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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

In your face, parte 3: O General - Uma batalha láctea de Starcraft



Na terceira parte deste relato épico temos a chance de conhecer a mão invisível que tudo controla e constatamos que a ignorância é uma benção. Se você ainda não o fez, antes de ler este conto leia a primeira parte e depois a segunda parte.

In your face, parte 3: O General

A ponte de comando estava vazia e a única iluminação provinha do painel central, onde sentado em uma confortável poltrona o General observava o vazio do espaço adiante e a grande esfera cinzenta que era o planeta Tertulii II, sobre o qual seu cruzador de batalha pairava em órbita geo-estacionária.

“Sentado" seria uma licença poética, já que do corpo original do General apenas restavam parte do seu tronco e metade de sua cabeça. Seu cérebro repousava no interior de uma redoma de vidro, engastada em uma cabeça biomecânica. Seria mais correto dizer que o General estava “depositado" sobre essa poltrona, mas embora seu corpo não pudesse mais sentir o prazer agradável de uma almofada confortável sob suas nádegas, seu cérebro permanecia bem ativo enquanto observava os monitores e recebia as informações do campo de batalha no planeta abaixo.

O imediato, segurando uma grande bandeja, parou na porta, esperando receber a instrução para entrar. Ele sabia melhor do que ir simplesmente interrompendo aquele ritual que já presenciara tantas vezes nos últimos quatro anos em que acompanhava o General. Era um trabalho ingrato, ter que cuidar deste ser meio mecânico e meio humano. Parecia que juntava o pior dos dois mundos - peças mecânicas que constantemente exigiam reparo e lubrificação, e manias humanas que constantemente exigiam paciência e resignação. Mas, por alguma razão, o General não confiava em nenhuma outra pessoa para atender a seus caprichos, e essa predileção com certeza resultava em alguns privilégios de que o Imediato não gostaria de abrir mão.

O General era longevo, o que era raridade entre os militares da Império. Quem conseguisse sobreviver às batalhas por muito tempo eventualmente caía nos desafetos do Imperador Mengsk, que se enxergava como um grande líder militar e não suportava rivais. E cair nos desafetos de Mengsk não era uma atitude… saudável…

O General caíra nos desafetos de Mengsk sim, várias vezes, e chegara a ser exilado para os planetas mais distantes do Império, mas a carência de líderes competentes forçara o Imperador a engolir seu orgulho e trazer de volta vários de seus desafetos que, por incompetência de alguém na cadeia de comando, calharam de ainda estarem vivos.

Mas a seu favor o General tinha a vantagem de um currículo quase impecável. Não vencia todas as batalhas, mas já dizia o velho ditado que de que adianta vencer a batalha mas perder a esportiva… Quero dizer, vencer a batalha mas perder a virgindade… Ah, não lembro, é um ditado muito antigo, mas o General sempre conseguia transformar suas derrotas nas batalhas em vitórias na guerra. Em uma sucessão rápida de batalhas ele galgara a escada de condecorações, passando rapidamente da insígnia Ouro para a insígnia Diamante sem nem mesmo passar pela Platina. Receberia a condecoração de Grão Mestre se esta não fosse reservada exclusivamente a homenagens póstumas a militares de alta patente que já estivessem queimando no fogo do inferno.

O General revisava a posição de suas tropas mais uma vez. Era uma estratégia ousada a que ele estava aplicando. A ponte de comando estava vazia, entre outros motivos, porque os conselheiros militares se recusavam a participar do planejamento e execução de estratégia tão vil, tão discordante da moral e virtude das guerras sangrentas que o Império vinha travando contra os planetas rebeldes.

Era uma estratégia muito arriscada, pois o General sacrificava a sobrevivência a médio prazo arriscando um ataque rápido a curto prazo, e com isso pondo em risco também todos os recursos da base caso o ataque não fosse bem sucedido. Para tornar a investida mais rápida, ele ordenava a construção dos quartéis muito próximos às entradas das bases inimigas, o que também os deixava muito vulneráveis.

Mas o General era pragmático também. Seu raciocínio ia um pouco na linha do “Eu estou aqui, no meu cruzador de batalha, muito longe do campo de batalha. É muito fácil assumir riscos assim.” E assim os assumia, sem muita dor na consciência, mesmo quando os ataques não eram bem sucedidos e ele observava em seus monitores como seus soldados morriam um por um, e imediatamente depois os VCEs eram destruídos, e logo depois seus quartéis, seus depósitos de suprimentos…

A vida do soldado, enfim, não valia nada mesmo…

Desta vez, porém, as chances de vencer a batalha eram maiores, pois o General aprendera a usar, mesmo que de forma limitada, as forças dos zergs contra seus adversários. Seus próprios soldados lutariam rodeados de zergnídeos e, na confusão que gerariam nas bases adversárias, muito provavelmente conseguiriam matar um por um os soldados inimigos, e imediatamente depois os VCEs, e logo depois seus quartéis, seus depósitos de suprimentos… Pena que, em todas as batalhas anteriores em que ele usara essa mesma estratégia o resultado era sempre o mesmo - eventualmente a colméia crescia, fugia ao controle e acabava aniquilando todas as formas de vida não-zerg do planeta, inclusive seus próprios soldados, mas enfim, era fato notório que a vida do soldado não valia nada.

O General levantou seus olhos do monitor que estava observando. Tudo estava no lugar. Os quartéis avançados já estavam liberando soldados, os zergnídeos já estavam saindo das colmeias e os comandantes adversários nem estavam esperando pelo ataque.

O General mandou um comando para o Imediato trazer sua bandeja. O Imediato entrou, caminhando lentamente, carregando a enorme bandeja que teimava em se desequilibrar em seus braços. A bandeja continha o elemento mais importante do ritual do General, ao mesmo tempo sua salvação e sua perdição, pelo menos a de seu corpo original que tinha uma severa intolerância à lactose e que definhara perante à insistência de seu dono em alimentá-lo com o pior dos venenos.

O Imediato depositou a bandeja cheia de queijo na mesinha ao lado da poltrona do General. O General soltou um ruído que poderia se aproximar de um riso, mas mais provavelmente era apenas a vibração dos pequenos servomecanismos que controlavam sua boca mecânica enquanto ele a abria para arremessar alguns pedaços de delicioso queijo brie. Seu novo sistema digestivo biomecânico digeria que era uma maravilha, então ele podia se satisfazer sem medo.

O imediato olhou com repulsa o General, mas não ousou fazer qualquer manifestação. Seu irmão era um soldado, e se não estava na superfície de Tertulii II, provavelmente estaria em outro planeta lutando as batalhas para outro general desgraçado e oferecendo sua vida em troca de uma mísera estrelinha na lapela de seu comandante. Ele não podia deixar de se compadecer daqueles soldados que, não importando qual o resultado da batalha, enfrentavam a morte certa de qualquer jeito.

Enquanto se afastava, observou no espaço distante uma tênue luz pulsante, também em órbita geo-estacionária sobre Tertulii II. Ele sabia que aquela luz era um dos cruzadores de batalha de um dos comandantes adversários. Estava logo ali, ao alcance dos canhões Yamato. O Imediato nunca entendeu por que, em vez de sacrificar a vida de milhares de soldados e operários em prol do controle de um pedaço de terra estéril, os comandantes não podiam simplesmente atacar os cruzadores de batalha um do outro e acabar logo com isso, que vencesse aquele que tivesse os melhores canhões, sei lá.

Mas foram quatro anos presenciando coisas que ele preferia poder esquecer. Nesses quatro anos ele aprendera a engolir seus escrúpulos. Havia tempo ele havia percebido que, o que era assunto de vida ou morte para os pobres soldados que davam suas vidas para o império, para os comandantes não passava de um jogo.


O Imediato saiu, apenas a tempo de ouvir o que agora inconfundivelmente era a risada maquiavélica e chiada do General, enquanto este murmurava para seu console: “gê gê”.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

An SCV and a marine walk into a bar...


Like so many other tales, this tale starts with Phil, a young SCV operator, walking into a bar. This bar, identical to any other campaign headquarters bar, is the place where marines, technicians and pilots drown their sorrows and try to forget the horrors of their daily lives.
The bar is nearly empty. In a table on a dark corner a man with the body build of a soldier, full of marks and scars, fell asleep over the table. Behind the counter the barman clumsily washes a glass. Phil notices that the barman has two noisy robotic arms, and then sits next to the only client at the counter, a marine who is looking to the empty space while he drains his glass.
Phil calls the barman in a loud voice so that everybody can hear.
“Barman, repeat the dose to my friend here at the counter and to our colleague at the back. This round is on me!”
The barman smiles while he places two glasses on the counter, one in front of the young SCV operator and the other in front of the marine, and starts serving the contents of a bottle. The liquid is viscous, with a phosphorescent green color. When he is about to serve Phil’s glass, Phil smiles, placing his hand over the glass, and says:
“I will have just a drop-cola, thanks. I don’t want to arrive drunk at my first day of service.”
While the barman walks to the back of the bar to bring an extra dose to the sleeping soldier, the marine next to Phil raises his glass and slightly nods his head, in a discrete acknowledgement of the generosity of the newly arrived. With a naive enthusiasm typical of the young, Phil starts a conversation with the soldier.
“My name is Phil. I just graduated from the Technical Academy of Augustograd and today is my first working day on the field as an SCV operator”.
The marine drinks in a single gulp the green substance from his glass and shows a smile full of rotten, yellow teeth while he answers.
“My battle name is Wright, though you will have a hard time trying to find me in battle.”
“I am so excited about everything. I found out that being an SCV operator is my true vocation and I am dying to help on the war effort.”
Soldier Wright makes a gesture to the barman to fill his glass again, while keeping to smile at Phil.
“Are you sure you don’t want a shot? This is what helps me to survive another day out there.”
“No, thank you. An SCV is an expensive machine and demands a great responsibility from the operator. I can’t operate under the influence of alcohol.”
“Ok, that’s your loss”, soldier Wright answers while raising a small biscuit from a jar. “Barman, gimme some butter for my biscuit.”
While the barman spreads some blue paste of synthetic butter on the biscuit, Phil starts talking again.
“What are you drinking? Is it some sort of lemon or peppermint liquor?”
“Ha, we haven’t seen a lemon in Char for months. The trip is too long and expensive to waste with the transportation of anything that can make the life of the soldier any more bearable. You will learn that, in campaigns such as this, we are ‘encouraged’ to use any locally available resources in creative ways. For example, this drink is called ‘Baneling Bust’ and is a strong distilled beverage made from baneling poison. Way better than the vespene vodka, if you ask my opinion.
Phil drinks from his drop-cola and continues with his endless babbling.
“On the briefing I was told our mission is to end the zerg infestation in Char. I admire the courage you soldiers have to face these abominable creatures.”
“It isn’t courage, it is stupidity. My only consolation is that, though here the life expectancy of a soldier is really low, an SCV’s is lower yet.”
Phil’s smile fades for a moment.
“What do you mean?"
“These are dirty wars. Yes, it is the soldier who pulls the trigger, but it is the SCVs that keep the war machine turning, if you get what I mean. The zerg and the protoss learnt that a long time ago, that is why they always go for the SCVs first.”
Phil looks horrified. Soldier Wrights keeps on.
“The barman used to be an SCV operator before coming to take care of the bar after a forced retirement. His arms where ripped off during a stealth attack from the Dark Templars. Have you ever heard of them?"
Phil shakes his head.
“They are some freakin’ religion fanatics from the protoss. The bastards are invisible to the naked eye and slaughtered the barman’s team while they where gathering minerals.”
Phil looks at the barman’s horrible mechanical protheses.
“I’m not finished yet. The barman’s legs were torn off during a roach attack. I don’t know if they taught you on the academy that the roaches can move buried in the ground as if they were swimming in water. The barman managed to hide while the roaches finished devouring his legs and slaughtering the rest of his team.
Phil looks down as if a roach was about to appear from the ground.
“Last but not least, his throat and half his face where severely burned during a raid of that stinkin’ Raynor rebels. They keep doing those raids to delay Emperor Mengsk’s military operations. Have you ever heard of the ‘Hell Drops’?”
“Uh, no.”
“Don't you worry, you will learn about them very soon. As you are going to learn that widow mines create widows on both sides of the battle.”
Phil can’t control his body, which starts to shake violently. 
“But, how can you survive to so many dangers?”, asks Phil.
“You have to face the facts and admit that, in a war such as this, you either become a hero or you survive. In the real world the life expectancy of a soldier is five days. I stayed alive for so long because, how may I put this, I have sort of a fragile constitution and I am always recovering on a medivac.” While saying this, soldier Wright drinks another shot and discretely winks at Phil. “I have a pilot friend that always manages to avoid offensive missions. We have had a long lasting partnership.”
While Phil reflects upon what he has just learned and feels his expectations breaking apart, a soldier in his combat armour enters the bar. Soldier Wright waves to him and exclaims:
“Howdy, Hank! This round is on my new friend Phil!”
Hank’s helm’s visor raises allowing Phil to observe that he is infuriated. The barman starts pouring a ‘Baneling Bust’ dose when Hank grabs the glass.
“I don’t want Wright’s bloody drink. When I drink that trash I feel as if my stomach had been torn off by a hydralisk.”
“Exactly!”, remarks Wright.
“I want a golden minerals beer, and quick, because I have some truths to tell sergeant Crooks.”
 Hank rises his cup, pointing it to Phil, and drinks with large gulps.
“Hank, I already told you, if you want to live a long fulfilling life you have to learn to stay out of the radar of our superiors, especially of assholes like Crooks.”
“Let me tell you what this guy did to me. The captain is planning a massive attack to the zerg hatchery but wanted to gather some field intel before that. He then told sergeant Crooks to send a patrol to capture the Xel’Naga tower close to the attack location. The sergeant bears me no love, so he told me to go alone.”
“Suicide!”
“You bet. I told him to send more soldiers with me. Do you know what that bastard told me?”
“What?”
“He asked me if I knew the extremely high risk of taking the tower and asked me how could I be so selfish as to be wanting to put the lives of ten other colleagues in danger when I could easily risk only mine.”
“That’s unfair.”
“Yes it is. I just came for a drink and I am leaving right now to exchange some nice words with this asshole. I won’t allow him to force me into suicide.”
“Leave that girly drink and have some baneling juice, bro!”
Hank ignores soldier Wright’s offer and leaves the bar infuriated.
Phil can’t control his shaking. The value of a human life seems to be really cheap in Char. In an attempt to calm down, he tries to change the subject.
“And how about Kerrigan? I never understood why do they call her the Queen of Blades. I’ve never seen her wielding any kind of blades.”
“Kerrigan, that bitch. It is an important part of my survival strategy to keep distance from her. People say she is too hairy and uses a lot of blades to keep shaven and protected from fleas.”
Wright laughs out loud and Phil is about to answer when he hears the loud noise of shattering glass and watches in panic as a zergling runs into the bar. The zergling jumps over the soldier sleeping at the corner, who lets out a violent cry as the creature bites off a great chunk of his head. A bang is heard coming from the counter, the zergling explodes in a cloud of blood and guts and the barman reloads his shotgun, which has a faint smoke coming out of its barrel.
Phil had never seen a zerg so close. The barman, with empathy, smiles at him. The blood, the tiny pieces of brain on the wall, the destroyed carcass of that hideous creature deeply affect Phil. Soldier Wright observes the scene laughing while the empties yet another glass.
Phil is barely recovered from the shock when the intercom echoes on the bar. It is the synthetic voice of the adjutant, about to make an important announcement.
“Warning to all soldiers and workers. An infiltrate zerg changeling disguised itself as soldier Hank was just found on the headquarters and promptly executed by sergeant Crooks as soon as it was discovered. The real soldier Hank was presumably killed by the zergs. Be wary of suspicious behaviour from your colleagues.”
“Poor bastard, I told him not to mess around with his superiors. Well, I have a medivac to catch. Phil, see you around.”
As he is getting out of the counter, soldier Wright drinks his last shot. Phil couldn’t keep track of how many there were. Frustrated and regretting having enlisted to work in that hell, Phil stares at the counter in disbelief. A glass with a green phosphorescent substance slides into his view. Looking forward, Phil sees the barman pointing to the glass with a smile in his face.
Phil thinks “Ah, screw it”  and drinks the content with a single gulp. He pays the barman and prepares to leave when, suddenly, he feels a terrible pain in his stomach as if he had just swallowed a hand grenade. The pain is so terrible that he can barely walk. In a sudden moment of clarity, with whatever strength he has left, he asks the barman.
“Where can I find a medivac?”

domingo, 13 de abril de 2014

In your face, parte 2: Os soldados - Uma batalha láctea de Starcraft

Esta é a segunda parte da narrativa de uma batalha pouco digna em um planeta insignificante onde a vida humana pouco vale. E nem se fale da vida zerg... Não deixe de ler a primeira parte, clicando aqui.



In Your Face, Parte 2: Os soldados

Scott entrou na sala de instrução e procurou algum lugar para sentar. Havia uns quinze outros soldados na sala, alguns deles conhecidos, membros de sua própria patrulha, mas havia alguns outros que ele nunca tinha visto antes.

Scott sentou-se ao lado de seu amigo Franklin e perguntou o que ele havia perdido.

- Você não perdeu nada ainda. O sargento acabou de chegar com esse nerd aí na frente e estão há meia hora tentando fazer o projetor funcionar com o notebook.

Scott não conseguiu esconder sua preocupação.

- Cê viu como o quartel está perto das bases inimigas?
- Nunca vi algo assim. O General não dá a mínima para nossas vidas, ele fica brincando com a gente e arriscando nossas vidas como se fossemos seus soldadinhos de brinquedo.
- Dizem que ele é o general com o maior número de vitórias da Frota Imperial.
- Também dizem que tem o maior número de derrotas.
- Espero que ele tenha aprendido com seus erros pelo menos!

A conversa foi interrompida pelo sargento, que chamou a atenção dos soldados presentes. O rapaz que estava com ele usava um estereotípico avental de cientista e celebrava o fato de ter acabado de conseguir conectar seu computador ao projetor. Enquanto o sargento falava o cientista abria os slides que ele iria apresentar.

- Soldados, hoje vamos aplicar uma estratégia diferente do que vocês estão acostumados. O General tem aplicado esta estratégia em vários combates e ela tem sido bem sucedida. Na maior parte das vezes. Muitas vezes.

Um dos soldados levantou a mão:

- Sargento, esta estratégia tem a ver com o fato de termos uma incubadora zerg enorme bem no nosso quintal?

Os soldados pararam de conversar entre si e começaram a prestar atenção. O sargento continuou.

- Tenho aqui comigo o doutor Watanabe que irá nos explicar alguns fatos que vocês devem entender para realizar a missão que irão receber. Doutor, passo para o senhor a palavra.
- Obrigado sargento. Respondendo à pergunta do soldado, sim, a incubadora faz parte da operação "Escudo Zerg", que vocês estarão encarregados de executar.

O doutor Watanabe fez um gesto com sua mão e o sargento pressionou um botão do computador. Na parede foi projetado um fundo branco e uma foto de uma incubadora apareceu girando e estabilizou no meio da tela. Um típico efeitinho especial tosco de quem acabou de aprender a usar o recurso de animações do PowerOverwhelmingPoint. Sobre a foto apareceu o texto "Operação Escudo Zerg", deslizando pela esquerda e fazendo o barulhinho de um zergnídeo. O doutor Watanabe sorriu, satisfeito.

- A incubadora zerg que todos vocês já devem ter percebido foi plantada por nós alguns dias atrás, antes da central de comando ter pousado neste planeta.

Franklin sussurrou para o Scott:

- Cacete, em poucos dias já cresceu tudo isso?
- Shhh calaboca presta atenção!

O doutor Watanabe continuou:

- Quando plantamos a incubadora, esta começou um ciclo natural de evolução. Já começou a produção de zangões e em breve iremos pulverizar sobre ela uma substância que irá estimular a produção de uma rainha.

Franklin sussurrou de novo:

- Uma rainha zerg? Os caras estão insanos???

O doutor Watanabe fez um gesto novamente para o sargento, que passou para o próximo slide. Uma foto de uma rainha zerg apareceu.

- Normalmente as rainhas possuem uma ligação psíquica com o enxame, o que faz com que o enxame inteiro funcione como se fosse uma enorme consciência coletiva. Nós descobrimos, no entanto, que esta ligação psíquica é muito fraca no início da evolução da incubadora. Isto em geral permite que a rainha se preocupe inicialmente de forma independente apenas com o crescimento de sua incubadora. Quando a incubadora passa por alguns ciclos de amadurecimento, o elo psíquico fica mais forte e a rainha passa a poder receber ordens do enxame. Por enquanto a ligação ainda está fraca o suficiente para que nós consigamos bloqueá-la artificialmente.

O sargento apertou um botão do computador e apareceu uma outra foto. Era uma montagem da mesma rainha, em que ela aparecia usando um pequeno e bonitinho capacete feito de papel alumínio.

- Quando a incubadora ainda está jovem, a preocupação da rainha é de estimular a produção de zangões. Assim que o número de zangões for suficiente, ela começa a estimular a produção de zergnídeos. A rainha sabe que o número correto de zangões foi atingido porque ela sente um odor emanado por eles. Quando o odor for intenso o suficiente, ela pulveriza um hormônio especial sobre a incubadora que estimulará a produção de zergnídeos.

A imagem projetada mostrava agora uma incubadora com vários zangões. A rainha estava em uma pose obscena secretando uma substância sobre a incubadora.

- Nós conseguimos extrair de zangões que foram capturados vivos as glândulas que secretam o cheiro, por isso podemos pulverizar esse odor e enganar a rainha para forçar a produção de zergnídeos mais cedo do que o normal.

Franklin sussurrou:

- Droga, odeio zergnídeos.

O doutor Watanabe parecia estar cada vez mais empolgado com sua explicação.

- Uma vez que os zergnídeos forem produzidos, eles serão enviados pela rainha para atacar qualquer coisa que seja vista como ameaça para a incubadora.

O sargento tomou a palavra empolgado.

- E é nesse momento que vocês irão atrás dos zergnídeos. Os nossos inimigos não esperarão um ataque sincronizado de forças terranas e zergs, por isso contamos com que, no pânico, eles ataquem primeiro os zergnídeos. Viram só? É por isso que a operação se chama "Escudo Zerg"! Os zergnídeos agem como escudo! Um escudo de carne! Brilhante!

O mesmo soldado que levantara a mão antes perguntou:

- Sargento, e como os zergnídeos vão saber que nós não somos uma ameaça para a incubadora?

O doutor Watanabe tomou a palavra novamente.

- Nosso grupo descobriu recentemente que quando o elo psíquico com o enxame não está ativo os zergs recaem em um comportamento padrão instintivo. Este instinto respeita uma escala hierárquica e os indivídos que estão nos degraus mais baixos desta escala não se metem com os indivíduos mais altos. Os zergnídeos estão lá embaixo, acima apenas dos zangões. Acima dos zergnídeos estão as baratas, as hidraliscas, e assim por diante. E no topo da escala estão os mammuthus.

Um silêncio sepulcral pairou sobre o ambiente quando a enorme criatura zerg foi citada.

- Vamos enganar os zergnídeos pulverizando sobre suas armaduras de combate uma mistura que possui o odor que os mammuthus usam para marcar território. Testes sugerem que os zergnídeos irão evitar contato com vocês enquanto estiverem com o odor.

Um soldado perguntou:

- E o que há nesta mistura?

Ao que o doutor Watanabe respondeu:

- Bom, eh, a mistura contém basicamente excrementos de mammuthus, misturados com algumas substâncias específicas para aumentar a sua viscosidade e permitir que fique grudada na armadura por mais tempo.
-Cê tá dizendo que cês vão banhar a gente com merda de mammuthus?

Alguns soldados começaram a dar risada enquanto outros xingavam irritados. Franklin comentou com Scott:

- Hahahaha o pobre coitado que precisa recolher a bosta do mammuthus realmente tem o pior trabalho do universo…

O sargento tomou a palavra novamente.

- Esta operação depende de nós atacarmos rápido antes que nossos inimigos tenham chance de se defenderem. Estamos com dois quartéis avançados e iremos liberar soldados continuamente até formarmos um grupo grande o suficiente para atacar. Vamos atacar o exército que os zergnídeos atacarem primeiro. Enquanto os soldados inimigos desperdiçam munição matando os nossos “amiguinhos”, quero que vocês os matem, procurem invadir a base e inutilizem o maior número possível de VCEs. Assim que tiverem feito isto vamos atacar a outra base e a missão estará encerrada.

O sargento terminou seu discurso e olhou em volta. Todos os soldados olhavam atentamente para ele.

- Agora vão colocar suas armaduras de combate. Como a atmosfera deste planeta é respirável, desativamos a câmara de descompressão e a adaptadamos com borrifadores que irão borrifar o coquetel de mammuthus sobre suas armaduras. Dispensados.

Com isto o sargento virou-se para ajudar o doutor Watanabe a desmontar seu computador e o projetor. Os soldados se levantaram aos poucos e foram abandonando a sala de instruções em direção à câmara de equipagem, onde com a ajuda de robôs vestiriam suas armaduras e receberiam seus armamentos.

Quando Franklin chegou à sala de equipagem, quatro soldados já estavam com suas armaduras de combate e faziam fila na porta da sala de descompressão, enquanto outros quatro estavam imóveis sobre as plataformas onde braços robóticos montavam sobre seus corpos suas armaduras. Os demais soldados aguardavam seus turnos sentados em bancos e conversando. À medida em que cada soldado entrava na sala de descompressão, um rapaz entregava a cada um deles um saquinho amarelo que estava em uma pequena cesta de vime que ele carregava sob o braço. Franklin perguntou para o rapaz:

- Hein Harold, que porcaria é essa que você está entregando para os caras?
- Ah, Franklin, é uma bolsinha aromática à base de especiarias e perfume de alguns cactos ligeiramente venenosos daqui da região. É para que vocês coloquem na entrada de ar do sistema de ar condicionado da armadura para disfarçar um pouco o cheiro da mistura de mammuthus. Parece que o cheiro é terrívelmente forte.
- Vê dois para mim!
- Claro, pode pegar.

Franklin conversava com Scott quando, fazendo um enorme estardalhaço, Alex entrou na sala de equipagem. Ele já estava em sua armadura de combate.

- Ow, Alex, perdeu o briefing! O sargento não vai ficar muito feliz se te vir!
- Foda-se o sargento, eu tava lá no bar tomando umas com umas fantasmas gostosas. Aí perdi a hora, fui passar pela oficina para consertar meu ar condicionado mas o Dennis não estava lá. Agora minha armadura está um forno. Vou ficar com a minha viseira aberta.
- Excelente idéia! - exclamou Scott enquanto dava uma risadinha.

Mesmo quando não usava sua armadura, Alex não era um mero soldado - era do tamanho de um armário. Todos o respeitavam, ou talvez “temiam” seria uma palavra melhor, e ele se achava o tal e abusava de todo mundo sempre que sentia vontade. Por alguma razão ele gostava do Franklin, por isso eles conversavam frequentemente.

- Mas então, faz aí o resumo do que eu perdi - disse Alex.
- Basicamente vamos atacar as bases inimigas no meio de um monte de zergnídeos, rezando para não sermos atacados por eles enquanto absorvem o fogo adversário.
- Carne de zergnídeos fica boa com batatas. Chega de papo. Até.

Franklin olhou com estranheza após o comentário do Alex, enquanto este se dirigia ao portal que levava para a sala de descompressão. Lá Franklin viu Harold tentando dar uma bolsinha aromática para o Alex, até que este deu um tapão e mandou a cesta voando pela sala. Harold perdeu o equilíbrio e caiu no chão, enquanto Alex o mandava enfiar as bolsinhas naquele lugar e entrava na câmara de descompressão.

Scott olhou para o Franklin e mal conseguia conter o riso. Através do portal eles enxergaram Alex curioso parando no meio de um monte de braços mecânicos. De repente, ouviu-se pela sala inteira:

- Que merda é esta! Entrou na minha boca, aaaaargh!

Todos os soldados começaram a rir alto, mas era Harold que exibia o maior sorriso. Alex voltou da câmara de descompressão com a armadura e seu rosto cobertos de uma lama marrom-esverdeada grudenta. Ele estava furioso e atravessou rápido a sala de equipagem, resmungando.

Uma das plataformas de equipagem ficou livre nesse momento, e Franklin aproveitou a chance para pular em cima. Ele permaneceu imóvel enquanto o sistema de equipagem automatizado montava sua armadura de combate sobre seu corpo. Era um processo relativamente rápido, especialmente impressionante porque se tratava de uma armadura que pesava mais de 300 quilos. Os braços robóticos levantavam e posicionavam cada peça com grande rapidez e delicadeza. Finalmente, quanto o reator nuclear foi acoplado no dorso da armadura, Franklin ligou os sistemas e sentiu controle sobre o enorme monstro metálico.

Franklin posicionou as bolsinhas aromáticas sobre a entrada do ar-condicionado e caminhou em direção à câmara de descompressão. Quando passou por Harold, este avisou:

- Não esqueça de fechar a viseira!

Franklin sorriu, fechou sua viseira e entrou na câmara. Lá havia uma plataforma circular bem no meio da sala e quatro braços robóticos seguravam grossas mangueiras conectadas a quatro enormes tanques que transbordavam com o milk-shake de mammuthus. Franklin posicionou-se sobre a plataforma e sentiu quando os braços robóticos começaram a pulverizá-lo com a mistura. De fato, o fedor era insuportável e as bolsinhas aromáticas mal faziam efeito. “Espero que os zergnídeos achem o fedor tão terrível quanto eu estou achando”, pensou Franklin assim que descia da plataforma e saía da câmara de descompressão pelo lado oposto a aquele pelo qual ele entrou.

Na saída da câmara de descompressão havia uma escada rolante que levava os soldados até o nível do chão, onde ficava a saída do quartel. Havia outra escada rolante ao lado, mas esta precisava que um reator externo fosse instalado e, para esta missão em particular, parece que não haveria tempo de fazê-lo. Franklin dirigiu-se à escada e notou que o sargento estava lá esperando. Era um hábito dele ter umas ultimas palavras de encorajamento com os soldados antes de cada batalha. Enquanto Franklin entrava na escada rolante o sargento deu um tapinha no traseiro de sua armadura de batalha e disse:

- Boa sorte divirta-se!

Continua! Veja o desenrolar da batalha de uma perspectiva diferente na parte três.

quarta-feira, 19 de março de 2014

In your face, parte 1: Os operários - Uma batalha láctea de Starcraft

Muitas atrocidades na história da humanidade foram cometidas em nome do imperialismo. Poucas atrocidades são tão vis e repugnantes, no entanto, quanto algumas táticas com excesso de lactose utilizadas pelos exércitos de Arcturus Mengsk para aniquilar seus inimigos durante a expansão do império Terrano pelo universo.

Segue a primeira parte de um relato vazado da Central de Comando da divisão Azul do Exército Imperial. As identidades dos envolvidos foram alteradas para preservar suas dignidades.  

In Your Face, Parte 1: Os operários

Stan estava coletando minérios e Tom estava terminando de construir um depósito de suprimentos quando chegou a ordem do adjutor em sua voz feminina sintética.

- Tom e Stan, vocês deverão prosseguir até a Torre Xel'Naga norte e aguardar por instruções.

Tom, operador de VCE veterano de várias campanhas, respondeu rapidamente e dirigiu-se à rampa de descida do platô onde a central de comando da base Azul se encontrava. Stan não pode controlar uma gota de suor que deslizou por sua têmpora ao saber que teria que abandonar a segurança daquele platô.

Quando se encontrou com Tom na base da rampa, Stan recebeu através do comunicador a saudação de seu veterano.

- E aí novato! Que demora, hein? Até parece que você não queria vir para esta missão!

Stan viu o rosto de Tom em seu monitor. Sorriu e respondeu:

- Tom, sair com você está longe do meu ideal de encontro romântico!

Tom riu e conduziu seu VCE até o do Stan, trombando nele.

- Chega de papo furado, moleque! O último a chegar na torre Xel'Naga é mulher da hidralisca!
- Tom, isso não faz sentido, as hidraliscas se reproduzem assexuadamente, não é possível ser mulher de…

Tom trombou de novo no VCE do Stan e disparou à frente. Stan seguiu atrás de Tom e não pôde deixar de sentir um frio na barriga ao passar ao lado daquela enorme montanha de matéria orgânica, com tentáculos e dentes, no platô vizinho a aquele onde a base Azul se encontrava.

- Ei Stan, até parece que nunca viu uma incubadora antes!

Stan não respondeu. Ele nunca tinha visto uma incubadora, ou qualquer criatura zerg antes.

- Dá uma olhada nisto aqui.

No monitor de Stan apareceu uma foto de uma incubadora vista desde muito alto, enviada por Tom. Era uma visão espantosa. A incubadora era um enorme ser vivo, em constante mutação. Parecia um vulcão com tentáculos e sabe-se lá que criaturas infernais poderiam aparecer da enorme cratera dentada em seu topo.

- Tenho um amigo soldado que tirou essa foto quando voltava de ambunave para a base.
- Que bicho horroroso!
- Não, esse meu amigo é feio mas não tanto. Essa incubadora é coisa de tirar o sono, né? Mas eu não me assusto, já tive uma namorada mais feia do que isso. A única diferença é que a minha namorada tinha menos dentes… Hahaha

Stan estava impressionado com a capacidade de Tom manter seu humor e tinha dificuldade em avaliar o que era pior: a missão que eles receberiam quando chegassem à torre Xel'Naga, muito próxima às bases inimigas, ou saber que eles tinham uma incubadora zerg tão perto de casa. Tom voltou a falar:

- Veja, pelo menos aquela torre Xel'Naga parece ser um lugar mais seguro do que a nossa base, né?

A torre Xel'Naga estava perigosamente próxima às rampas de acesso aos dois platôs onde as bases dos exércitos Celeste e Violeta se encontravam. Enquanto Tom e Stan se aproximaram da torre, puderam sentir uma intensa interferência em todos seus sistemas de comunicação. No entanto, quando chegaram realmente perto da torre, as comunicações voltaram a ficar perfeitas.

Tom percebeu a inquietação de Stan. Não muito longe, era possível observar as rampas que levavam às bases dos exércitos Celeste e Violeta, as duas separadas por um vale. No topo das rampas era possível ver algumas construções inimigas: quartéis e depósitos de suprimentos.

- Tom, nós já vamos voltar para a base, né? Nossa missão vai ser segura, né?

Tom olhou para o VCE do Stan por alguns instantes antes de responder.

- Não se preocupe, garoto. Vamos cumprir nossas missões e já já estaremos longe daqui. É só esperarmos o adjutor nos passar a missão, fazer o que nos for instruído e voltar para comemorar.

A comunicação foi interrompida pela voz sintética do adjutor.

- Cada um de vocês deverá construir um quartel escondido atrás da torre Xel'Naga.
- Ahá, minha tarefa favorita! Obrigado adjutor, você é uma santa. E por falar nisso, quando é que vamos receber o nosso aumento do soldo?
- Minérios insuficientes.

Esta foi a última resposta do adjutor. Em missões deste tipo, próximas às linhas inimigas, as comunicações com a base eram mantidas ao mínimo para evitar que os inimigos escutassem.

- Ainda lembro da primeira versão do adjutor, quando colocaram a voz do Mengsk. - disse Tom - A voz dele me dava nos nervos quando dizia “Não é possível construir aí”, e ninguém dava muita bola mesmo. O Comando acabou descobrindo que nós gostamos mesmo é de receber ordem de mulher e aí colocaram essa voz sexy!

Stan continuava a olhar preocupado para as bases inimigas.

- Nós estamos muito perto - disse Stan. - Não entendo como é possível que eles não nos vejam.

Tom já havia participado de missões assim.

- Stan, pense nesta torre Xel'Naga como se fosse o nariz deles. A torre fica tão na cara deles, que eles não conseguem enxergá-la!

Stan riu e começou a trabalhar. Quanto antes aquele quartel estivesse pronto, mais rápido eles estariam de volta à base.

In your face, parte 2: Os soldados


domingo, 22 de dezembro de 2013

Quem tá na m... - Uma fábula de Starcraft




O soldado caminhava aos tropeços na planície arenosa iluminada pelas duas luas. Sua munição já havia terminado, por isso ele já havia se livrado de seu rifle de assalto havia muito tempo. Sua armadura de combate estava muito danificada. Os atuadores hidráulicos rangiam a cada passo que dava e os displays internos piscavam e iam se apagando um por um. Ele havia desligado os comunicadores porque não aguentava mais ouvir seus companheiros de patrulha gritando desesperados enquanto lutavam para sobreviver ao ataque de uma matilha de zergnídeos que os havia encurralado. Durante o ataque ele tivera sorte para conseguir escapar com vida. Enquanto recuava e esgotava os últimos tiros de seu rifle contra um zergnídeo enraivecido que corria em sua direção, ele tropeçou e caiu em uma vala. Não foi visto por nenhum dos zergnídeos, que passaram a atacar seus colegas de patrulha. Na queda, o soldado pousou sobre o reator que energizava o sistema eletro-hidráulico que permitia os movimentos de sua armadura de combate. Agora ele tinha disponível menos que a metade da potência nominal para o controle da armadura e esta fazia um barulho infernal a cada movimento que fazia.

Enquanto o soldado rastejava para fora da vala e se afastando do local da emboscada, ele ficava se repetindo: "Não há nada que eu possa fazer… Não há nada que eu possa fazer… Eles estão condenados de qualquer jeito… Não há nada que eu possa fazer".

Neste momento, após correr por quase vinte minutos, ele conseguiu ouvir quando os últimos disparos de seus colegas silenciaram. Ele estava sozinho agora. Ligou os comunicadores, e nada podia ser ouvido. Ele se virou e olhou para a direção de onde havia vindo, continuando a caminhar lentamente de costas. Até que, quando deu um passo, seu pé perdeu aderência e seu corpo veio abaixo violentamente sobre uma enorme poça de lama.

"Merda!" gritou o soldado. Ele não soube de imediato o quão certo seu palpite estava, porque demorou um pouco até o mau cheiro sobrepujar os filtros do sistema de ar-condicionado de sua armadura e atingir seu nariz. O que aparentemente era um lamaçal era, na verdade, a maior poça de bosta que ele jamais havia visto. E a criatura responsável por tamanha diarréia não poderia estar longe, pois o soldado sentiu um pequeno aumento na temperatura interna da armadura enquanto os sistemas de refrigeração lutavam para manter a temperatura estável. Era uma enorme poça de diarréia quente e fedida.

Enquanto lamentava por seu tremendo azar, o soldado pensava em qual criatura zerg poderia ter defecado com tamanha abundância. "Só pode ser um mammuthus", pensou. "Espero que o desgraçado não volte."

Cansado e nervoso, o soldado não tinha ânimo para se levantar. Virou-se sobre o barro e sentou-se, olhando na direção de onde viera. Ficou assim por alguns minutos quando percebeu um movimento no horizonte. Demorou até conseguir perceber o que era. A matilha de zergnídeos por alguma razão estava seguindo exatamente o mesmo caminho que ele fizera. Ou eles sentiram o cheiro do fluído hidráulico que vazara de sua armadura, ou ele tivera o azar de fugir exatamente na direção da colmeia onde os zergnídeos residiam.

Tentou se levantar, mas não conseguia. Ele não conseguia firmar apoio sobre aquela poça escorregadia de dejetos fétidos. Sentado, olhou para os zergnídeos que se aproximavam lentamente e começavam a rodeá-lo. Coberto de merda e repleto de pânico pelo perigo iminente, o soldado ficou olhando para o zergnídeo que parecia ser o chefe da matilha e que se aproximava lentamente. O zergnídeo chegou mais perto e começou a cheirá-lo. Ficou assim por alguns instantes, até que começou a se afastar, rosnou alto para os outros zergnídeos da matilha e, tão rápido quanto chegaram, eles foram embora.

O soldado estava atônito. Ele fora poupado! O pânico se transformou em uma alegria extraordinária. Ele ficou tão alegre que abriu sua viseira e começou a gritar: "Seus zergnídeos putos, canalhas, vão se ferrar! Acharam que iam me pegar né?". Sua alegria era tanta que começou a cantar, enquanto ainda lutava para conseguir se levantar. Percebeu que a única forma de conseguir firmar os pés seria escavando a bosta até conseguir chegar ao solo firme embaixo. Ficou assim por alguns minutos até que finalmente teve aderência para apoiar seu peso e ficar em pé.

Quando se levantou, o soldado sentiu um som atrás dele. Parecia o ruído de um peido, mas não era um simples peido. Era o peido mais intenso que ele havia ouvido, como se um milhão de soldados tivessem comido um milhão de feijoadas e tivessem se unido para demonstrar em uníssono por que não se deve servir um milhão de feijoadas a um milhão de soldados no mesmo lugar, especialmente se for um lugar fechado. O soldado se virou e viu, à sua frente, o enorme mammuthus com problemas estomacais que era o pai daquele monte de merda onde ele estivera se banhando pela última meia hora. O soldado mal teve tempo de exclamar "Cara…".

A gravação terminou bruscamente neste instante. O técnico que ouviu tudo estava analisando o áudio do gravador de dados de campo que havia sido resgatado do estômago de um grande mammuthus que havia sido morto pela patrulha Charlie. Esta patrulha havia sido enviada para averiguar por que a patrulha Bravo nunca tinha voltado de sua missão de reconhecimento. O gravador estava parcialmente digerido e nada havia restado do corpo do soldado cuja armadura estava partida em pedaços no interior daquela enorme fera zerg. O técnico havia escrito em uma pequena agenda: "Por que os zergnídeos foram embora? As fezes do mammuthus terão algo a ver? Investigar…". O técnico desligou o equipamento de reprodução do gravador de dados de campo e começou a arrumar seu escritório para finalmente encerrar o expediente. Mas não conseguiu parar de pensar nas outras lições aprendidas com a experiência do soldado.

"Nem sempre quem te põe na merda é seu inimigo", pensou. "Nem sempre quem te tira da merda é seu amigo", complementou. "E quem está na merda não canta".


Se você gostou desta fábula, dê uma olhada em outro conto que escrevi, também ambientado no universo de Starcraft 2: "Um VCE e um soldado entram em um bar".

Ah, e obrigado Marcus por publicar este conto no Starcraft 2 Brasil de novo!

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Um VCE e um soldado entram em um bar

Para estrear o meu blog, segue abaixo um conto que escrevi baseado no excelente jogo Starcraft 2. Espero que você goste!

Um VCE e um soldado entram em um bar

Como tantos outros relatos lúdicos, este começa com Phil, um jovem operador de VCE, entrando em um bar. Este bar, igual a qualquer outro bar de quartel de campanha, é o lugar onde soldados, técnicos e pilotos afogam as saudades de casa e tentam esquecer os horrores do dia a dia.

O bar está quase vazio. Em uma mesa em um canto escuro, um tipo com o porte físico de soldado, com o corpo cheio de marcas e cicatrizes, caiu adormecido debruçado sobre a mesa. Atrás do balcão, o barman limpa desajeitadamente um copo. Phil observa que o bartender tem dois braços robóticos, barulhentos e desengonçados, e em seguida se senta ao lado do único cliente sentado em frente ao balcão, um soldado que está olhando para o vazio enquanto esvazia seu copo.

Phil solicita em voz alta para o barman para que todos ouçam:

- Barman, repita a dose para meu amigo aqui no bar e o colega lá no fundo. Esta rodada é por minha conta!

O barman sorri, enquanto posiciona dois copos sobre o balcão, um em frente ao jovem operador de VCE e outro em frente ao soldado, e começa a servir para o soldado o conteúdo de uma garrafa. O líquido é viscoso, de uma cor verde fosforescente. Quando está prestes a servir no copo de Phil, este sorri, pondo sua mão sobre o copo, e pede:

- Eu vou beber apenas uma drop-cola, obrigado. Não quero chegar embriagado ao primeiro dia de serviço.

Enquanto o barman caminha para o fundo do bar para levar mais uma dose para o soldado adormecido, o soldado ao lado de Phil levanta seu copo e inclina sua cabeça levemente, em um discreto reconhecimento à generosidade do recém chegado. Com um ingênuo entusiasmo juvenil, Phil começa a puxar conversa com o soldado.

- Meu nome é Phil! Acabei de concluir meu curso na Academia Técnica de Augustogrado e hoje é meu primeiro dia de trabalho em campo como operador de VCE.

O soldado traga em um gole a substância verde de seu copo e sorri um sorriso cheio de dentes amarelados e apodrecidos enquanto responde:

- Meu nome de campo é Wright, embora dificilmente você vá me encontrar no campo de batalha.
- Estou muito empolgado com tudo. Descobri que a minha vocação é ser operador de VCE e estou louco para auxiliar no esforço de guerra.

O soldado Wright sinaliza para que o barman encha seu copo novamente, enquanto continua sorrindo para Phil.

- Tem certeza de que não quer um trago? É o que me ajuda a sobreviver mais um dia lá fora.
- Não, obrigado. Um VCE é uma máquina cara e exige grande responsabilidade do operador. Não posso operar um sob a influência de álcool.
- Você é quem sabe - responde o soldado Wright enquanto levanta um pequeno biscoito de um pote de petiscos. - Barman, quero manteiga no biscoito!

Enquanto o barman unta o biscoito com uma pasta azul de manteiga sintética, Phil volta a falar.

- O que é isso que você está bebendo? É algum licor de limão, ou de menta?
- Rá, há meses que não chega um limão a Char. A viagem é muito longa e custosa para desperdiçar com o transporte de qualquer coisa que possa tornar a vida do soldado mais tolerável. Você vai aprender que, em campanhas como esta, somos "incentivados" a usar de forma criativa qualquer recurso disponível no local. Por exemplo, esta bebida é um destilado feito a partir do veneno de tatu-bomba. Bem melhor do que o aguardente de gás vespeno, se você quiser minha opinião.

Phil toma um gole de sua drop-cola e continua seu matraquear incessante.

- No briefing me falaram que nossa missão é acabar com a infestação zerg em Char. Admiro a coragem e vocês soldados para enfrentar essas criaturas abomináveis.
- Não é coragem, é burrice. O único consolo que eu tenho é que, embora a expectativa de vida de um soldado aqui seja baixa, a de um VCE é menor ainda.

O sorriso de Phil por um instante se desfaz.

- Como assim?
- Estas guerras são todas sujas. Sim, é o soldado que dispara o gatilho, mas são os VCEs que mantém a máquina de guerra funcionando. Os zergs e protoss aprenderam há tempo isto, por isso sempre atacam primeiro os VCEs.

Phil aparenta estar horrorizado. O soldado Wright continua:

- O barman era operador de VCE antes de vir operar o bar. Seus braços foram arrancados durante um ataque furtivo de templários das trevas. Já ouviu falar deles?

Phil gira a cabeça para os lados.

- São malditos fanáticos religiosos daqueles protoss. Os desgraçados são invisíveis a olho nu e trucidaram a equipe do barman enquanto coletavam minérios.

Phil olha para as horríveis próteses mecânicas do barman.

- Tem mais. As pernas do barman foram arrancadas em um ataque de baratas. Não sei se te explicaram na academia, mas as baratas conseguem se mover por baixo da terra como se nadassem em água. O barman conseguiu se esconder enquanto as baratas terminavam de devorar suas pernas e trucidar o resto de sua equipe.

Phil olha para baixo como se uma barata estivesse prestes a surgir do chão.

- Para finalizar, suas cordas vocais foram queimadas quando a base dele sofreu um ataque dos rebeldes daquele escroto do Raynor. Eles vivem fazendo esses ataques para atrasar as operações militares do Imperador Mengsk. Você já ouviu falar de "Hell Drop"?
- Ahm não.
- Não se preocupe, você vai conhece-los muito em breve. Assim como vai descobrir que as minas viúvas criam viúvas dos dois lados da batalha.

Phil começa a sentir uma tremedeira no corpo.

- Mas e você, como consegue sobreviver com tantos perigos? - pergunta Phil.
- Você tem que ser realista e reconhecer que, em uma guerra como esta, ou você vira herói ou você sobrevive. Aqui no mundo real a expectativa de vida de um soldado é de cinco dias. Estou vivo este tempo todo porque, como posso dizer, tenho uma constituição meio frágil e sempre acabo ficando internado em uma ambunave - Ao dizer isto, o soldado Wright vira seu copo mais uma vez e dá uma piscada discreta. - Tenho um amigo piloto que sempre consegue evitar as missões ofensivas. Nós dois conseguimos ter uma parceria muito duradoura.

Enquanto Phil reflete sobre o que acabou de ouvir e sente suas expectativas se despedaçando, um soldado em armadura de combate entra no bar. O soldado Wright acena para ele e exclama:

- Salve Hank! Esta rodada por conta de meu novo amigo Phil!

A viseira de Hank se levanta, e com isso é possível observar que ele está irado. O barman começa a servir o destilado de tatu-bomba quando Hank puxa o copo.

- Não quero essa droga de bebida do Wright. Quando bebo esse troço sinto como se meu estômago tivesse sido arrancado por uma hidralisca.
- Exatamente! - constata Wright.
- Quero um chope de Vespeno, e rápido, porque tenho que contar umas verdades para o sargento Crooks.
Hank levanta sua caneca, apontando-a para Phil, e bebe a tragos largos.
- Hank, eu já te disse, se você quer viver bastante precisa aprender a ficar fora do radar dos superiores, especialmente de babacas como o Crooks.
- Deixa te contar o que ele me aprontou. O capitão está planejando um ataque massivo à incubadora zerg mas queria fazer uma missão de reconhecimento antes. Então ele ordenou ao sargento Crooks que mandasse uma patrulha capturar a torre Xel'Naga próxima ao local do ataque. O sargento já não gosta de mim, então ordenou que eu fosse sozinho.
- Sucídio - comenta Wright.
- Pois é! Eu falei para ele mandar mais soldados comigo. Sabe o que o desgraçado me disse?
- O quê?
- Ele me perguntou se eu sabia do altíssimo risco de tomar a torre e como eu podia ser egoísta a ponto de querer botar em risco a vida de dez outros colegas quando poderia arriscar apenas a minha vida.
- Injusto.
- É sim. Vim tomar um trago e saio agora mesmo para trocar umas palavras com esse fanfarrão. Não vou permitir que ele me force a cometer suicídio.
- Larga essa bebida de mocinha e toma uma dose de destilado de tatu-bomba.

Hank ignora a oferta do soldado Wright e sai do bar furioso.

Phil não consegue controlar sua tremedeira. O valor de uma vida humana parece ser muito baixo em Char. Em uma tentativa de se tranquilizar, ele tenta mudar de assunto.

- E a Kerrigan, hein? Nunca entendi por que chamam ela de Rainha das Lâminas. Nunca vi ela usando lâminas de qualquer tipo.
- Kerrigan, essa biscate. Faz parte de minha estratégia manter distância dela. Dizem que ela é muito peluda e usa muitas lâminas para se manter aparada e poder se proteger dos piolhos.

Wright solta uma risada alta e Phil está prestes a retrucar quando escuta um ruído forte de vidro blindado se quebrando e observa horrorizado um zergnídeo entrar correndo no bar. O zergnídeo pula sobre o soldado desacordado nos fundos, que solta um urro violento quando a criatura arranca um pedaço de sua cabeça com uma mordida. Um estalo é ouvido, proveniente do balcão, o zergnídeo explode em uma massa de sangue e entranhas e o barman recarrega sua escopeta, que solta uma leve fumaça do cano.
Phil nunca havia visto um zerg de perto. O barman, com empatia, sorri para ele. O sangue, os miolos na parede, a carcaça destruída daquela criatura hedionda afetam demais o Phil. O soldado Wright observa a cena rindo enquanto esvazia mais um copo.

Phil mal se recupera do choque quando o intercomunicador ecoa no bar. É a voz sintetizada do adjutor, prestes a fazer um anúncio importante.

- Aviso a todos os soldados e operários. Foi descoberto um mutano zerg infiltrado no quartel, fazendo-se passar pelo soldado Hank. Este foi executado sumariamente pelo sargento Crooks assim que foi descoberto. Fiquem atentos a comportamentos suspeitos de seus colegas.
- Esse pobre coitado do Hank, eu disse para não se meter com seus superiores. Bem, tenho uma ambunave para pegar. Phil, nos vemos por aí.

Ao dizer isto, o soldado Wright esvazia sua última dose. Phil nem conseguiu manter a conta de quantas foram. Frustrado e arrependido de ter se alistado para trabalhar naquele inferno, Phil fita desconsolado o balcão. Um copo com uma substância verde fosforescente desliza para a frente de sua vista. Olhando para frente, Phil vê o barman apontar para o copo com um sorriso.

Phil pensa "Ah que se dane" e bebe o conteúdo com um gole. Paga o barman e se levanta para ir embora quando, de repente, sente uma dor horrível em seu estômago, como se tivesse acabado de engolir uma granada. A dor é tão horrível que ele mal consegue andar. Em um súbito momento de lucidez, com o que sobrou de suas forças, pergunta para o barman:

- Onde encontro uma ambunave?

Fim

Este conto também foi publicado no site Starcraft 2 Brasil. Valeu Marcus!