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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

In your face, parte 3: O General - Uma batalha láctea de Starcraft



Na terceira parte deste relato épico temos a chance de conhecer a mão invisível que tudo controla e constatamos que a ignorância é uma benção. Se você ainda não o fez, antes de ler este conto leia a primeira parte e depois a segunda parte.

In your face, parte 3: O General

A ponte de comando estava vazia e a única iluminação provinha do painel central, onde sentado em uma confortável poltrona o General observava o vazio do espaço adiante e a grande esfera cinzenta que era o planeta Tertulii II, sobre o qual seu cruzador de batalha pairava em órbita geo-estacionária.

“Sentado" seria uma licença poética, já que do corpo original do General apenas restavam parte do seu tronco e metade de sua cabeça. Seu cérebro repousava no interior de uma redoma de vidro, engastada em uma cabeça biomecânica. Seria mais correto dizer que o General estava “depositado" sobre essa poltrona, mas embora seu corpo não pudesse mais sentir o prazer agradável de uma almofada confortável sob suas nádegas, seu cérebro permanecia bem ativo enquanto observava os monitores e recebia as informações do campo de batalha no planeta abaixo.

O imediato, segurando uma grande bandeja, parou na porta, esperando receber a instrução para entrar. Ele sabia melhor do que ir simplesmente interrompendo aquele ritual que já presenciara tantas vezes nos últimos quatro anos em que acompanhava o General. Era um trabalho ingrato, ter que cuidar deste ser meio mecânico e meio humano. Parecia que juntava o pior dos dois mundos - peças mecânicas que constantemente exigiam reparo e lubrificação, e manias humanas que constantemente exigiam paciência e resignação. Mas, por alguma razão, o General não confiava em nenhuma outra pessoa para atender a seus caprichos, e essa predileção com certeza resultava em alguns privilégios de que o Imediato não gostaria de abrir mão.

O General era longevo, o que era raridade entre os militares da Império. Quem conseguisse sobreviver às batalhas por muito tempo eventualmente caía nos desafetos do Imperador Mengsk, que se enxergava como um grande líder militar e não suportava rivais. E cair nos desafetos de Mengsk não era uma atitude… saudável…

O General caíra nos desafetos de Mengsk sim, várias vezes, e chegara a ser exilado para os planetas mais distantes do Império, mas a carência de líderes competentes forçara o Imperador a engolir seu orgulho e trazer de volta vários de seus desafetos que, por incompetência de alguém na cadeia de comando, calharam de ainda estarem vivos.

Mas a seu favor o General tinha a vantagem de um currículo quase impecável. Não vencia todas as batalhas, mas já dizia o velho ditado que de que adianta vencer a batalha mas perder a esportiva… Quero dizer, vencer a batalha mas perder a virgindade… Ah, não lembro, é um ditado muito antigo, mas o General sempre conseguia transformar suas derrotas nas batalhas em vitórias na guerra. Em uma sucessão rápida de batalhas ele galgara a escada de condecorações, passando rapidamente da insígnia Ouro para a insígnia Diamante sem nem mesmo passar pela Platina. Receberia a condecoração de Grão Mestre se esta não fosse reservada exclusivamente a homenagens póstumas a militares de alta patente que já estivessem queimando no fogo do inferno.

O General revisava a posição de suas tropas mais uma vez. Era uma estratégia ousada a que ele estava aplicando. A ponte de comando estava vazia, entre outros motivos, porque os conselheiros militares se recusavam a participar do planejamento e execução de estratégia tão vil, tão discordante da moral e virtude das guerras sangrentas que o Império vinha travando contra os planetas rebeldes.

Era uma estratégia muito arriscada, pois o General sacrificava a sobrevivência a médio prazo arriscando um ataque rápido a curto prazo, e com isso pondo em risco também todos os recursos da base caso o ataque não fosse bem sucedido. Para tornar a investida mais rápida, ele ordenava a construção dos quartéis muito próximos às entradas das bases inimigas, o que também os deixava muito vulneráveis.

Mas o General era pragmático também. Seu raciocínio ia um pouco na linha do “Eu estou aqui, no meu cruzador de batalha, muito longe do campo de batalha. É muito fácil assumir riscos assim.” E assim os assumia, sem muita dor na consciência, mesmo quando os ataques não eram bem sucedidos e ele observava em seus monitores como seus soldados morriam um por um, e imediatamente depois os VCEs eram destruídos, e logo depois seus quartéis, seus depósitos de suprimentos…

A vida do soldado, enfim, não valia nada mesmo…

Desta vez, porém, as chances de vencer a batalha eram maiores, pois o General aprendera a usar, mesmo que de forma limitada, as forças dos zergs contra seus adversários. Seus próprios soldados lutariam rodeados de zergnídeos e, na confusão que gerariam nas bases adversárias, muito provavelmente conseguiriam matar um por um os soldados inimigos, e imediatamente depois os VCEs, e logo depois seus quartéis, seus depósitos de suprimentos… Pena que, em todas as batalhas anteriores em que ele usara essa mesma estratégia o resultado era sempre o mesmo - eventualmente a colméia crescia, fugia ao controle e acabava aniquilando todas as formas de vida não-zerg do planeta, inclusive seus próprios soldados, mas enfim, era fato notório que a vida do soldado não valia nada.

O General levantou seus olhos do monitor que estava observando. Tudo estava no lugar. Os quartéis avançados já estavam liberando soldados, os zergnídeos já estavam saindo das colmeias e os comandantes adversários nem estavam esperando pelo ataque.

O General mandou um comando para o Imediato trazer sua bandeja. O Imediato entrou, caminhando lentamente, carregando a enorme bandeja que teimava em se desequilibrar em seus braços. A bandeja continha o elemento mais importante do ritual do General, ao mesmo tempo sua salvação e sua perdição, pelo menos a de seu corpo original que tinha uma severa intolerância à lactose e que definhara perante à insistência de seu dono em alimentá-lo com o pior dos venenos.

O Imediato depositou a bandeja cheia de queijo na mesinha ao lado da poltrona do General. O General soltou um ruído que poderia se aproximar de um riso, mas mais provavelmente era apenas a vibração dos pequenos servomecanismos que controlavam sua boca mecânica enquanto ele a abria para arremessar alguns pedaços de delicioso queijo brie. Seu novo sistema digestivo biomecânico digeria que era uma maravilha, então ele podia se satisfazer sem medo.

O imediato olhou com repulsa o General, mas não ousou fazer qualquer manifestação. Seu irmão era um soldado, e se não estava na superfície de Tertulii II, provavelmente estaria em outro planeta lutando as batalhas para outro general desgraçado e oferecendo sua vida em troca de uma mísera estrelinha na lapela de seu comandante. Ele não podia deixar de se compadecer daqueles soldados que, não importando qual o resultado da batalha, enfrentavam a morte certa de qualquer jeito.

Enquanto se afastava, observou no espaço distante uma tênue luz pulsante, também em órbita geo-estacionária sobre Tertulii II. Ele sabia que aquela luz era um dos cruzadores de batalha de um dos comandantes adversários. Estava logo ali, ao alcance dos canhões Yamato. O Imediato nunca entendeu por que, em vez de sacrificar a vida de milhares de soldados e operários em prol do controle de um pedaço de terra estéril, os comandantes não podiam simplesmente atacar os cruzadores de batalha um do outro e acabar logo com isso, que vencesse aquele que tivesse os melhores canhões, sei lá.

Mas foram quatro anos presenciando coisas que ele preferia poder esquecer. Nesses quatro anos ele aprendera a engolir seus escrúpulos. Havia tempo ele havia percebido que, o que era assunto de vida ou morte para os pobres soldados que davam suas vidas para o império, para os comandantes não passava de um jogo.


O Imediato saiu, apenas a tempo de ouvir o que agora inconfundivelmente era a risada maquiavélica e chiada do General, enquanto este murmurava para seu console: “gê gê”.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Consciências


Agradeço a meu grande amigo Roberto Soares Caldas, cuja inquietação sobre simulações e meta-simulações me inspirou a escrever este texto.

Um dia desses acordei sobressaltado, com suor frio no rosto. De meu sonho só lembrava de sua voz, ameaçando: “Nem a sua mamãe será capaz de te reconhecer quando acabarmos com você”.

Olhei para o computador, em cima da minha escrivaninha. Ainda estava ligado, do mesmo jeito que eu o deixara na noite anterior. Na tela, renderizações tridimensionais de capangas, criminosos sem escrúpulos, conversavam entre si e faziam suas rondas.

No começo tudo era apenas um jogo. Enquanto eu saltava de gárgula em gárgula, prédio em prédio, eu conseguia escutar suas conversas enquanto se gabavam um para o outro, ou enquanto reclamavam de frio, fome, ou enquanto mostravam medo ou raiva dos líderes das gangues rivais, ou enquanto eles diziam como iriam acabar comigo.

Tudo mudava, no entanto, quando eu aparecia. De repente todos se mobilizavam para tentar me destruir. Mal sabiam eles quem eles enfrentavam, como eu conseguia usar as sombras e meu arsenal avançado para acabar com eles antes que pudessem reagir.

Perdi muitas horas nessa rotina, dando voltas por Arkham City e tentando acabar com os planos de vilões como o Coringa, o Duas Caras, o Pinguim… No final de cada jornada, o jogo era salvo imediatamente onde eu havia parado e então eu o fechava para continuar fazendo outras coisas produtivas em meu computador.

Até que um dia não consegui fechar mais o jogo.

Não sei exatamente qual foi o momento. Talvez tenha sido ao monitorar os batimentos cardíacos de um capanga que corria em pânico quando constatou que seus colegas haviam sido abatidos um por um. Não sei. Mas o que aconteceu é que de repente pensei: o que acontece realmente quando eu desligo meu computador?

Aquelas renderizações tridimensionais de capangas, com suas “simulações" de emoções, com suas respostas a estímulos, com suas rotinas de trabalho para seus chefes mafiosos, será que eram meras renderizações? Aqueles seres nada mais eram do que correntes elétricas correndo semi-aleatoriamente pelos terminais de processadores e componentes eletrônicos na minha placa mãe. Mas, afinal, nossos pensamentos e nossas consciências também nada mais são do que o resultado de correntes elétricas passando por componentes orgânicos em nossos cérebros. Quantas destas minúsculas correntes são necessárias para que de suas combinações surja uma consciência, capaz de pensamentos e ações próprios? Quantos micro amperes diferenciam um autômato finito de uma consciência?

É claro, você dirá, que aqueles homenzinhos simulados no computador são simples demais para que possamos sequer cogitar que eles possuem uma consciência de verdade. Afinal, uma simulação é necessariamente uma simplificação do objeto real que está sendo simulado. Se não fosse assim, não estaríamos simulando mas sim criando uma cópia do objeto. Então, é de se esperar que os capangas simulados no computador sejam versões muito simples de seres humanos. Mas quem pode saber se eles não possuem uma consciência, por menor que seja? É possível saber qual é o menor tamanho de uma consciência?

E se fossemos nós simulações dentro dos computadores de uma civilização mais avançada do que a nossa? Esta civilização poderia achar que, por sermos meras simulações, não seriamos seres complexos o suficiente para exibirmos o que eles reconhecessem como consciências. E então, eu pergunto, o que impediria que eles desligassem seus computadores quando se cansassem de jogar?

No começo eu pensava: tudo bem, posso desligar o jogo que, quando eu voltar, estarão todos lá - o Batman, o Coringa, a Harley Quinn, os bandidos…

Isso não é verdade! Quando o jogo é fechado e a memória ocupada por ele é liberada, o máximo que eu consigo fazer é trazer uma cópia de um estado anterior do jogo. Mas, supondo uma analogia do nosso mundo, se eu criasse uma cópia exatamente igual de um cérebro, incluindo todas as correntes elétricas passando pelos neurônios de um momento específico da vida do cérebro modelo, você acha que surgiria a mesma consciência do cérebro original? Que, devido a alguma propriedade emergente impossível de compreender, aquela combinação de correntes elétricas copiadas criaria uma conexão com a mente original, de modo que as duas passassem a representar a mesma consciência? Ou você acha que eu simplesmente teria criado uma consciência nova, um ser com pensamento próprio que, à parte de um conjunto inicial de memórias, não teria mais nada em comum com a mente que lhe serviu de modelo?

Pois bem. Se você chegou à mesma conclusão que eu cheguei, terá percebido que toda vez que você sai do jogo você está matando todas aquelas proto-consciências, e está recriando consciências totalmente novas toda vez que abre o jogo novamente.

É isso que você quer? Ser o genocida de milhares? Só porque cansou de jogar?


Eu já decidi. E é por isso que não desligo mais o meu computador.