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terça-feira, 18 de novembro de 2014

Valar dohaeris: Serving in King Joffrey's wedding feast

This text was published originally on Quora as an answer to the question: What is it like to be an extra on Game of Thrones.

Updated in 2015-01-10: This text was also published on Business Insider!
Updated in 2015-08-16: This text got me the "Most Viewed Writer in Acting" achievement in Quora! I've been in 8th place in a ranking of 10 writers with the most answer views in the past 30 days, with around 17,000 views on the period.


A view from the fortified historical center of Dubrovnik (a.k.a. King's Landing)

Being an extra on Game of Thrones is an amazing experience. I was fortunate enough to participate in King Joffrey's wedding party as a servant (see the pic below). That scene was shot in Dubrovnik, Croatia, an incredibly beautiful historical city at the shore of the Adriatic Sea. At the time I had only read the first book of the series, so I wasn't expecting the major spoiler that happened on that precise episode. But let me tell you - if there is a situation where it is alright to receive a spoiler, that was it! I had the rare opportunity to see that little prick, king Joffrey, choke to death a dozen times just a few paces from me!


My awesome servant outfit

Well, this brings me to one of the cool point of being on set. For a fan, it is kinda difficult to separate the actors from their characters, so it was a real surprise when I struck in conversation with Jack Gleeson, the actor who plays Joffrey, and he turned out to be a really nice guy who let me take a picture with him! Lena Headey, the actress that plays Queen Cersei, was also extremely nice. Everybody on King's Landing was on that scene - Tyrion, Sansa, Loras Tyrell, his grandmother and his father, Lord Tywin, Lord Varys, Grand Maester Pycelle, Lady Brienne, Ser Jamie, Oberyn and Ellaria Sand... Well, you know, you watched the episode. I could chat to some of them and take a glimpse to others. I also discovered Lord Varys' secret to be informed of everybody's lives and whereabouts in King's Landing... He checks everybody's profiles on Facebook between shots! Probably he uses a medieval version, like Westerbook or something. :-D



The five days I spent on the set were amazing. They were intense - we had to meet at a pickup point at 4 AM and were dropped off at the same point at 7 PM, but everything was so exciting that even the long hours didn't matter. We spent the whole days in our costumes, and it was amazing to be surrounded by noble men and women, soldiers, servants and maids. It is funny that you kinda begin to think that everything is real, and you kinda start to think that the guys in armor are really soldiers, though they're regular people just like you. It is kinda scary, if you think about it. It was also extremely funny the anachronisms thatyou see in a place like that. Though your brain is starting to accept that you are in a medieval world, suddenly when you look to the side you see a servant typing on his iPhone, or a City Watch guard smoking a cigarette, or an old nobleman drinking boxed juice... 




Most of the extras were locals from Dubrovnik or nearby cities in Croatia. I was surprised to find out that most of the people with whom I chatted about the series didn't know anything about it! Especially the older extras. But even the people that didn't know the series well at the end of the shooting regretted not having given enough attention to it before.




The work as an extra is fairly easy. Most of the time you are waiting, because not all scenes required all extras. While we waited we chatted, or walked around the set, or spent time watching at the beautiful view of the sea that particular location had. When we had to shoot, there was a production assistant who placed every extra on the place he should be and explained what we should be doing. Being a servant, I mostly had to walk among the tables pouring fake wine on the noblemen chalices, or carrying plates with fake food from one place to another. It wasn't me who poured Joffrey's wine, though... :-) It was kinda lucky to be a servant on that scene - the noblemen were sitting all the time and the soldiers were hidden inside their armor. Given that we servants were walking on the set all the time, we had a greater chance of appearing on camera. And I did, though briefly. 




Another great aspect of the experience was to work in a different country among locals. I am from Brazil, and being surrounded by Croatian people while doing work was awesome. And the Croatian people were so welcoming and nice that I really felt at home.




Well, at the end of the shooting reality struck back and it was a little sad to see everybody in their regular clothes and having to say goodbye. That was an experience that I plan to do again sometime on the future and I strongly recommend to anybody!




Here are some screenshots from the episode where I appear briefly.









And here are some awesome photos with people you might recognize.




quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A Dance with Dragons, Uma Crítica



Ler Game of Thrones é um erro. Eu sei, acredite em mim, pois eu cometi esse erro cinco vezes.

Começar a ler um livro da série A Song of Ice and Fire é dizer adeus a qualquer outro projeto enquanto a última página não tiver sido virada. A vida social do leitor sofre, pois ele não consegue falar sobre outro assunto com as pessoas de seu convívio, o que o deixa com a fama de chato. Pode levar também a risco físico, pois a partir do Feast for Crows, o quarto livro da série, o leitor adquire conhecimento de acontecimentos que ainda não foram exibidos na TV e a tentação de contar para os amigos que assistem a série é perigosamente elevada.

Por isso eu te recomendo: não leia. Use as centenas de horas que você perderia lendo e pensando na série para fazer algo mais útil, como por exemplo um curso de culinária, ou de Python, ou um estudo sobre as Guerras Napoleônicas, etc.

Por ora finalmente me livrei do jugo do George Martin, pois consegui terminar de ler o último livro lançado até agora da série, A Dance With Dragons.

Como todos os outros livros da série, no geral George Martin não decepciona. Este livro é focado nos personagens que não apareceram no Feast for Crows, especialmente nas histórias de Jon Snow, Tyrion e Daenerys. E finalmente aparece de volta o Theon Greyjoy. Na série ele nunca deixou de aparecer, mas nos livros ele foi capturado no segundo livro, A Clash of Kings, e só volta aparecer três livros depois, no A Dance With Dragons.

O livro anterior, A Feast for Crows, mostra as disputas por interesse em Westeros, aproveitando o vácuo e a desordem deixados pelas mortes deselegantes de sua Graça o rei Joffrey e o seu avô e mão, Lord Tywin. Em a Dance with Dragons o foco é em Daenerys e em todos os vaga-lumes que são atraídos por seu brilho com a intenção de ajudá-la ou usá-la na conquista de Westeros. Também acompanhamos Jon Snow em sua tentativa de organizar a muralha, agora que ele precisa aguentar o chato do Stannis e uma multidão de selvagens derrotados na batalha de Castle Black.

O livro é excelente, como sempre com uma história extremamente cativante. George Martin consegue escrever de tal forma que, ao acabar de ler um dos capítulos sobre um personagem, eu ficava com raiva de que o capítulo tivesse terminado porque queria ler mais sobre o personagem. Isto inclusive fazia com que eu começasse o próximo capítulo já com uma pré-disposição negativa, do tipo “bah duvido que este capítulo da Daenerys seja tão legal quanto o anterior”, mas o capítulo seguinte sempre era mais legal ainda.

Porém, não podia ser tudo lindo e maravilhoso. É uma coisa que me dói muito dizer, mas este livro me causou uma crise de confiança no George Martin. Uma das coisas que eu mais admirava nos livros era o fato de que não existiam personagens “intocáveis”. Todos os personagens, não importa o quão queridos e adoráveis fossem, eram presas potenciais para O Estranho.  Isto gerava em mim durante a leitura um frio na barriga de não saber a que momento um personagem ou outro iria morrer e me forçava a tentar não me apegar a qualquer personagem, o que é difícil de fazer com personagens tão legais. Quando a morte inesperada acontecia, a sensação de indignação e a necessidade de superar essa morte eram efeitos bons do livro, que estimulavam a reflexão e criavam a expectativa de descobrir como a história iria progredir agora que <INSIRA SEU PERSONAGEM FAVORITO AQUI> morreu.

Infelizmente no A Dance With Dragons o George Martin ficou com o coração mole e não só os personagens pararam de morrer, mas também personagens que eu acreditei terem morrido em livros anteriores voltaram. Isto me fez perceber que, a não ser que tenha ficado extremamente explícito que o personagem morreu, certificado pelo perito do Instituto Médico Legal e com aval das Irmãs Silenciosas, então o personagem não está morto. E no Dance With Dragons aconteceu várias vezes isto - um capítulo terminando com um personagem se dirigindo à morte certa, para no próximo capítulo ele aparecer tendo sido resgatado, ou um personagem sobrevivendo a uma execução, etc. O efeito negativo disto é que, de agora em diante, sempre que um personagem “morrer” no livro, em vez de passar pela fase de indignação e pela necessidade de superar a morte do personagem agora vou ficar desconfiado pensando que esse personagem pode nem ter morrido mesmo e a graça não será a mesma. Veja que nem mesmo o fato de que a cabeça do suposto falecido ter sido presa a uma estaca com uma cebola entre os dentes é garantia de que o suposto dono da cabeça esteja morto, por isso não me surpreenderia que o próprio Ned Stark aparecesse montado em um dragão para salvar Westeros da ameaça dos Outros em algum dos próximos livros.

O próprio Dance with Dragons nos seus últimos capítulos apresenta algumas mortes importantes, cujo impacto na história seria enorme e que teriam me deixado chocado e ansioso se o George Martin não tivesse aberto o precedente de se permitir “matar” personagens e depois revivê-los. Se os personagens aparecerem vivos no próximo livro (o que não me surpreende mais), então “matá-los” no final do Dance with Dragons terá sido um estratagema barato (e mal sucedido) para tentar fechar o livro com um evento marcante como a execução de Ned Stark, o Casamento Vermelho ou o casamento do Joffrey.

A outra coisa é que o George Martin acabou caindo naquele vício de querer terminar de escrever o livro com pressa. Não sei se foi de fato por pressa que aconteceu, mas logo depois do capítulo da Daenerys em que é inaugurado a arena de lutas em Meereen (descrição propositadamente curta para evitar spoilers) os capítulos parecem mais curtos e condensados, com um monte de coisas acontecendo muito rapidamente. Isto corta um pouco o barato da leitura, pois se tem uma coisa que torna esta série tão viciante são os suspenses no final de cada capítulo que o George Martin introduz. É muito comum que ele apresente um suspense que será resolvido vários capítulos depois, ou até vários livros depois. Mas nos últimos capítulos do A Dance with Dragons ele tinha muita coisa que queria contar, então esses suspenses eram introduzidos e resolvidos muito rapidamente, cortando o barato da expectativa. Mas tudo bem, Georgie, EU TE PERDOO DESTA VEZ. Mas é a segunda vez que você me apronta isto (eu ainda lembro do final do A Storm of Swords) então vê se não repete DE NOVO.

Durante a leitura também acabei me deparando com algumas dúvidas filosóficas relacionadas com a Muralha e com os mortos-vivos.

O livro dá a entender que ainda existem centenas de gigantes do outro lado da muralha. Por que estes gigantes não conseguem matar facilmente os mortos-vivos? Por que eles precisam fugir para o sul com o resto dos povos selvagens?

E o que será que aconteceria se um dos dragões da Daenerys fosse parar no outro lado da muralha e morresse? Ele viraria um enorme dragão morto-vivo, que seria montado por um daqueles White Walkers?

Será que o Bran, sendo um warg, conseguiria ocupar a mente de um dragão e controlá-lo? Será que a própria Daenerys se revelará sendo uma warg também, e é isto que permitirá que ela controle seus dragões?

Eu torço para que não haja dragões mortos-vivos nem o Bran ocupando a mente de um dragão. Eu também espero que a solução para o problema de enfrentar a ameaça dos mortos vivos no norte da Muralha não seja resolvida da forma trivial que seria com um dos dragões da Daenerys queimando todos eles.

E agora vou aproveitar que recuperei minha vida de volta para fazer alguma coisa mais produtiva.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Envie um corvo - uma idéia de aplicativo

Se você, assim como eu, é um aficionado pela série Game of Thrones, terá percebido que em Westeros a principal forma de comunicação a longas distâncias é através do uso de corvos. O princípio é simples: se você mora em Winterfell e precisa enviar uma mensagem para Dorne, no outro lado do continente, você caminha até a torre do Maester, escreve em um papelzinho a sua mensagem, enrola, lacra com uma pequena gota de cera prensada com o seu selo oficial e amarra na perna de um corvo. O corvo então é solto pela janela da torre e, se os Velhos Deuses ajudarem, ele conseguirá chegar ao destino antes que o inverno chegue.
É um meio de comunicação mais rápido do que o tradicional envie-um-mensageiro-a-cavalo, mas tem suas dificuldades.
Uma delas é que você precisa ter trazido para seu castelo um corvo de cada destino para o qual você quer mandar uma mensagem, pois cada corvo só conseguirá usar seu sistema de navegação interno para voltar para um único lugar de origem.
Além disso, uma vez que o corvo foi enviado infelizmente ele não saberá voltar para o seu castelo, então em algum momento você terá que arranjar mais um corvo criado no mesmo lugar de destino. Você pode talvez comprar um corvo de Dorne em King’s Landing, ou pedir para alguém de Dorne que esteja de passagem por Winterfell (não é muito provável, mas ele pode estar indo até a Muralha virar um vigia noturno), e ele até pode deixar algum se não tiver vendido todos no caminho. Isso assumindo que o corvo que ele te vender veio mesmo de Dorne e não de Dreadfort, por exemplo, o que é um pouco complicado de confirmar.
Outra dificuldade é que você precisa cuidar e alimentar os corvos, e você sabe o que se diz sobre criar corvos e eles comerem seus olhos.
Também é difícil obter uma confirmação de se a mensagem foi recebida. Se a mensagem era importante para um destinatário único, então é melhor você enviar vários corvos só para garantir - e aí haja corvos! Você pode pedir que o Maester em Dorne envie um corvo confirmando o recebimento da mensagem anterior, como se fosse um protocolo TCP/IP rudimentar, mas aí você gera para o coitado a necessidade dele mesmo repor esse corvo vindo de Winterfell. Fica mais fácil de garantir que a mensagem seja recebida se ela for um broadcast, por exemplo um anúncio de que a rainha regente é uma piranha incestuosa. Nesse caso mesmo que um dos corvos se extravie algum outro Maester fofoqueiro vai retransmitir a mensagem para Dorne.
E por último, mas não último em importância, embora o corvo voe em linha reta (seguindo uma trajetória ortodrômica) ele está sujeito a todo tipo de intempéries, o que fará com que o corvo demore muito em chegar. Muito mais do que um tweet ou um e-mail, com certeza.
Mas existe algo mais charmoso do que receber uma mensagem enviada via corvo?
É para permitir que você se sinta como um Lorde de Winterfell que o aplicativo Raven Express permitirá que você envie mensagens para seus amigos da mesma forma que o próprio Ned Stark teria feito antes dele ter perdido a cabeça.
Seguindo as tendências modernas, você poderá escrever em seu smartphone, tablet ou computador uma mensagem de até quarenta-e-cem caracteres e lacrá-la com seu selo customizado. Você então escolherá no mapa a fortaleza de seu amigo e um corvo virtual será enviado. A mensagem demorará para chegar ao destino exatamente o tempo que um corvo real levaria para percorrer a distância entre os dois locais. Existirá uma probabilidade de que o corvo seja morto por um predador ou interceptado no caminho, e além disso o número de corvos disponíveis será limitado, então se você quiser enviar mais mensagens para o mesmo destino você terá que comprar corvos adicionais através de in-app purchases (você precisará de um cartão de crédito internacional para isto). Haverá também mini-games onde você pode cuidar de seus corvos, alimentando-os e ensinando-os a falar coisas engraçadas. Você poderá também comprar um corvo branco para avisar seus amigos em Dorne que o inverno está chegando, embora já ninguém mais acredite nisto vindo de alguém de Winterfell.
Com este aplicativo você se perguntará como era possível viver sem Facebook ou Whatsapp e respirará aliviado por viver nesta época de maravilhas.


O aplicativo estará disponível na AppStore quando o sol nascer no oeste e se pôr ao leste, quando os oceanos secarem e as montanhas forem espalhadas ao vento como folhas secas.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Meu segundo app, FOR2014 Guide

Se você esteve em Hvar, na Croácia, entre 19 e 22 de junho, então com certeza participou do festival FOR2014. Tocaram um monte de bandas que eu não conheço em uma ilha paradisíaca da qual nunca ouvi falar, mas o mais importante é que quem esteve presente pôde usar o meu segundo app na App Store, o FOR2014 guide.

Recebi a encomenda deste aplicativo de um amigo croata uma semana depois de ter anunciado o lançamento da Biruta de bolso. Foi um desafio interessante, pois tivemos menos do que uma semana para criar o aplicativo e deixá-lo funcionando (para poder deixar a margem de tempo que a App Store precisa para aprovar e disponibilizar o aplicativo). Todo o design gráfico foi feito pelo meu amigo, o Kreso Grancaric, e toda a parte de desenvolvimento de software foi feito por mim.

A coincidência legal é que Kreso e eu nos conhecemos no set de filmagem do Game of Thrones. Eu estava fazendo serviço free-lancer de serviçal em um banquete medieval e acabei fazendo serviço free-lance como programador... É engraçado como podem surgir oportunidades onde você menos espera.

Seguem abaixo algumas capturas de tela do aplicativo para que você veja do que estou falando.

O aplicativo está disponível para iOS 7 na App Store.








segunda-feira, 14 de abril de 2014

O casamento do Joffrey - Finalmente!



Em setembro do ano passado consegui participar como figurante na gravação da quarta temporada da série Game of Thrones. Você pode ler mais a respeito neste post.

Depois de angustiantes seis meses de espera, finalmente o casamento do Joffrey foi exibido na HBO. Obviamente eu estava ansioso para saber se eu tinha aparecido em alguma cena, porque passei os últimos seis meses me alugando para todo mundo que eu conhecia e, se eu não aparecesse na série, ficaria um pouco sem graça.

Mas apareci!!! Eba! São vários pedacinhos em que eu apareço de relance, mas pelo menos o suficiente para ser reconhecido e poder apresentar como evidência.

É muito estranha e legal a experiência de assistir o episódio em cuja filmagem participei. Na primeira vez que assisti nem consegui prestar atenção na festa do casamento, porque eu fiquei apertando pausa a cada 5 segundos, voltando atrás, avançando... Assisti de modo muito não linear hehe.

Mas quando assisti depois com calma, fiquei impressionado com a transformação que houve desde o set até a imagem na TV. O set de filmagem era legal demais, mas quando você olhava as mobílias, talheres e decorações de perto elas não pareciam tão realistas assim. Mesmo quando os atores estavam interpretando a cena não parecia tão emocionante assim. Mas quando apareceu na tela! Todo o desenvolvimento do casamento do Joffrey ficou incrível!

Outra coisa interessante é que foram cinco dias de filmagem, das 8:00 às 18:00, para produzir apenas UMA cena de QUINZE MINUTOS! Percebi como uma quantidade enorme de cenas que a equipe passou horas filmando foram cortadas, e é aí que você vê a preocupação dos caras com a perfeição. A trupe de malabaristas e cuspidores de fogo que aparecem no banquete foram filmadas por horas, e eu cheguei até a pensar que poderia estragar a cena se saturassem com cenas deles. Mas no final das contas ficou perfeitamente balanceado. Mas é aquilo - filmaram horas e horas para usar apenas quinze minutos no final. Não é à toa que GoT é a série mais cara da televisão.

Aaaaaah, e a pior parte foi ter que segurar o mega-spoiler que aconteceu nessa cena, que eu presenciei sendo filmada de todos os ângulos possíveis. Deu até para memorizar as falas do Joffrey hehehe.

Abaixo seguem algumas fotos para provar que não estou mentindo.

Oh saudades de ti, King's Landing!






E, para finalizar, só para você ficar com um pouquinho mais de inveja...
A adorável rainha-mãe

O melhor personagem da série, ao lado de Tyrion Lannister

Lord Tywin Lannister, outro personagem fantástico

Ser Jamie Lannister
O rei Joffrey. Foi um prazer te servir... o vinho envenenado!!!

Podrick Payne




sábado, 8 de março de 2014

Um nerd de São Paulo na corte do rei Joffrey

Dubrovnik é uma cidade no litoral da Croácia que, por ser uma cidade fortificada que preserva um visual medieval fantástico, é muito usada como cenário para a filmagem de filmes e séries. Você deve ter ouvido falar em uma seriezinha chamada Game of Thrones, que por acaso é a melhor série de todos os tempos já produzida para a televisão, e não sei se você sabia mas muitas das cenas ambientadas em King’s Landing são filmadas lá mesmo em Dubrovnik.

Por ter conseguido conversar com as pessoas certas e estar no lugar e na hora certos, consegui me infiltrar nas filmagens da quarta temporada como figurante. A cena da qual participei foi filmada entre 9 e 13 de setembro, e foi uma experiência incrível! Abaixo faço um relato de como foi. Infelizmente, devido a um contrato que assinei com a HBO eu não posso divulgar fotos ou informações mais específicas sobre o que foi filmado até que estas informações sejam divulgadas pela própria HBO, então terei que esperar até a estréia da nova temporada, prevista para abril de 2014 para postar fotos em que eu apareça. As fotos que eu coloquei no post são de lugares neutros ou são fotos que foram vazadas em outros lugares (neste caso marcados com [*]), então se você que está lendo for um advogado da HBO por favor não me processe!

Editado em 19/03/2014: A Lidiany do GameOfThronesBR publicou uma entrevista comigo! Dá uma olhada lá depois de ler este post!

Editado em 14/04/2014: Saiu o episódio! Coloquei as fotos do casamento do Joffrey neste post.

Editado em 18/11/2014: Respondi no quora.com à pergunta What is it like to be an extra no Game of Thrones.

Editado em 10/01/2015: A minha resposta no quora.com também foi publicada no site Business Insider.

Editado em 16/07/2017: Na véspera da estréia da sétima temporada de GoT foi publicada uma nova entrevista comigo no site Business Insider.

E agora, ao relato…

Ao fundo, o Centro Velho de Dubrovnik

Desembarque em King's Landing

Parti de Londres para Dubrovnik no voo das 5 da manhã, após ter passado a noite no aeroporto de Gatwick. O voo acabou sendo bem cansativo, mas eu estava tão empolgado com o que estava prestes a acontecer que nem liguei. Cheguei às 10 da manhã e liguei para o gerente dos figurantes para dizer que já havia chegado. Ele me explicou mais ou menos como chegar ao local onde os ajustes das fantasias eram feitos, que era em um distrito a meio caminho entre o aeroporto e Dubrovnik. Peguei um transporte desde o aeroporto e pedi para descer no meio do caminho.

Foi um pouco difícil encontrar o lugar. Por não ter explicado direito para o motorista onde eu deveria descer, acabei descendo em um ponto antes. O ponto ficava na estrada, onde não havia lugar para pedestres caminharem, então em vários momentos tive que caminhar no meio da estrada mesmo. O trajeto até o galpão onde ficava a base dos figurinos foi longo, sob um sol escaldante. Ainda me perdi por lá e tive que tentar me comunicar com as poucas pessoas que eu via na rua para encontrar o lugar preciso.

Mas finalmente cheguei. Uma vez lá, o lugar era inconfundível. Onde mais eu poderia ver soldados Lannister, aldeões e nobres sentados assistindo a uma trupe de malabaristas?

Entrei no terreno da base dos figurinos e já senti que estava entrando em outro mundo. Logo de cara pedi ajuda a um rapaz que estava fantasiado com a armadura vermelha dos guardas dos Lannister. Ele me levou até o local onde eu deveria me apresentar e fui atendido por uma moça, que me cumprimentou falando "Ah, você que é o rapaz do Brasil? Bem vindo!" e me pediu para esperar.

A experiência já estava sendo muito legal. Eu estava dentro de um enorme galpão, sentado em um canto onde várias fileiras de cadeiras estavam organizadas. O setor onde eu esperava estava separado do resto do galpão por uma cortina, através da qual dava para entrever suportes carregados com fantasias de todos os tipos. Mas a quantidade de fantasias era tão grande que havia vários suportes espalhados mesmo do lado em que eu me encontrava, então enquanto eu esperava eu pude espiar um pouco. Havia muitas fantasias de homens e mulheres nobres, mas evidentemente o que chamava minha atenção eram as armaduras. Havia algumas armaduras vermelhas dos Lannister e as armaduras com escamas metálicas da King's Guard.

Uma foto do armazém das fantasias[*]. 


Enquanto observava as fantasias eu ficava imaginando qual seria a fantasia que eu usaria. Durante a negociação prévia por e-mail, o gerente dos figurantes me havia dito que eu seria um membro da nobreza. Achei muito legal esta possibilidade, mas devido a mudanças de agenda eles tiveram que trocar minha fantasia. Então fiquei secretamente desejando que, com um pouco de sorte, eu pudesse receber alguma armadura de soldado. Ei, eu sei o que você está pensando! Eu até que poderia ser um soldado! Um soldado um pouco pançudo e pouco musculoso, mas e daí???


A espera acabou sendo um pouco longa. Enquanto eu esperava vi alguns figurantes aparecendo com os figurinos que usariam na gravação daquele dia. Estavam fantasiados com roupas de aldeões e caras e corpos sujos. Em particular, a fantasia de um velhinho estava tão boa que eu olhava para ele e sentia pena, quase tive vontade de dar uma esmola. O engraçado é que eu veria esse mesmo velhinho no dia seguinte com roupa de nobre, o que demonstra como King's Landing oferece oportunidades de crescimento para qualquer um mesmo. Enquanto esperava, chegou uma menina que também estava esperando pelo seu figurino. Perguntei se ela seria figurante, e ela me disse que era contorcionista. Perguntei se era a primeira vez que ela estava no Game of Thrones, ao que ela me respondeu que não. Pensei na única cena que eu lembrava que tinha uma contorcionista e antes que eu pudesse perguntar, ela me respondeu: "eu fiz a cena em que Tyrion paga pelos serviços do Podrick levando-o para o bordel". Aham, quem assistiu a terceira temporada lembrará quem era ela, uma das únicas quatro mulheres do mundo conhecido capazes de realizar o nó Meereenese.

Então eu fui finalmente chamado! Eu estava empolgadíssimo! Mesmo quando fui informado de que de membro da nobreza eu havia sido demovido para serviçal eu ainda estava feliz. Experimentei a fantasia, que era uma vestimenta medieval completa. Uma calça roxa larga por baixo, botas de couro, uma túnica roxa e um lenço preto amarrado no pescoço. Um comissário de bordo medieval, podemos dizer. A fantasia havia caído bem, mas ainda era necessário fazer um ajuste da barra. A costureira que me ajudou com a fantasia fez as medidas necessárias, logo em seguida me levou para tirar uma foto, e o processo estava terminado. Tirei a fantasia e, quando estava indo embora, fui informado sobre como seria o primeiro dia de gravação: eu deveria estar às três e vinte da manhã em um ponto de espera, onde um transporte iria buscar os figurantes e leva-los para a base dos figurinos.

Não apareço nesta foto, mas ela mostra meus colegas serviçais e mostra
a fantasia que eu usei. Passamos 4 dias inteiros filmando juntos. [*]


Consegui chegar a Dubrovnik sem problemas. A base dos figurinos ficava a uns 7 km da cidade, e em vez de esperar pelo ônibus acabei pedindo carona na estrada. Um rapaz da Sérvia, que não falava uma palavra de inglês, parou para me dar carona. Ele foi muito legal e me deixou na rua de meu albergue. Fiz o checkin, deixei minhas coisas, fui até a cidade velha para passear um pouco e voltei para dormir cedo. O dia seguinte seria muito especial e eu não queria me arriscar a perder o ônibus!

Forte Lovrijenac, logo ao lado do local das filmagens.

A serviço do rei

Cheguei à base dos figurinos às 3:40 da manhã de segunda-feira, em um ônibus lotado de figurantes. Lá nos esperava uma longa mesa com um generoso café da manhã: pães, ovos fritos, presunto, queijo, salsichas, cereais, frutas, biscoitos, café, suco, chá… Nós figurantes experimentariamos uma longa espera até a hora de ir ao local de filmagem, então pelo menos a organização nos manteria bem alimentados até lá.

Aos poucos, na medida em que terminavam de tomar o café da manhã, os figurantes iam se dirigindo para o interior do grande galpão onde se encontravam as fantasias. Lá cada um de nós passaria pelo mesmo processo: seriamos chamados para o outro lado da cortina, onde colocaríamos nossas fantasias com ajuda das funcionárias, depois seriamos encaminhados a um outro salão dentro do galpão onde receberíamos algum tratamento para o cabelo. Os homens seriam barbeados e depois receberiam um "penteado medieval", por assim dizer. As mulheres sofreriam um pouco mais, pois deveriam receber aqueles penteados elaborados cheios de tranças.

Na saída do galpão, a transformação era impressionante. Onde antes havia jovens e idosos com suas roupas modernas, agora começavam a se concentrar homens e mulheres vestidos como nobres, soldados e serviçais. Grupos de mulheres nobres se reuniam em rodinha e conversavam enquanto fumavam seus cigarros. Soldados e serviçais faziam bagunça e piadas em voz alta, enquanto alguns, acostumados com a rotina diária, aproveitavam o tempinho livre para tirar uma soneca.

Mulheres nobres esperando pelo ônibus na base dos figurinos. [*]

Algumas visões eram surreais e fascinantes. Por exemplo, ver um soldado de armadura mexendo em seu iPhone; um idoso nobre tomando suco de caixinha; uma moça da nobreza saindo do banheiro químico; um soldado com um maço de cigarros em sua bota. Esses anacronismos eram tão interessantes e bizarros que eu não conseguia parar de simplesmente ficar caminhando em volta e observando.

Neste primeiro dia de filmagem acabei fazendo amizade com um rapaz chamado Phil, o mesmo soldado Lannister que me ajudou quando cheguei para o ajuste das fantasias. Ele é um grande fã de Game of Thrones e pudemos conversar por várias horas sobre a série (nossa… como sou nerd…). Por incrível que pareça, é baixa a proporção de figurantes que é de fato fã da série. A grande maioria é composta por croatas que estão lá apenas pelo dinheiro (sim, você é pago para ser figurante!), e muitos deles nunca assistiram a série. Havia, claro, alguns poucos fãs que viajaram exclusivamente para ser figurantes. A maioria com quem pude conversar era da Inglaterra, mas fiquei sabendo de um rapaz que viera da Alemanha e havia alguns americanos por lá. Mas todo mundo ficava impressionado quando eu falava que tinha vindo do Brasil! Era difícil alguém vir de tão longe para isso.

Lá pelas 7:30 da manhã, cada "categoria" de figurantes (serventes, homens nobres, mulheres nobres, soldados) foi chamada e passou por revista pela equipe de figurino e maquiagem para ver se estava todo mundo com aquele visual medieval perfeito. Assim que passávamos pela revista, entravamos no ônibus que nos levaria para o local de filmagem.


Fascinado como eu estava por tudo o que estava acontecendo em meus primeiros dias em Dubrovnik, não pude deixar de me impressionar com a bela vista da Cidade Velha que tínhamos do ônibus no caminho até o local da filmagem. Este é de fato o local perfeito para filmar uma cidade-fortaleza medieval. Uma muralha de mais de 2 km de extensão protege um núcleo de casas e igrejas de pedra, à beira do mar Adriático, com uma vista do oceano maravilhosa. Com um pouco de esforço, eu conseguia imaginar que as frotas de cruzeiros e barcos de turismo que chegavam ao porto de Dubrovnik eram na verdade as embarcações de Lord Stannis tentando invadir King's Landing.

O local das filmagens era um parque localizado bem próximo à Cidade Velha, separado da fortaleza de Lovrijenac por um pequeno trecho de mar. No topo desta fortaleza normalmente há uma bandeira da Croácia, mas durante as filmagens uma bandeira da casa Lannister-Baratheon tremulava ao vento. Quem subisse a esta fortaleza poderia ter visão de longe do set de filmagem, mas seria inibido de tirar fotos por um segurança da produção que ficava lá o dia inteiro. Eu concluí que o trabalho desse segurança devia ser o mais monótono e chato de toda a produção da série, por isso espero que ele tenha recebido um bom pagamento. Este cara merece.

A bandeira Lannister-Baratheon tremulando ao vento.

O parque estava todo preparado para a cena que iríamos gravar. Na verdade não sei o quanto posso escrever a respeito, pois tenho um contrato de confidencialidade que me impede de passar informações. Teoricamente só posso comentar sobre coisas que já tenham sido exibidas e anunciadas pela HBO, por isso vou tentar ficar no lado conservador em minhas descrições.

O que posso afirmar é que a produção da série é fenomenal. Acho que meu respeito pelo esforço que a equipe de produção realiza aumentou em várias ordens de grandeza. Principalmente porque dias depois da filmagem eu tive chance de visitar o mesmo lugar, completamente limpo, e aí eu tive a verdadeira sensação da transformação que estes caras conseguiram realizar no local.

A cena era um grande festim, e o local estava preparado para tal. Havia dezenas de grandes mesas, com pratos, talheres e belas comidas falsas. Eu fiz uma contagem por alto e pude contar mais de 100 figurantes fazendo o papel de homens e mulheres nobres. A produção da série era tão cuidadosa que, para filmar de forma realista um festim com mais de cem convidados, eles fizeram um festim com mas de cem convidados! E a atenção aos detalhes era impressionante. Havia muitos cantos escondidos onde a equipe de produção se preocupou em colocar uma planta, ou uma parede falsa, ou um porta-estandarte. Aquele canto poderia nunca ser filmado, mas o importante é que, se fosse filmado, seria realista.

Como você já deve ter imaginado, o trabalho de figurante não é muito glamuroso. Basicamente nós temos que ficar horas e horas esperando até que sejamos solicitados para alguma cena específica. E, enquanto esperávamos, havia algumas poucas opções de entretenimento. Alguns liam ou navegavam na internet em seus smartphones; outros conversavam; outros dormiam; outros jogavam cartas; outros tomavam água, café e comiam biscoitos. Um senhor chegou a levar uma gaita de boca e ficava tocando.

Havia um setor do parque, um longo corredor com um parapeito e uma vista belíssima para o mar, onde havia cadeiras e onde os figurantes deveriam ficar esperando quando não estavamos filmando. Muitos ficavam lá mesmo, especialmente aqueles que não ligavam para a série, como os mais idosos. Outros, como eu, aproveitavam para ficar escapando e tentando prestar atenção na equipe de filmagem e na atuação dos atores.

Esta era a vista que tínhamos no local onde nós figurantes
esperávamos pela nossa vez de filmar.

Eu acho que uma coisa muito interessante de se colocar dezenas de pessoas com um objetivo comum é que de repente se torna tão mais fácil conversar e fazer amizades. Eu era um entre dez serviçais Lannister, e em diversas vezes eramos instruídos a ficar esperando juntos para quando fossemos necessários em algumas cenas. Então pudemos conversar bastante, e ao longo dos dias daquela semana acabamos criando uma amizade. Era um pouco engraçado o contraste, porque, desconsiderando a mim, todos os serviçais tinham entre 18 e 20 anos. Eu era o mais velho de todos, com 29 anos. Por alguma razão, talvez por eu ser mais velho, ou talvez por ser brasileiro, ou talvez porque os croatas são assim simpáticos e hospitaleiros, todos vinham conversar comigo. Fiz amizade com um outro viciado em Game of Thrones e viciado em filosofia chamado Erijck, de Rijeka, com quem conversei bastante; com outros jovens de Dubrovnik muito divertidos, com nomes croatas como Leon, Lovro, Faruk e Kreso. Mas o ambiente era descontraído de tal forma que você poderia conversar com qualquer pessoa a qualquer momento. O único fator limitante seria se a pessoa conversava em inglês. Normalmente os jovens conversavam em inglês muito bem, mas com as pessoas mais idosas era muito difícil de conversar, pois só falavam em croata.

Eventualmente, chegaram os momentos em que nós poderiamos parar de ficar apenas esperando e filmar de fato. Neste momento eu percebi que, no final das contas, ser um serviçal acabou sendo uma sorte! Os soldados, por exemplo, eram os que mais sofriam. Eles tinham que ficar esperando em um calor escaldante, dentro de uma armadura pesada (a mais pesada de todas pesava 20 kg) e, mesmo que fossem capturados pelas câmeras, eles estariam usando seus capacetes fechados, então não poderiam ser reconhecidos depois. Era muito comum ver os soldados, enquanto não estavam filmando, estirados pelo chão ou em cima das mesas tentando descansar do esforço de ficar nas armaduras. Os nobres, por outro lado, eram muitos, e ficavam basicamente sentados nas mesas do banquete, por isso a chance de aparecerem em vídeo era muito pequena. Nós serviçais, por outro lado, éramos poucos, apenas dez, e, como serviçais, tínhamos que ficar caminhando pela cena do banquete o tempo todo, servindo vinho e carregando pratos, então a chance de aparecermos era muito maior. É claro que não dá para saber até o momento em que a série vá ao ar, o que deverá ser na metade de 2014, mas fui informado pela responsável pelos figurantes que eu apareci em várias das cenas filmadas então eu tenho uma grande chance de aparecer de relance. Uhú!!!

Durante a filmagem, o papel do figurante era muito fácil. Os soldados só deveriam ficar parados em pé em alguns pontos específicos. Os nobres deveriam ficar nas mesas conversando entre si, ou caminhando pelo local do banquete. Os serviçais deveriam fingir que estavam servindo ou atendendo aos nobres. Em algumas cenas eu carregava uma jarra com vinho invisível, e eu deveria ir de mesa em mesa perguntando se os nobres queriam vinho. Algumas cenas tinham que ser filmadas várias e várias vezes, e nós tinhamos que repetir os mesmos atos que tinhamos feito na rodada anterior, então  tentavamos fazer algumas piadinhas. Por exemplo, quando eu me aproximei para servir um homem nobre, sua companheira nobre me impediu de servir colocando a mão sobre o cálice e dizendo "Ele não vai beber porque está dirigindo", e coisas do tipo.

A filmagem em si é fascinante. É muito interessante como o diretor e sua equipe realizam um trabalho de otimização em tempo real. Eles filmam a cena uma vez, com o posicionamento inicial dos figurantes e dos elementos do cenário. Depois analisam a imagem e, se percebem que o cenário estava muito carregado em um lugar ou muito vazio em outro, reposicionam os elementos ou os figurantes e filmam de novo, e assim vão fazendo até que a imagem fique perfeita.

Outra coisa interessante é o modo como eles capturam os diferentes ângulos que irão para a série. Eles usam poucas câmeras, normalmente duas, mas no máximo três, e filmam a mesma cena várias vezes, porém colocando as câmeras em lugares diferentes. Assim, algumas cenas cruciais foram filmadas dezenas de vezes, com os atores realizando exatamente a mesma atuação, apenas para que fosse possível capturar ângulos diferentes.

É claro que, para um fã da série, uma das partes mais legal disto tudo é poder ver de perto seus personagens favoritos e vê-los atuando. Tive a sorte de estar presente em uma cena crucial da quarta temporada, então todos os personagens de King's Landing estavam lá: Joffrey, Margaerie e sua avó, Tyrion e Lady Sansa, Lord Tywin, Lady Cersei, Loras Tyrell e seu pai, Podrick, Grand Meister Pycelle, Lord Varys, Lady Brienne, ser Jamie e Bronn. Era impressionante vê-los ao vivo, principalmente porque eu não conseguia deixar de vê-los como seus personagens. Era muito estranho então vê-los fazendo piadinhas durante as filmagens, ou vê-los simplesmente sendo normais quando não estavam filmando. Eles eram simpáticos e acessíveis, e quando não estavam com pressa (porque deveriam trocar o figurino, por exemplo) eles paravam para conversar e tirar fotografias. Por isso foi um choque quando, por exemplo, fui conversar com a atriz que interpreta a Cersei e ela foi super legal comigo e posou para uma foto. A personagem dela é uma mulher arrogante, manipuladora e calculista, o que contrastou com sua personalidade na vida real. Uma coisa que talvez pudesse ser um pouco chata era que eu não sabia dos nomes de nenhum dos atores, só dos personagens, então quando eu os abordava eu tentava disfarçar fazendo alguma brincadeira usando o nome do personagem mesmo, com por exemplo "Lord Tywin, o senhor gostaria de um pouco de vinho fictício?". Tenho impressão de que eles não devem gostar muito disso, mas dane-se, eu sou mesmo é fã da série e dos personagens da série, e não dos atores!

De modo geral os atores não eram muito incomodados ou abordados pelos figurantes, principalmente porque a maioria dos figurantes não ligava para a série e em segundo lugar porque havíamos sofrido um pouco de terror psicológico com o contrato que tivemos que assinar, que dizia que não poderíamos tirar fotos de forma alguma do set de filmagem. Mas no final das contas a decisão dos atores era soberana, então se eles nos deixassem tirar fotos então era isso o que importava! Mas muitos figurantes ficavam  tímidos e nem mesmo pediam para tirar fotos.

Era muito engraçado ver os atores, entre as filmagens, mexendo em seus iPhones e iPads. Especialmente engraçado foi ver o Lord Varys, o sabe-tudo mestre das fofocas, andando com seu iPad. Isto me fez entender como ele sabe tanto sobre todo mundo de King's Landing. É até óbvio! Ele fica espionando todo mundo no Facebook!

Voltando ao trabalho do figurante, você deve imaginar como deve ser difícil coordenar mais de 100 figurantes que não fazem a menor idéia do que devem fazer a cada instante. Havia uma hierarquia na equipe de produção que tinha o objetivo de controlar os figurantes. Uma moça da produção da série chamada Sara gritava instruções em inglês para cada cena, como por exemplo "Precisamos de um casal de nobres caminhando por aqui, um serviçal dando voltas por aqui, etc etc". Um membro da equipe de apoio da Embassy chamado Daniel repetia em Croata e pacientemente em inglês para pessoas como eu e explicava detalhes que não tinham ficado claros na explicação da Sara. E muitos outros membros da equipe de apoio ficavam espalhados pelo set ajudando a buscar os figurantes quando estes eram necessários. Todo mundo era muito legal na equipe de apoio, principalmente o Daniel. Quando eu perguntava alguma coisa sobre a qual não tinha entendido ele repetia pacientemente, e ficava brincando com todos os figurantes, o que deixava o ambiente bem legal. Alguns figurantes reclamavam de que se sentiam tratados como gado, mas em geral eu achei que, na medida da dificuldade inerente a controlar uma quantidade tão grande de pessoas, a equipe nos tratava muito bem. Nos últimos dias de gravação acabei fazendo amizade com um rapaz chamado Tomislav, ou Tommy. Ele era um "stand in", um ator contratado para ocupar o lugar de um ator principal quando o diretor procura pelos melhores ângulos para a câmera. O Tommy e o Erijck, aquel rapaz viciado em Game of Thrones e estudante de filosofia, acabaram se tornando bons amigos e, quando as gravações já tinham terminado, nós aproveitamos para andar por Dubrovnik juntos.

Depois que os atores e figurantes estavam posicionados e todos sabiam o que deveriam fazer, os cinegrafistas começavam a gravar e gritavam "Roooolling!!!" para que todos soubessem que as câmeras já estavam capturando vídeo. Os membros da equipe de apoio repetiam em voz alta para que todo mundo escutasse, e este era o momento de fazer silêncio. Em seguida, o diretor gritava "Background action!", o que era a dica para os figurantes para começarem a fazer suas ações. E finalmente ele gritava "Action", quando os atores começariam a interpretar seus papéis. No final da cena, o diretor exclamava "Cut!", e então saberíamos se a cena ficou boa ou se teríamos que gravar de novo. Sempre que terminava a gravação de uma cena, todos batiam palmas e celebravam. Especialmente quando a cena era gravada corretamente na primeira vez, o que aconteceu algumas vezes.

Nós passavamos muito calor durante o dia, mas sempre que quisessemos tinhamos à disposição garrafas de água mineral. Também tinhamos acesso a biscoitos, frutas e café, e recebíamos três lanches por dia, compostos normalmente por um sanduíche ou hamburguer grande, uma fruta, um doce e uma coca-cola morna. Às vezes também recebiamos sopa de lentilha na hora do almoço, que, apesar do calor, era muito gostosa.

O dia de gravação normalmente terminava entre 18:30 e 19:00. Neste horário, todos íamos para a rua esperar por nossos ônibus que nos levariam de volta à base dos figurinos para poder trocar de roupa. Quem passava pela rua naquele momento ficava assombrado de ver toda aquela gente fantasiada, e devia ser uma visão impressionante mesmo. De volta à base, tirávamos nossas fantasias, vestíamos nossas roupas normais e o ônibus nos levava de volta ao lugar de onde tinha nos recolhido. Então a jornada de trabalho acabava sendo de 4:10 até 19:00. Era um trabalho muito cansativo, mas tão divertido que valia a pena.

Esperando pelo ônibus para voltar para a base das fantasias. [*]

Participei das gravações de segunda a sexta-feira. Na terça-feira perdi a hora e acabei não conseguindo chegar a tempo na base dos figurinos, então perdi o dia. Por sorte, a partir de quarta-feira o horário de concentração para pegar o transporte mudou de 3:20 para 4:10 da manhã, o que pelo menos permitiu ter uma horinha a mais de sono.

A sexta feira, o último dia de gravações, foi especial. Quando a última cena foi gravada, começou uma celebração envolvendo todo mundo que estava no set. As pessoas estavam felizes, batendo palmas, e aproveitando para tirar fotos uns dos outros. Neste momento ninguém da produção estava reclamando! Eu senti uma pontinha de tristeza, pois esta experiência tão incrível estava chegando ao fim. Eu ainda iria voltar no domingo para filmar uma outra cena, mas Murphy iria me cobrar pela diversão que tive durante a semana e eu não conseguiria participar desta cena. À noite, juntando um pouco da energia que restava, um grupo de figurantes combinou uma reunião na Cidade Velha para beber e conversar. Foi tão estranho rever todo mundo com as roupas normais! Depois de cinco dias eu já estava acostumado a ver meus amigos com roupa de serviçais e os homens e mulheres com roupas de nobres, e foi uma dura volta à realidade saber que já tinha acabado.

Assim concluo o meu relato. Espero que você tenha gostado!

Ah, todas as fotos marcadas com [*] já tinham sido vazadas na internet, e tirei deste site: http://imgur.com/a/2K75U#r1CY1oV