuroso. Basicamente nós temos que ficar horas e horas esperando até que sejamos solicitados para alguma cena específica. E, enquanto esperávamos, havia algumas poucas opções de entretenimento. Alguns liam ou navegavam na internet em seus smartphones; outros conversavam; outros dormiam; outros jogavam cartas; outros tomavam água, café e comiam biscoitos. Um senhor chegou a levar uma gaita de boca e ficava tocando.

Havia um setor do parque, um longo corredor com um parapeito e uma vista belíssima para o mar, onde havia cadeiras e onde os figurantes deveriam ficar esperando quando não estavamos filmando. Muitos ficavam lá mesmo, especialmente aqueles que não ligavam para a série, como os mais idosos. Outros, como eu, aproveitavam para ficar escapando e tentando prestar atenção na equipe de filmagem e na atuação dos atores.

Esta era a vista que tínhamos no local onde nós figurantes
esperávamos pela nossa vez de filmar.

Eu acho que uma coisa muito interessante de se colocar dezenas de pessoas com um objetivo comum é que de repente se torna tão mais fácil conversar e fazer amizades. Eu era um entre dez serviçais Lannister, e em diversas vezes eramos instruídos a ficar esperando juntos para quando fossemos necessários em algumas cenas. Então pudemos conversar bastante, e ao longo dos dias daquela semana acabamos criando uma amizade. Era um pouco engraçado o contraste, porque, desconsiderando a mim, todos os serviçais tinham entre 18 e 20 anos. Eu era o mais velho de todos, com 29 anos. Por alguma razão, talvez por eu ser mais velho, ou talvez por ser brasileiro, ou talvez porque os croatas são assim simpáticos e hospitaleiros, todos vinham conversar comigo. Fiz amizade com um outro viciado em Game of Thrones e viciado em filosofia chamado Erijck, de Rijeka, com quem conversei bastante; com outros jovens de Dubrovnik muito divertidos, com nomes croatas como Leon, Lovro, Faruk e Kreso. Mas o ambiente era descontraído de tal forma que você poderia conversar com qualquer pessoa a qualquer momento. O único fator limitante seria se a pessoa conversava em inglês. Normalmente os jovens conversavam em inglês muito bem, mas com as pessoas mais idosas era muito difícil de conversar, pois só falavam em croata.

Eventualmente, chegaram os momentos em que nós poderiamos parar de ficar apenas esperando e filmar de fato. Neste momento eu percebi que, no final das contas, ser um serviçal acabou sendo uma sorte! Os soldados, por exemplo, eram os que mais sofriam. Eles tinham que ficar esperando em um calor escaldante, dentro de uma armadura pesada (a mais pesada de todas pesava 20 kg) e, mesmo que fossem capturados pelas câmeras, eles estariam usando seus capacetes fechados, então não poderiam ser reconhecidos depois. Era muito comum ver os soldados, enquanto não estavam filmando, estirados pelo chão ou em cima das mesas tentando descansar do esforço de ficar nas armaduras. Os nobres, por outro lado, eram muitos, e ficavam basicamente sentados nas mesas do banquete, por isso a chance de aparecerem em vídeo era muito pequena. Nós serviçais, por outro lado, éramos poucos, apenas dez, e, como serviçais, tínhamos que ficar caminhando pela cena do banquete o tempo todo, servindo vinho e carregando pratos, então a chance de aparecermos era muito maior. É claro que não dá para saber até o momento em que a série vá ao ar, o que deverá ser na metade de 2014, mas fui informado pela responsável pelos figurantes que eu apareci em várias das cenas filmadas então eu tenho uma grande chance de aparecer de relance. Uhú!!!

Durante a filmagem, o papel do figurante era muito fácil. Os soldados só deveriam ficar parados em pé em alguns pontos específicos. Os nobres deveriam ficar nas mesas conversando entre si, ou caminhando pelo local do banquete. Os serviçais deveriam fingir que estavam servindo ou atendendo aos nobres. Em algumas cenas eu carregava uma jarra com vinho invisível, e eu deveria ir de mesa em mesa perguntando se os nobres queriam vinho. Algumas cenas tinham que ser filmadas várias e várias vezes, e nós tinhamos que repetir os mesmos atos que tinhamos feito na rodada anterior, então  tentavamos fazer algumas piadinhas. Por exemplo, quando eu me aproximei para servir um homem nobre, sua companheira nobre me impediu de servir colocando a mão sobre o cálice e dizendo "Ele não vai beber porque está dirigindo", e coisas do tipo.

A filmagem em si é fascinante. É muito interessante como o diretor e sua equipe realizam um trabalho de otimização em tempo real. Eles filmam a cena uma vez, com o posicionamento inicial dos figurantes e dos elementos do cenário. Depois analisam a imagem e, se percebem que o cenário estava muito carregado em um lugar ou muito vazio em outro, reposicionam os elementos ou os figurantes e filmam de novo, e assim vão fazendo até que a imagem fique perfeita.

Outra coisa interessante é o modo como eles capturam os diferentes ângulos que irão para a série. Eles usam poucas câmeras, normalmente duas, mas no máximo três, e filmam a mesma cena várias vezes, porém colocando as câmeras em lugares diferentes. Assim, algumas cenas cruciais foram filmadas dezenas de vezes, com os atores realizando exatamente a mesma atuação, apenas para que fosse possível capturar ângulos diferentes.

É claro que, para um fã da série, uma das partes mais legal disto tudo é poder ver de perto seus personagens favoritos e vê-los atuando. Tive a sorte de estar presente em uma cena crucial da quarta temporada, então todos os personagens de King's Landing estavam lá: Joffrey, Margaerie e sua avó, Tyrion e Lady Sansa, Lord Tywin, Lady Cersei, Loras Tyrell e seu pai, Podrick, Grand Meister Pycelle, Lord Varys, Lady Brienne, ser Jamie e Bronn. Era impressionante vê-los ao vivo, principalmente porque eu não conseguia deixar de vê-los como seus personagens. Era muito estranho então vê-los fazendo piadinhas durante as filmagens, ou vê-los simplesmente sendo normais quando não estavam filmando. Eles eram simpáticos e acessíveis, e quando não estavam com pressa (porque deveriam trocar o figurino, por exemplo) eles paravam para conversar e tirar fotografias. Por isso foi um choque quando, por exemplo, fui conversar com a atriz que interpreta a Cersei e ela foi super legal comigo e posou para uma foto. A personagem dela é uma mulher arrogante, manipuladora e calculista, o que contrastou com sua personalidade na vida real. Uma coisa que talvez pudesse ser um pouco chata era que eu não sabia dos nomes de nenhum dos atores, só dos personagens, então quando eu os abordava eu tentava disfarçar fazendo alguma brincadeira usando o nome do personagem mesmo, com por exemplo "Lord Tywin, o senhor gostaria de um pouco de vinho fictício?". Tenho impressão de que eles não devem gostar muito disso, mas dane-se, eu sou mesmo é fã da série e dos personagens da série, e não dos atores!

De modo geral os atores não eram muito incomodados ou abordados pelos figurantes, principalmente porque a maioria dos figurantes não ligava para a série e em segundo lugar porque havíamos sofrido um pouco de terror psicológico com o contrato que tivemos que assinar, que dizia que não poderíamos tirar fotos de forma alguma do set de filmagem. Mas no final das contas a decisão dos atores era soberana, então se eles nos deixassem tirar fotos então era isso o que importava! Mas muitos figurantes ficavam  tímidos e nem mesmo pediam para tirar fotos.

Era muito engraçado ver os atores, entre as filmagens, mexendo em seus iPhones e iPads. Especialmente engraçado foi ver o Lord Varys, o sabe-tudo mestre das fofocas, andando com seu iPad. Isto me fez entender como ele sabe tanto sobre todo mundo de King's Landing. É até óbvio! Ele fica espionando todo mundo no Facebook!

Voltando ao trabalho do figurante, você deve imaginar como deve ser difícil coordenar mais de 100 figurantes que não fazem a menor idéia do que devem fazer a cada instante. Havia uma hierarquia na equipe de produção que tinha o objetivo de controlar os figurantes. Uma moça da produção da série chamada Sara gritava instruções em inglês para cada cena, como por exemplo "Precisamos de um casal de nobres caminhando por aqui, um serviçal dando voltas por aqui, etc etc". Um membro da equipe de apoio da Embassy chamado Daniel repetia em Croata e pacientemente em inglês para pessoas como eu e explicava detalhes que não tinham ficado claros na explicação da Sara. E muitos outros membros da equipe de apoio ficavam espalhados pelo set ajudando a buscar os figurantes quando estes eram necessários. Todo mundo era muito legal na equipe de apoio, principalmente o Daniel. Quando eu perguntava alguma coisa sobre a qual não tinha entendido ele repetia pacientemente, e ficava brincando com todos os figurantes, o que deixava o ambiente bem legal. Alguns figurantes reclamavam de que se sentiam tratados como gado, mas em geral eu achei que, na medida da dificuldade inerente a controlar uma quantidade tão grande de pessoas, a equipe nos tratava muito bem. Nos últimos dias de gravação acabei fazendo amizade com um rapaz chamado Tomislav, ou Tommy. Ele era um "stand in", um ator contratado para ocupar o lugar de um ator principal quando o diretor procura pelos melhores ângulos para a câmera. O Tommy e o Erijck, aquel rapaz viciado em Game of Thrones e estudante de filosofia, acabaram se tornando bons amigos e, quando as gravações já tinham terminado, nós aproveitamos para andar por Dubrovnik juntos.

Depois que os atores e figurantes estavam posicionados e todos sabiam o que deveriam fazer, os cinegrafistas começavam a gravar e gritavam "Roooolling!!!" para que todos soubessem que as câmeras já estavam capturando vídeo. Os membros da equipe de apoio repetiam em voz alta para que todo mundo escutasse, e este era o momento de fazer silêncio. Em seguida, o diretor gritava "Background action!", o que era a dica para os figurantes para começarem a fazer suas ações. E finalmente ele gritava "Action", quando os atores começariam a interpretar seus papéis. No final da cena, o diretor exclamava "Cut!", e então saberíamos se a cena ficou boa ou se teríamos que gravar de novo. Sempre que terminava a gravação de uma cena, todos batiam palmas e celebravam. Especialmente quando a cena era gravada corretamente na primeira vez, o que aconteceu algumas vezes.

Nós passavamos muito calor durante o dia, mas sempre que quisessemos tinhamos à disposição garrafas de água mineral. Também tinhamos acesso a biscoitos, frutas e café, e recebíamos três lanches por dia, compostos normalmente por um sanduíche ou hamburguer grande, uma fruta, um doce e uma coca-cola morna. Às vezes também recebiamos sopa de lentilha na hora do almoço, que, apesar do calor, era muito gostosa.

O dia de gravação normalmente terminava entre 18:30 e 19:00. Neste horário, todos íamos para a rua esperar por nossos ônibus que nos levariam de volta à base dos figurinos para poder trocar de roupa. Quem passava pela rua naquele momento ficava assombrado de ver toda aquela gente fantasiada, e devia ser uma visão impressionante mesmo. De volta à base, tirávamos nossas fantasias, vestíamos nossas roupas normais e o ônibus nos levava de volta ao lugar de onde tinha nos recolhido. Então a jornada de trabalho acabava sendo de 4:10 até 19:00. Era um trabalho muito cansativo, mas tão divertido que valia a pena.

Esperando pelo ônibus para voltar para a base das fantasias. [*]

Participei das gravações de segunda a sexta-feira. Na terça-feira perdi a hora e acabei não conseguindo chegar a tempo na base dos figurinos, então perdi o dia. Por sorte, a partir de quarta-feira o horário de concentração para pegar o transporte mudou de 3:20 para 4:10 da manhã, o que pelo menos permitiu ter uma horinha a mais de sono.

A sexta feira, o último dia de gravações, foi especial. Quando a última cena foi gravada, começou uma celebração envolvendo todo mundo que estava no set. As pessoas estavam felizes, batendo palmas, e aproveitando para tirar fotos uns dos outros. Neste momento ninguém da produção estava reclamando! Eu senti uma pontinha de tristeza, pois esta experiência tão incrível estava chegando ao fim. Eu ainda iria voltar no domingo para filmar uma outra cena, mas Murphy iria me cobrar pela diversão que tive durante a semana e eu não conseguiria participar desta cena. À noite, juntando um pouco da energia que restava, um grupo de figurantes combinou uma reunião na Cidade Velha para beber e conversar. Foi tão estranho rever todo mundo com as roupas normais! Depois de cinco dias eu já estava acostumado a ver meus amigos com roupa de serviçais e os homens e mulheres com roupas de nobres, e foi uma dura volta à realidade saber que já tinha acabado.

Assim concluo o meu relato. Espero que você tenha gostado!

Ah, todas as fotos marcadas com [*] já tinham sido vazadas na internet, e tirei deste site: http://imgur.com/a/2K75U#r1CY1oV

domingo, 27 de outubro de 2013

Lazy walk

Este é um pequeno vídeo que fiz sobre minhas andanças pelo Velho Continente. Quem me conhece bem não ficará surpreso com a escolha da trilha sonora!

Espero que você curta o vídeo! :-)

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This is a short video about my adventures in the Old Continent. Those who know me well won't be surprised by the soundtrack I chose!

I hope you enjoy the video! :-)

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Sobre patinetes e livros


Em Moscou descobri a livraria mais legal que já vi na vida! Bom, estou exagerando um pouco, mas na livraria MoscowBooks é possível pegar emprestado um patinete com uma cestinha e ficar patinando pela loja enquanto você procura pelos livros que você quer. E isto é incrivelmente legal! O chão é lisinho lisinho, então é muito agradável ficar patinando. Também é impressionante como é legal poder ficar se locomovendo em alta velocidade pela loja para poder procurar por algum livro. Tenho a impressão de que também seria muito interessante usar um patinete similar durante as compras em um supermercado…
Comprando livros sobre duas rodas
Mas a existência de uma livraria assim é apenas reflexo do fato de que muitos jovens e adultos usam patinetes aqui em Moscou, pois aqui é uma cidade civilizada, e as pessoas não precisam ficar escutando zoação dos amigos.
Alguns simpáticos patinadores 
Um modo de locomoção rápido e sadio
Largue seu carro na garagem e compre um patinete!
Que saudades do meu patinete…

domingo, 13 de outubro de 2013

Aprendiz de ferreiro


Em Kiev, na Ucrânia, há um museu a céu aberto muito interessante chamado Pyrohiv (Пирогі́в em ucraniano). Este é um museu que apresenta os estilos arquiteturais de várias regiões da Ucrânia ao longo de sua história milenar. São dezenas de casas, moinhos e igrejas construídas utilizando apenas os materiais e técnicas que existiam nas respectivas épocas, espalhadas por um parque enorme que por si só é belíssimo.

Cavalos típicos ucranianos
Casa típica antiga ucraniana 
Igreja antiga típica ucraniana
Mais casas típicas antigas
Aproveitando o ambiente de viagem no tempo que o museu oferece, há várias atividades relacionadas espalhadas pelo parque. Por exemplo, você pode aprender a montar em um cavalo, aprender a atirar com arco e flecha, comer comida típica das regiões e tirar foto com um pitoresco e estereotipado ucraniano, gordinho e bigodudo com sua roupa e espada ninja ucranianas tradicionais.

O ucraniano típico, junto a um turista típico
Além de tudo, o lugar torna-se über-nerd porque há uma oficina de ferreiro lá! Na oficina encontramos (oh, surpresa) nada menos que um ferreiro que fica fabricando peças de ferro usando as técnicas antigas e ferramentas que ele mesmo fabrica. Quando passei pela frente da oficina achei muito legal e entrei para conversar um pouco com o ferreiro. Ele estava fazendo uma pausa, mas quando eu perguntei se poderia vê-lo fabricando alguma coisa ele com toda a boa vontade interrompeu sua pausa. E é mais - ele me permitiu ajuda-lo a fabricar um prego medieval! Trabalhamos juntos moldando e martelando uma barra de ferro fina até esta adquirir o formato de um prego. E, quando terminamos, ele me deu o prego como souvenir!
O ferreiro
O ferreiro e o Ferri
O prego
Acho que este foi um dos souvenires mais legais que consegui da viagem. Depois que concluímos nosso trabalho suado, continuei conversando com o rapaz e não me surpreendeu descobrir que ele é um engenheiro da computação - ou seja, satisfaz o perfil nerd necessário para alguém se interessar por aprender técnicas medievais de moldagem de metais. Além disso, ele me informou que essa oficina funciona como uma escola de ferraria. Nos dias seguintes eu me correspondi com ele por e-mail e ele me passou algumas pistas para uma das próximas atividades que pretendo realizar: me envolver com "historical fencing". Este é um dos desafios para minha estadia na Russia. Mais informações sobre meu sucesso (ou insucesso) virão em próximos posts.