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domingo, 25 de janeiro de 2015

Como me safei (inadvertidamente) do golpe do dinheiro achado na rua

Este é o texto 10 de 10 da Primeira Maratona de Posts do Patinete a vela.

Se você acompanhou a maratona, percebeu que a maior parte dela foi dedicada ao conto O Ouro do Imperador, um conto épico em 8 capítulos.

Este é o último texto da maratona e, para variar um pouco, decidi contar uma experiência que vivi durante minha viagem pelo leste europeu em 2013, mais especificamente em Kiev, Ucrânia. Eu não sabia no momento, mas estava sendo alvo de um golpe que felizmente (para mim) acabou não dando certo.

Sem mais delongas, apresento a vocês


Como me safei (inadvertidamente) do golpe do dinheiro achado na rua

Em outubro de 2013 a Ucrânia ainda não estava passando por toda essa comoção das manifestações de impeachment do presidente Yanukovich e passear pelas ruas de Kiev não era algo tão emocionante quanto ficaria poucos meses depois, quando manifestantes se envolveram em confrontos violentos com a polícia.

Como em qualquer grande capital, não faltam os espertos que querem se aproveitar de turistas desavisados para fazer com que estes se desprendam de seus pobres dinheirinhos.

Eu quase fui vítima de uma dupla destes espertos um dia, quando estava caminhando tranquilamente pelas ruas de Kiev. Eu estava consultando um mapa da região, procurando a próxima atração turística que eu iria visitar, quando de repente aparece ao meu lado um homem de seus quarenta anos com um simpático bigodinho, fazendo um movimento como se tivesse acabado de levantar algo que estava no chão. Falando em russo, ele mostrou para mim um maço de dinheiro dentro de um envelope plástico e disse algo do gênero: “Olha só que sorte, olha o que eu achei”.

Eu nem pensei que havia qualquer coisa de errado. Falei para ele que sim, que era muita sorte mesmo, parabéns para ele, bla bla. Consegui entender que ele queria dividir o dinheiro comigo, alegando que era uma “tradição ucraniana” o ato de dividir dinheiro encontrado no chão com a pessoa que estivesse junto. Veja que o maço era grande, devia ter pelo menos um centímetro de espessura de notas novinhas, e ele me mostrou que em um dos lados do maço havia notas de dólares e no outro lado havia notas de euros.

Eu recusei, agradecendo. Não por desconfiança, mas porque no momento pensei que a pessoa que tivesse perdido o dinheiro estaria realmente em apuros e eu não queria ser o responsável por me aproveitar da desgraça da pessoa alheia. Pensei e compartilhei com esse homem a minha opinião de que infelizmente nem adiantaria anunciar à polícia que o dinheiro havia se perdido, que provavelmente o dinheiro nem sequer passaria além do policial que nos atendesse.

O homem continuou andando ao meu lado, insistindo algumas vezes que eu aceitasse que pelo menos ele me pagasse uma cerveja, mas eu recusei, sempre sendo simpático. Conversamos um pouco e ele me informou que era bielorusso, mas como meu russo é apenas de sobrevivência não conseguimos conversar por muito tempo.

Não precisaríamos conversar muito, porque pouco tempo depois apareceu um outro homem correndo e nos chamando. Este sim era intimidador: bem cara de mafioso russo, alto, encorpado, mais gordo do que musculoso, usando uma jaqueta de couro. Ele começou a perguntar se nós tinhamos encontrado um pacote de dinheiro no chão e eu já estava esperando que o bielorusso mostrasse o maço que ele havia encontrado quando de repente fico chocado quando o cara faz cara de bobo e diz que não encontrou nada.

O russo alto insistiu, dizendo que nos viu pegando algo do chão, e ficou insistindo para o bielorusso falar alguma coisa.

Eu não sei o que aconteceu comigo. Eu não estava ciente de que estava sendo vítima de um golpe, por isso eu estava tentando dar a chance para que o bielorusso confessasse que ele estava de fato com o dinheiro antes de eu interceder denunciando sua atitude desonesta. O bielorusso não fazia nada, só ficava olhando com cara de bobo. O russo insistiu e pediu para o bielorusso mostrar seus bolsos e então o conteúdo de sua carteira. O bielorusso mostrou o conteúdo de um de seus bolsos e de sua carteira e o dinheiro não apareceu (porque estava no outro bolso que o espertalhão não mostrou). O russo então se virou para mim e pediu que eu mostrasse o conteúdo de meus bolsos e de minha carteira.

Minha carteira estava vazia, ou melhor com apenas umas poucas notas de Hryvnas (a moeda ucraniana), por isso o russo constatou que eu tampouco estava com o dinheiro.

Durante todo este desenrolar eu estava muito puto com o bielorusso. Eu ainda queria que ele tivesse a chance de se “redimir”, por isso fiquei esperando até o último momento para denuncia-lo ao russo. Especialmente porque eu achava que o russo poderia moer o bielorusso de porrada se descobrisse que o cara o estava enganando. Eu mesmo não estava com medo, porque estava com a consciência tranquila por não ter pego dinheiro. Minha idéia era esperar que o russo desistisse e fosse procurar o dinheiro em outro lugar, então eu imediatamente o chamaria e denunciaria o bielorusso malandro. Mas não houve oportunidade de chegar a este ponto porque o russo insistiu para que o bielorusso mostrasse o conteúdo do outro bolso, e quando o bielorusso tentou mover seu bolso de forma a não revelar nada foi possível ver o cantinho do maço de dinheiro aparecendo.

O russo apontou, falando “Taí meu dinheiro”, ao que o bielorusso rapidamente tirou o dinheiro do bolso, colocou na mão do russo e saiu andando. O russo falou algumas coisas para ele. Eu nesse momento fiquei extremamente envergonhado com a atitude que eu tive durante toda a situação e simplesmente saí andando, também receando que poderia sobrar algum problema para mim.

Passei as próximas horas me sentindo um pouco mal, decepcionado com a forma como agi. Eu devia ter falado logo de cara para o russo que o dinheiro estava com o bielorusso. Este último estava agindo como um bandido, e por alguma razão eu estava praticamente “acobertando" o desgraçado. Deve haver alguma explicação psicológica pelo modo como agi com ele. Talvez por causa da interação que tivemos antes eu tivesse criado uma simpatia por ele, o que fez com que eu agisse praticamente como um cúmplice. Fiquei com muita raiva dele.

Mais tarde, ao contar esta história para meu amigo ucraniano que estava me hospedando, ele declaro que provavelmente o que eu tinha vivenciado fora um golpe, um “scam”, uma trapaça. Eu não consegui entender a moral do golpe: alguém me oferece dinheiro? Normalmente golpes envolvem tirar dinheiro da vítima, e não oferecer.

Eu acabei pesquisando na internet e descobri que a idéia do golpe é algo assim: o malandro 1, vamos chamá-lo de o sortudo, finge que encontra o dinheiro e oferece dividi-lo com a vítima. É possível que outras pessoas, que não sejam eu, aceitem a divisão, então o sortudo divide o dinheiro e desaparece. A vítima continua andando feliz, por ter simplesmente ganho dinheiro assim, do nada, até que aparece o malandro 2. Chamemos este de o gorila, porque é um cara enorme e intimidador. O gorila começa a pressionar a vítima dizendo que sabe que ela aceitou o dinheiro, e quando finalmente a vítima devolve o dinheiro ele reclama que está faltando a metade. Usando suas técnicas de intimidação, o gorila força a vítima a ressarci-lo com seu próprio dinheiro, e o que inicialmente parecia sorte dos céus acabaria se tornando um evento de grande prejuízo para a vítima.

Quando li sobre esse golpe pensei em como era arriscado para os trambiqueiros. Imagina se a vítima, ciente do golpe, assim que o sortudo lhe oferece dinheiro, saísse correndo e sumisse? Ela sumiria com uma boa grana dos bandidos, pelo menos uns mil dólares.

A não ser que, o mais lógico, fosse dinheiro falso. Neste caso, se a vítima percebesse isso talvez pudesse se livrar da intimidação do gorila.

Uma coisa interessante deste golpe é que para funcionar a vítima em si já tem que agir um pouco de má fé, aceitando dinheiro que pertence a outra pessoa. Então o próprio golpe é como se fosse uma punição por sua ganância. Será que os golpistas se consolam pensando deste jeito?

No final das contas, achei que este golpe é muito idiota e me surpreenderia descobrir que funciona.

sábado, 24 de janeiro de 2015

O Ouro do Imperador - Último capítulo

Este é o texto 9 de 10 da Primeira Maratona de Posts do Patinete a vela.
Se você ainda não o fez, leia O Ouro do Imperador - Capítulo 7.


O Ouro do Imperador

Último capítulo

Onde ouro é finalmente encontrado. Mas a que custo?

Foi mais uma noite mal dormida para Henrique. Teve sonhos claustrofóbicos, em que se imaginava enterrado vivo em um caixão. Despertou com um suor frio escorrendo por sua têmpora e ficou mais tranquilo quando, olhando para sua frente, viu seu amigo Roberto examinando seu pequeno caderno de anotações.

Sua cabeça ardia com uma dor insuportável, como se além da febre delirante causada por seu ferimento ele tivesse recebido uma pancada forte.Tentou se levantar mas não conseguiu. Seus braços e pernas estavam imobilizados, amarrados fortemente com as cordas de escalada que Remy havia guardado nas mochilas.

- Roberto, o que está acontecendo?

Roberto levantou seu olhar do caderno e olhou para Henrique em silêncio.

- Por que estou amarrado?

Roberto deu um longo suspiro enquanto fechava seu caderno e se aproximava de Henrique.

- Nós vamos receber um convidado e eu não queria arriscar qualquer imprudência de sua parte.

Henrique tentou afrouxar as cordas mexendo os seus braços e pernas, mas os nós estavam muito apertados e seus músculos muito fracos para que tivesse qualquer efeito.

- Para de brincadeira, me desamarra e vamos procurar logo o tesouro! Estamos tão perto - disse Henrique em um tom de súplica.

Roberto apenas suspirou e caminhou em direção à entrada da caverna. De lá, ficou olhando para os lados procurando por alguma coisa, ou alguém.

- Eu lamento muito o que vai acontecer com você, não pense que não. 
- Do que você está falando?
- Seria mais humano se eu acabasse com seu sofrimento agora, de uma vez. Mas as regras são dele e isso seria inaceitável.
- Do que você está falando? - exclamou Henrique, assustado.

Roberto deu um novo suspiro, seguido de um ataque de tosse.

- Maldita gripe!
- Dane-se você e sua maldita gripe, me explique o que está acontecendo!
- Nosso convidado é alguém evasivo e difícil de encontrar. E muito tímido. Ele sente vergonha de sua própria aparência, coitado. Eu o estive procurando desde que saímos de St. Bernard, mas não encontrei traços.

O pânico começava a tomar conta de Henrique. Começou a forçar convulsões, na tentativa desesperada de afrouxar as cordas. Mas e se conseguisse se soltar? O que faria? Ele estava doente e fraco, Roberto claramente tinha a vantagem. Não teria como sobrepuja-lo.

- Eu não tinha certeza se ele estava ciente de nossa presença, por isso eu precisava atrai-lo de alguma forma. Ele tem uma apreciação pelo cheiro de sangue e suas bandagens foram muito convenientes. Supus que ele estava por perto quando encontrei essa cabra que ele gentilmente nos cedeu para matarmos a fome. Mas eu tinha que ter certeza de que ele nos encontraria.

Henrique de repente somou dois mais dois e gritou em tom acusatório.

- Você me empurrou a propósito! Era parte de seu plano que eu me ferisse!
- Eu imaginava que você quebraria a perna, mas você é um homem de sorte! Toda essa dor que você está sentindo agora, imagina como seria pior com a perna quebrada?
- Me solta! Me deixe ir embora, eu vou sozinho, por favor! - suplicou Henrique.
- Desculpa não vai dar.
- Por que você está fazendo tudo isto?
- Henrique, é importante que você entenda que existem coisas que são maiores do que a própria vida. Hoje você vai cumprir o seu papel em um esquema maior, seu sacrifício vai possibilitar coisas incríveis. Você devia se sentir menos amedrontado e mais orgulhoso.

Henrique chorava sem controle.

- O tesouro? Era tudo mentira? Todo esse lance de Napoleão era mentira?
- Não era mentira. O tesouro existe. E sim, você era a única pessoa que poderia me ajudar. A única pessoa que poderia embarcar em uma aventura absurda junto a um praticamente estranho.
- Roberto, eu te suplico, pela última vez, por favor me deixe ir. Que tesouro vale acabar com a vida de um amigo?
- Eu estou sofrendo muito também, vai ser muito difícil superar. Mas tem ficado mais fácil.

Fez-se silêncio. Henrique não sabia mais o que dizer. Estava em estado de choque e esperava a qualquer momento descobrir que tudo era apenas um pesadelo e acordar em sua cama em seu apartamento de solteiro. Assim que isso acontecesse, ele se prometeu que iria levar uma vida completamente diferente.

O silêncio perdurou por alguns minutos, até que se ouviu desde o exterior da caverna o leve ruído de pedras rolando pela encosta. Então apareceu uma grande sombra na entrada da caverna.

Roberto olhou para a sombra com temor reverencial. A sombra olhou para ele, depois olhou para Henrique. Aos poucos foi possível discernir mais detalhes sobre a criatura. Que visão aterradora! O monstro tinha a forma de um homem, mas não poderia ser confundido com um homem normal. Era uma criatura hedionda, de braços e músculos enormes. Sua pele amarela mal encobria os músculos e artérias da superfície inferior. Os cabelos eram de um negro luzidio e como que empastados. Seus dentes eram de um branco imaculado. E, em contraste com esses detalhes, completavam a expressão horrenda dois olhos aquosos, parecendo diluídos nas grandes órbitas em que se engastavam, a pele apergaminhada e os lábios retos e de um roxo-enegrecido.

A criatura vestia um casaco azul esfarrapado e, como indício de que pelo menos possuía a vaidade característica dos humanos, possuía vários adornos pendurados em seus ombros e sua roupa. Seu casaco tinha algumas medalhas penduradas. Em seu pescoço, um colar de dentes que, sob uma inspeção mais cuidadosa, seria possível constatar serem de seres humanos.

A criatura olhou para Roberto e em seguida para Henrique. Caminhou pelo interior da caverna a passos lentos porém longos. Quando chegou perto de Henrique, ajoelhou-s e começou a desamarrar as cordas.

Quando a pressão das amarras se aliviou, Henrique por um momento teve um sentimento de esperança. Por que ele deveria achar que esta ser iria lhe causar algum mal? Talvez fosse um homem desafortunado, expulso do convívio da sociedade por sua aparência repulsiva, e talvez ele apenas precisasse de um outro ser humano para mostrar que todo ser vivo, não importa sua aparência, é digno de compaixão.

A criatura desamarrou as cordas quase que com delicadeza e ficou agachado olhando para Henrique, que já começava a se acalmar. Talvez ele conseguisse conversar com a criatura, convence-la de que ainda haveria esperanças, que se ela o deixasse ir embora poderiam talvez se tornar amigos.

As esperanças de Henrique se esvaíram quando a criatura tirou um pedaço de pano vermelho de seu bolso. Era uma das bandagens dos curativos que Roberto fizera em sua perna. A criatura levou o pano ao nariz, onde inalou profundamente e então o guardou novamente.

“Não há esperança”, pensou Henrique. “Esta é uma criatura sanguinária e estou perdido”, lamentou, imediatamente antes da dor excruciante que sentiu guando a criatura afundou seus dentes afiados na sua perna esquerda e rasgou um enorme pedaço de sua carne. Henrique gritou com toda sua força enquanto a criatura se deleitava em seu banquete antropofágico, mas gritar não aliviava sua dor. Roberto observava tudo de longe, com visível tensão.

Com horror, Henrique observou que no meio de seu colar de dentes havia um adorno que ele não havia percebido antes. Era um pequeno cilindro de porcelana, no formato de uma falange.

Não teve tempo de pensar no destino que o guia havia tido, que provavelmente seria o mesmo que ele teria, pois o desmaio veio logo em seguida. A criatura permaneceu imóvel enquanto mastigava. Levantou-se, então, e como se carregasse uma criança jogou Henrique por cima de seu ombro. Virou-se e olhou para Roberto, que por mais vezes que tivesse visto a criatura nunca conseguiria se habituar a tal visão. Colocou a mão em seu outro bolso, de onde tirou um pequeno saco de couro que fazia um tilintar metálico enquanto a manipulava. Arremessou-a aos pés de Roberto. Ao cair a bolsa se abriu espalhando seu conteúdo pelo chão da caverna: dezenas de moedas douradas com a efígie de Bonaparte, Premier Consul.

A criatura abandonou a caverna em silêncio, assim como entrara. Roberto ficou lá, contando seu tesouro. Sentia algo pelo que tinha feito? Sentia, sim, um incômodo no fundo de seu estômago. Mas a cura para esse mal estar ele já conhecia - viajar. E durante a viagem, quem sabe, ele encontraria outro parceiro disposto a ajudá-lo a conseguir o restante do ouro perdido do Imperador.

O Ouro do Imperador - Capítulo 7

Este é o texto 8 de 10 da Primeira Maratona de Posts do Patinete a vela.
Por sinal, também é o post de número 50 do Patinete a vela! Adoro números redondos!
Se você ainda não o fez, leia O Ouro do Imperador - Capítulo 6.




O Ouro do Imperador

Capítulo 7

Onde barriga cheia e um lugar quente para dormir fazem maravilhas.

Henrique acordou subitamente de um sonho perturbador. A dor que sentia em sua perna provocou nele pesadelos terríveis, e quando acordou ainda percebeu que estava tremendo de frio. Saiu da barraca e encontrou Roberto se aquecendo em uma pequena fogueira.

- A temperatura caiu uns dez graus durante a noite - disse Roberto com uma voz rouca. Sua gripe parecia ter piorado.
- Eu acho que nós temos que desistir da busca. Estou sentindo muita dor.

Roberto olhou para Henrique com um ar de preocupação.

- Não podemos desistir agora, estamos muito perto.
- Mas nós nem sequer temos comida! Vamos morrer aqui sem ninguém ficar sabendo.
- Calma Henrique! Chega de tanta frescura! Sua perna vai melhorar. Sei que foi um corte muito fundo, mas se mantivermos a ferida limpa e você continuar tomando antibióticos vai dar tudo certo.
- Você está obcecado com a idéia do tesouro. Se nós voltarmos para a cidade até eu me recuperar, depois podemos voltar e continuar de onde paramos!
- Não podemos arriscar que os locais de Martigny suspeitem do que estávamos fazendo. Desculpa Henrique, nós vamos ficar.

Henrique estava começando a ficar em pânico. Roberto tentou acalmá-lo.

- Henrique, eu sei que você não está em condições de caminhar. Eu me proponho a procurar comida, e é melhor que eu vá sozinho senão você vai nos atrasar muito.

Henrique não queria ficar sozinho, mas pensou bem e achou que seria melhor deixar Roberto ir.

- Tá certo, mas por favor não demore.
- Você está sob meus cuidados! Não se preocupe!

Antes de ir, Roberto trocou o curativo de Henrique. Já era hora, pois a faixa de algodão estava ensopada de sangue. Henrique, delirante que estava, não achou estranho que Roberto guardou os curativos em seu bolso.

Roberto se despediu e partiu em busca de comida. Havia deixado sua mochila para não atrapalhar em sua caminhada. Assim que se passaram alguns minutos e teve certeza que Roberto já estava longe, Henrique saltou em direção à mochila de seu amigo.

"Tem que estar por aqui, em algum lugar”, pensou.

Continuou procurando até que encontrou o que procurava: o telefone via satélite.

“Ótimo! Nem a pau vou continuar aqui nessa montanha com esse maníaco obcecado!”, pensou enquanto apertava o botão para ligar o aparelho.

Mas nada acontecia. Insistiu mais um pouco, até que pensou em checar as pilhas e constatou que estas haviam sido removidas do aparelho.

“Desgraçado! Onde estão essas pilhas malditas?”.

Revirou a mochila e não conseguiu encontrar nada. Recorreu então aos detectores de metal e constatou que as pilhas também haviam sido removidas. Chegou à conclusão de que não adiantaria continuar insistindo: seu amigo não ficaria satisfeito enquanto não encontrassem o tesouro.

Sentou-se contra uma rocha e ficou lá, olhando para o horizonte e esperando.

Algumas horas depois, Roberto voltou. Ele estava com um sorriso enorme no rosto e carregava em seu ombro um carneiro morto.

- Olha só o que consegui! Espero que você goste de uma carne suculenta mal passada porque hoje vamos matar a fome de forma gloriosa!

Henrique olhou para Roberto surpreso.

- Eu não sabia que você sabia caçar.
- Você nem imagina! Além disso encontrei aqui perto uma caverna excelente para passarmos a noite e nos protegermos do frio.

Ao terminar de falar isto, Roberto percebeu que sua mochila estava aberta e as coisas espalhadas pelo chão.

- O que aconteceu?
- Você tirou todas as pilhas dos equipamentos eletrônicos.
- Ah, é mesmo, eu não queria arriscar a que você fizesse uma besteira.
- Você não tem esse direito. Você está arriscando a minha vida. Eu preciso de tratamento médico.

Roberto olhou para Henrique com uma expressão séria, e então disse:

- Sabe o que vai te animar? Um belo pedaço de carne assada. Acho que é a fome que está falando metade das palavras que saem da sua boca. Deixa comigo que já resolveremos esse problema.

De fato, bastou Roberto começar a assar o carneiro que o delicioso aroma acertou Henrique como uma bigorna. Assim que matou sua fome, os ânimos de Henrique se acalmaram.

- Tá bom, acho que você tem razão. Não adianta nos precipitarmos e largarmos tudo. Eu acho que a dor já está começando a diminuir.
- Esse é meu garoto.

Levantaram acampamento e se dirigiram à tal caverna que Roberto havia encontrado. Ela se encontrava em um local absurdamente conveniente, a poucos metros de altura com relação à trilha que estavam seguindo.

Eles se instalaram na caverna e acenderam uma fogueira. Roberto aproveitou para revisar o mapa.

- Estamos muito perto do local apontado pelo mapa. Tem uma área um pouco grande onde pode estar o tesouro e vamos precisar de uns dois dias de busca para encontrar alguma coisa, mas o bom é que esta caverna está em um ponto privilegiado para nos facilitar a busca.
- Eu não estou em condições de procurar, Roberto.
- Não tem problema, só fique aqui na caverna tomando conta das coisas e eu vou fazer a busca.

Roberto saiu e deixou Henrique sozinho. Depois de algumas horas sem ter o que fazer, Henrique decidiu explorar a caverna. Descobriu que não era funda e que durante a tarde a luz do sol a iluminava quase que totalmente. Enquanto a explorava, no entanto, encontrou algo que o preocupou. Um pequeno montículo de cinzas, mesclado a alguns gravetos parcialmente queimados eram o indício de que alguém já estivera lá e acendera uma fogueira. Roberto não gostaria de saber disso. Se alguém já estivera naquela mesma caverna, tão perto de onde estava o ouro pelo qual seu amigo estava tão obcecado, então a chance de o tesouro já tivesse sido achado era grande.

Tentou ser mais otimista e expulsar esses pensamentos negativos de sua mente. Mas era difícil. A dor de sua perna e o torpor provocado pelos antibióticos que estava tomando o deixavam mal humorado. Aproveitando que ainda estava claro, achou que seria melhor sair um pouco da caverna e explorar os arredores.

Não se afastou muito. Ficou sentado na entrada da caverna apreciando a paisagem montanhosa e vendo se conseguia encontrar Roberto no vale abaixo. Enquanto procurava, viu algo estranho, uma mancha branca sobre as rochas cinzentas, uns vinte metros abaixo da entrada da caverna. Desceu para ver o que era e descobriu que eram as bandagens ensanguentadas que Roberto trocara nesta manhã. Achou pouco civilizado por parte de Roberto que este jogasse esse "lixo hospitalar” assim, no meio da natureza, então recolheu o pano e trouxe de volta para a caverna.

Começou a assar um pedaço de carne para si e para seu amigo e começou a ficar com água na boca quando o cheiro da carne começou a preencher a caverna.

Não tardou muito para que Roberto aparecesse de volta.

- E aí, como foi a busca?
- Foi muito boa, esta área bate certinho com o que está no mapa. Tenho a impressão de que só mais um dia de busca e vamos encontrar o que viemos procurar!
- Que ótimo! E então vamos poder ir embora desta maldita montanha!

Os amigos jantaram e conversaram alegremente, ou pelo menos o mais alegremente possível dadas as circunstâncias agravantes impostas pela perna ferida de Henrique e a gripe de Roberto. Mas, por outro lado, um estômago cheio e uma caverna que os protegia do frio eram elementos muito favoráveis para levantar o espírito.

Henrique recostou-se contra uma pedra para dormir. Roberto estava removendo algumas pedras de um canto da caverna para liberar espaço para seu saco de dormir quando encontrou uma pedra com um formato um pouco estranho. Quando olhou melhor, viu que não era uma pedra e sim um pedaço de osso. Inconfundível. Um pedaço de mandíbula. Humana.

- Droga. - sussurrou para si mesmo Roberto.
- O que foi? - perguntou Henrique sem sequer abrir os olhos.
- Não foi nada, não se preocupe! - respondeu Roberto enquanto arremessava o pedaço de mandíbula para o fundo da caverna.
- Não sei por que, tenho um pressentimento de que amanhã vai ser um dia muito bom - disse -Henrique.
- E eu tenho certeza.

Roberto adormeceu com um sorriso na boca. É incrível o que a perspectiva de uma grande riqueza faz com o ânimo dos homens.

... a jornada termina em O Ouro do Imperador - Último capítulo.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O Ouro do Imperador - Capítulo 6

Este é o texto 7 de 10 da Primeira Maratona de Posts do Patinete a vela.
Se você ainda não o fez, leia O Ouro do Imperador - Capítulo 5.

O Ouro do Imperador

Capítulo 6

Onde nada é tão ruim que não possa piorar.

A noite fria não ajudou Roberto a se recuperar da forte tosse que o acometia. Tanto ele quanto o Henrique dormiram muito mal, e tampouco ajudou a melhorar os ânimos a descoberta que fizeram pela manhã. As mochilas, que na noite anterior estavam fechadas perto da fogueira, agora estavam abertas com seus conteúdos espalhados pelo chão.

Henrique ajoelhou-se e começou a procurar no meio das coisas espalhadas pelo chão.

- Sumiu toda a comida! Algum animal deve ter sentido o cheiro e levou tudo!
- Porra, Henrique, não acredito, a primeira noite em que você é o último a dormir e você tem um descuido desses? Tinha que deixar as malas bem fechadas e perto da barraca, meu!

Roberto estava muito bravo, tanto que Henrique até ficou assustado.

- Puxa, Roberto, calma! Não foi intencional, eu não imaginava que algum bicho ia ter coragem de chegar perto da gente ou da fogueira!

Roberto começou a tossir violentamente, o que não o deixou mais calmo.

- Droga! Droga! DROGA! Agora vamos ter que arranjar comida em algum lugar! Não podemos voltar estando tão perto!

Henrique estava se sentindo muito mal.

- Tá bom, desculpa, nós vamos encontrar algo para comer. E além disso temos que pensar em encontrar água, já está acabando.

Durante as próximas horas reinou silêncio total entre os amigos. Desmontaram as barracas e continuaram a caminhada pela trilha que evadia pelo meio das pedras.

- Aqui nessas montanhas tem alguns lagos que se formam quando derrete a neve. Deve ter um aqui por perto. Vamos encontrá-lo e encher nossas garrafas - disse finalmente Roberto. - Vamos ter que desviar um pouco da rota do mapa, mas depois fica fácil voltar.

O resto da manhã foi dedicado a encontrar o lago. Quando o encontraram, Henrique teve uma excelente idéia:

- Será que tem peixes nesse lago? E se tentássemos pescar?

Felizmente o material de sobrevivência que Remy havia separado para cada um incluía um anzol e um fio de pesca enrolados em uma pequena haste de plástico, que funcionava como uma alça para conseguir segurar bem o fio. Eles não tinham qualquer isca, por isso tentaram usar sementes de uns matos que cresceram em volta do lago e também pescar sem isca.

Eu não queria dizer nada para não estragar o empenho com o qual os amigos se entregaram à pescaria. Parece que um instinto primitivo de sobrevivência havia se instaurado nos dois, e naquele momento eles encaravam aquela atividade como a mais importante de suas vidas. Se soubessem que naquele lago não havia um peixe qualquer, que decepção teriam!

O sol já estava alto quando desistiram da pescaria. Encheram as garrafas e tentaram voltar para a trilha onde estavam. Roberto ainda estava mal humorado, apesar de ter seguido à risca aquele conselho de adesivo de para-choque de carro, que instrui motoristas nervosos a acalmarem seus ânimos em uma relaxante pescaria. Difícil de agradar é esse menino. Mas dêmos um desconto a ele, o pouco que restara de seus ânimos após o efeito da forte gripe que vinha sentindo fora completamente obliterado pela terrível noite mal dormida.
Mas eis que, enquanto desciam a encosta da montanha para retornar à trilha, Henrique recebeu um forte empurrão que o fez perder o equilíbrio e rolar encosta abaixo, batendo seu corpo violentamente contra rochas afiadas. Sua queda foi amortecida por um enorme rochedo.

- Henrique, Henrique! Você está bem cara? - veio a voz de Roberto, lá de longe. Sua voz soava genuinamente consternada.
- Estou sentindo muita dor, venha me ajudar rápido!

Roberto desceu rapidamente até onde seu amigo se encontrava.

- Eu juro que foi sem querer, eu não quis te empurrar! Eu perdi o equilíbrio, caí sentado e nisso sem querer te empurrei com meus pés, me desculpa!

Toda a raiva que Roberto estava sentindo instantaneamente se transformou em um terrível sentimento de culpa.

- Está sangrando muito, vamos tentar levantar sua calça.
- Não, para! Está doendo muito! Não mexe!
- Nós temos que ver o que aconteceu, se não tomarmos uma providência você pode acabar perdendo muito sangue.

Henrique quase desmaiou de dor enquanto Roberto levantava a perna esquerda de sua calça. O que viram não era muito alentador.

- Que corte horrível!
- Não quero nem olhar! Tenho pânico de ver essas coisas! - disse Henrique quase chorando.
- Me deixa ver o kit de primeiros socorros.

No kit Roberto encontrou água oxigenada, esparadrapo, gazes, algumas faixas de algodão e algumas cartelas de antibiótico, entre outras coisas.

- Vou limpar seu ferimento e então vai ser melhor se você tomar este antibiótico, para não arriscar a que você pegue uma infecção.
- Está doendo muito, não quero continuar, liga para o Remy e fala para ele vir nos buscar.

Roberto não pareceu muito feliz com a sugestão.

- Calma, está tudo bem. Nós vamos cuidar de seu ferimento e vamos poder continuar procurando o tesouro. Estamos quase lá, vai dar tudo certo!
- Vai lá, liga, eu quero voltar para a cidade e ir a um hospital!
- Calma Henrique! Não se precipite! A dor vai passar daqui a pouco, você vai ver!

Com toda a delicadeza que conseguiu reunir, Roberto ajudou Henrique a se levantar. Ele havia feito um curativo em seu amigo, limpando a ferida com água oxigenada e cobrindo o ferimento com  uma atadura. Encontrou um galho na beira do lago e entregou para que seu amigo o usasse como bengala e assim pudesse caminhar com mais facilidade.

Se o progresso deles já era lento antes, com Henrique incapacitado desse jeito ficou muito mais lento. A cada passo que dava, Henrique sentia uma dor insuportável. Roberto se lamentava e se xingava em voz alta por ter feito aquilo com seu amigo.

O resto do dia foi perdido desse jeito. Quando Henrique não aguentou mais dar um passo sequer, decidiram parar. Roberto estava super atencioso com Henrique, é uma das maravilhas de uma mente com complexo de culpa. Montou a barraca para seu amigo, trocou seus curativos, só faltou massagear seus pés e trazer uma cerveja, mas as limitações moral e de recursos disponíveis não permitiria que Roberto fizesse estas coisas.

Henrique sentia muita dor e seu corpo começou a esquentar muito. Sentia calafrios e passou a sentir uma paranóia extrema. As sombras saltitantes que a fogueira lançava contra as pedras pareciam silhuetas de animais, e ele quase não conseguiu conter o medo quando uma das sombras lançadas contra a rocha pareceu com um monstro gigante se aproximando dele. Achou que estava delirando e decidiu ir dormir, com a esperança de que as propriedades terapêuticas do sono fizessem com que a dor fosse pelo menos mais fácil de aguentar no dia seguinte.

... continua em O Ouro do Imperador - Capítulo 7.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O Ouro do Imperador - Capítulo 5

Este é o texto 6 de 10 da Primeira Maratona de Posts do Patinete a vela.
Se você ainda não o fez, leia O Ouro do Imperador - Capítulo 4.


O Ouro do Imperador

Capítulo 5

Onde a busca começa a ficar mais difícil.

Aquela foi a primeira noite bem dormida de Henrique. Ele se surpreendeu ao ver em seu relógio que já eram oito da manhã e, quando saiu da barraca, encontrou Roberto com sua barraca desmontada e guardada e sua mochila já arrumada para partir. Além disso, Henrique percebeu que seu amigo tossia incessantemente.

- Por que você não me acordou antes, Roberto?
- Achei que era melhor deixar você dormir um pouco mais, afinal não precisamos ter tanta pressa assim.
- E essa tosse feia?
- Passei muito frio à noite, você não? Acho que peguei uma maldita gripe.

Henrique deu um bocejo alto e sentiu que algo não estava certo. Olhou ao redor e então perguntou alarmado:

- Onde está o Remy?
- Ele voltou para Martigny. Ontem fiquei conversando com ele e consegui convence-lo a nos emprestar o equipamento e deixar que continuássemos a excursão sozinhos.
- Como foi que você o convenceu? Ele parecia irredutível.
- Tive que oferecer algum dinheiro para ele. Mas não tem problema agora. Ele deixou o telefone via satélite para ligarmos para ele quando quisermos voltar, aí ele vem nos buscar.
- Ótimo, que bom é ver que está tudo sob controle!

Henrique nem parou para pensar de onde teria Roberto tirado dinheiro, já que o folgado estivera viajando às custas dele desde o primeiro dia de viagem. Mas mesmo que tivesse achado isso estranho, agora a preocupação era começar a jornada e encontrar logo o tão sonhado tesouro.

Tomaram um café da manhã rápido e começaram a caminhada. Roberto apontou para seu mapa e disse:

- De acordo com meu mapa estamos prestes a encontrar uma bifurcação na estrada, onde vamos sair da estrada principal. Essa estrada secundária que vamos pegar serpenteia encosta abaixo. Provavelmente mais um dia de caminhada e vamos conseguir encontrar o ponto marcado no mapa onde deve estar nosso tesouro.

Os dois caminharam por aproximadamente uma hora até chegarem à bifurcação. Não era exatamente o que Henrique estava esperando. A bifurcação levava a uma trilha estreita e íngreme no meio das rochas. A decida seria mais uma escalada do que uma caminhada.

- Você não acha estranho que a carroça com o ouro real tenha pego esta estrada secundária? Acho que mesmo nós vamos sentir dificuldades em descer. - disse Henrique.
- O mapa está certo, vamos lá. - talvez fosse por causa da gripe, mas Roberto estava começando a soar um pouco impaciente.

A decida foi bem trabalhosa. Era necessário usar as duas mão para se segurarem nas rochas enquanto deslizavam trilha abaixo. Continuaram assim por cerca de uma hora até chegarem a uma outra trilha, mais larga, que continuava ladeando a montanha.

A trilha estava coberta de vegetação e parecia que não era muito usada, nem por seres humanos nem por qualquer animal que habitasse as montanhas. Henrique e Roberto usavam seus detectores de metal continuamente, especialmente sobre arbustos ou regiões de vegetação mais espessa.

Pararam para descansar um pouco. Apesar de estarem no verão, a temperatura naquela região ainda era muito baixa, próxima de zero graus. Henrique achava que o frio fazia com que ele se cansasse menos durante a caminhada, mas não estava fazendo muito bem a Roberto que continuava tossindo como se fosse um fumante crônico.
Passaram mais algumas horas seguindo pela estrada, que ora ficava mais estreita, ora mais larga. Em alguns trechos era possível, olhando para cima, ver a estrada principal, mas muitas vezes a estrada secundária serpenteava pelo meio das rochas de forma que era impossível de ver a outra estrada.

- Esta estrada em que estamos seguindo é quase invisível desde a estrada principal - disse Roberto. - Essa é a nossa sorte, pois pouquissimas pessoas devem conhece-la, o que reduz a chance de que alguém tenha chegado ao tesouro antes.

O resto do dia foi apenas de caminhada. Quando escureceu, armaram as barracas e prepararam uma pequena fogueira.

- Estamos quase chegando. Provavelmente amanhã vamos conseguir chegar no ponto marcado no mapa.
- Roberto essa sua tosse está muito feia.
- Eu sei, esta maldita gripe está acabando comigo. E tinha que me acontecer logo aqui, quando precisamos estar com o máximo de nossa disposição. Que droga.
- É melhor você descansar um pouco. Amanhã podemos começar cedo e vamos logo encontrar nosso tesouro.

Roberto despediu-se de Henrique e foi dormir. Henrique estava com pouco sono, por isso ficou mais alguns minutos olhando para a fogueira envolvido em seus pensamentos. Em volta, o silêncio era total, exceto pela tosse de Roberto. Henrique já previa que seu amigo não conseguiria dormir direito por causa da gripe.

Quando a fogueira se apagou, foi até sua barraca, se enrolou em seu saco de dormir e adormeceu.

... continua em O Ouro do Imperador - Capítulo 6.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Ouro do Imperador - Capítulo 4

Este é o texto 5 de 10 da Primeira Maratona de Posts do Patinete a vela.
Se você ainda não o fez, leia O Ouro do Imperador - Capítulo 3


O Ouro do Imperador

Capítulo 4

Onde nossos amigos mais um guia sem noção começam a sua jornada épica

Henrique acordou sobressaltado. Olhou no relógio que eram cinco e meia da manhã. O quarto anda estava escuro mas tênues feixes de luz começavam a se fazer sentir através das persianas. 

Revisou sua mala, vestiu-se e desceu ao refeitório, onde Roberto e Remy já estavam conversando animadamente enquanto tomavam café da manhã. Não havia outros hóspedes no hotel, mas a senhora simpática da recepção estava tomando um café em uma mesa com um homem que devia ser seu marido. O homem sorriu para Henrique e acenou, ao que nosso protagonista retribuiu.

Quando chegou à mesa, Roberto e Remy o saudaram com alegria.

- Bom dia Henrique! Hoje é o dia!
- É mesmo, eu estou tão ansioso que consegui dormir só duas horas nesta noite.

Remy, com seu horroroso piercing de porcelana balançando sob seu nariz, puxou uma cadeira para Henrique. Quando este se sentou percebeu que havia um mapa aberto sobre a mesa e alguns panfletos publicitários do "Tour da Travessia”.

- Eu estava explicando para o Robért qual vai ser nosso roteiro - disse Remy em inglês, com um sotaque horroroso. Não adianta, homens franceses falando em inglês são pavorosos. Só o sotaque feminino se salva, como vocês bem devem se recordar da atendente da Swiss.
- Nós vamos subir de jipe até o Hospice de St Bernard, que fica no ponto mais alto da estrada. Lá nós vamos parar para uma rápida visita, então vamos deixar o jipe estacionado e vamos pegar a estrada histórica, aquela que foi usada por Napoleão e o exército da reserva quando decidiram tomar os austríacos de surpresa.

Remy fez o traçado da estrada no mapa com seu dedo.

- A estrada não é muito longa, mas o terreno é muito acidentado e por isso nós vamos avançar devagar. Vamos parar em alguns pontos para usar os detectores de metal para encontrar relíquias da época da travessia. Nunca encontrei ouro, mas às vezes dá para encontrar bugigangas que pertenceram aos soldados. Vamos precisar parar para dormir na estrada dois dias, até chegarmos na base das montanhas no lado italiano, onde vamos parar para descansar e fazer um lanche enquanto esperamos que meu sócio vá nos buscar para o caminho de volta.
- Excellent! - exclamou Roberto em inglês, mas falou baixinho em português para Henrique - Deixa comigo que vamos nos livrar desse trouxa o quanto antes.

Remy começou a depositar alguns equipamentos em cima da mesa.

- Vou apresentar para vocês os equipamentos que vou levar. Nesta época do ano a passagem é muito segura, não há que ter  medo, mas para qualquer eventual emergência temos um telefone celular via satélite, um GPS, três detectores de metal portáteis, binóculos, cordas e mosquetões para montanhismo. Também trouxe três barracas individuais, alguns isqueiros e uma garrafa de querosene para ajudara a acender as fogueiras. Trouxe três kits de primeiros socorros e um pouco de comida e água, que deve ser suficiente para os dois dias que vamos passar na montanha. Por último tem esta pá dobrável que pode ser convertida em uma picareta.

Henrique estava muito empolgado. Ele nunca tinha feito uma excursão de montanhismo e estava quase esquecendo do verdadeiro propósito da presença dele e de seu amigo naquele lugar.
- Certo, então vamos lá!

Os três terminaram de tomar café e caminharam em direção ao jipe detonado de Remy. Por que eles tinham que ir de jipe até Hospice de St Bernard era um mistério, pois a estrada era tão boa que seria possível subir de patinete, se a isso alguém se propusesse. Mas Remy gostava de adicionar um pouco de teatralidade ao seu tour.

- Senhores passageiros, apertem os cintos e preparem-se para a decolagem!

O jipe vacilou durante alguns minutos até dar partida, mas finalmente pegou e em poucos minutos já haviam deixado Martigny para trás. O trajeto não seria longo, provavelmente menos que uma hora. Durante o caminho Remy aproveitou para contar um pouco sobre as guerras napoleônicas, sobre como o elemento surpresa da travessia assegurou uma posterior vitória completa em Marengo, enfim, todos os fatos que ele deve ter repetido dezenas de vezes para todo tipo de turista, isto é, assumindo que de fato turistas se interessassem por aquele tipo de passeio.

Chegaram ao Hospice St Bernard, um conjunto de construções que havia muitos séculos servia como um lugar de apoio e resgate a viajantes que atravessavam as montanhas. É deste lugar a tradição de usar cães São Bernardo para resgatar pessoas perdidas nas montanhas, como agora deve ter ficado óbvio pelo nome. Agora o Hospice funciona como hotel, de um padrão um pouco maior do que os amigos poderiam arcar, pelo menos enquanto não encontrassem as moedinhas do Imperador.

Fizeram um tour rápido pelas instalações, mas Roberto e Henrique estavam ansiosos demais para começar a jornada, o que foi percebido por Remy. Este não ficou exatamente satisfeito porque ele tinha um acordo com o dono da loja de souvenires, por isso ele sempre fazia questão de levar todos seus passageiros por um passeio bem longo pela loja, mas já viu que desses dois brazucas ele não conseguiria arrancar mais dinheiro.

- Certo, senhores, vocês podem ver uma trilha de terra batida, agora bastante coberta de vegetação, já que é tão pouco usada. Imaginem milhares de soldados passando por essa estrada, em condições climáticas bem piores do que estamos vivendo agora. Vocês já devem ter visto o quadro de Napoleão em seu majestoso cavalo branco, representando sua heróica travessia dos Alpes. Na verdade os cavalos tinham muita dificuldade em passar por essas trilhas, por isso Napoleão teve que subir montado em um burrinho. Por mais simpático que o burrinho fosse, dá para entender por que Napoleão quis ser retratado em seu corcel, não é mesmo?

Os amigos começaram a caminhar pela estrada de terra. Estava muito frio, e ambos os lados da estrada apresentavam camadas de neve. A terra estava congelada em muitos pontos, o que a tornava muito escorregadia. Mas Roberto já havia se prevenido e havia trazido dois pares de botas com travas para evitar acidentes indesejados.

O começo do trajeto foi muito agradável. Remy havia fornecido um mapa histórico da estrada, onde Henrique e Roberto puderam acompanhar seu progresso. A vista era maravilhosa, especialmente das montanhas nevadas ao fundo. Mas não era isso o que interessava aos nossos protagonistas! Eles olhavam com atenção a cada bifurcação e formação rochosa da estrada, tentando lembrar-se e encaixar o que viam com o mapa de Roberto.

De tempos em tempos eles paravam de caminhar para beber um pouco de água e descansar. Remy havia ensinado Henrique a usar o detector de metais e havia sugerido que este os usasse nos pontos de vegetação mais alta ou em fendas entre as rochas. Henrique achou agradável usar o aparelho, com seu bipe suave que aumentava sua cadência quando chegava perto de algum metal.

- Peraí, pessoal, achei, achei alguma coisa! - exclamou Henrique.
- Hahaha, seu engraçadão, você acabou de encontrar minhas chaves, agora tira esse detector de metais de cima de meu bolso.

Henrique se afastou de Roberto dando risada e continuando a brincar com o detector de metais.

Continuaram a jornada. Sem que Remy visse, Roberto comparava o caminho que faziam com o de seu mapa. Ainda estavam em um ponto no qual as duas rotas coincidiam, mas parecia faltar pouco para chegarem ao ponto em que deveriam mudar o caminho.

- Vocês conseguem acreditar que Napoleão tinha apenas trinta anos quando liderou os exércitos através dos Alpes? - contou Remy. - E ele já era Primeiro Cônsul francês, o cargo de comando mais alto que era possível exercer, isso até que alguns anos depois ele se declarou Imperador.
- É admirável mesmo - declarou Henrique.
- E nós, o que estamos fazendo com trinta anos de idade? - continuou Remy, começando a soar um pouco desanimado. - Estamos aqui, presos em uma cidadezinha miserável, onde nunca aparecem turistas, tentando convencer qualquer pessoa que nos dê um pingo de atenção a que nos dê uma chance de mostrar que nosso tour é legal, só para depois ficarmos ouvindo reclamações de que o jipe é desconfortável, que a estrada é escorregadia, que a neve é fria e molhada - Remy começou a soluçar enquanto falava estas coisas. Certamente ele era um pouco complexado e não ajudava muito ficar relembrando a história de Napoleão repetidas vezes.
- Ehm, Remy, que tal se você nos falar um pouco sobre o tesouro perdido de Napoleão?

Remy se recompôs e começou a narrar como, durante o transporte do tesouro do exército através das montanhas, a roda de uma carroça de quebrou e provocou sua queda por um desfiladeiro de cinquenta metros. Levou um dia inteiro para conseguir recuperar o tesouro, mas com a necessidade de realizar a contabilidade às pressas, não se sabe ao certo se todo o ouro foi de fato recuperado.

- Tampouco sabemos ao certo onde foi exatamente que isto aconteceu - disse Remy. - Apesar de que já houveram incontáveis expedições para encontrar qualquer coisa, vocês podem ver que a área de montanha serpenteada pela estrada é enorme, então é bem plausível que algo possa ter se perdido e que ninguém nunca vá conseguir achar.

“Pelo menos ninguém que não tenha nosso mapa”, pensou Henrique.

A estrada parecia dirigir-se diretamente para um precipicio. Quando chegaram na beirada, constataram que a estrada fazia uma curva fechada e prosseguia por algumas centenas de metros ladeada por um lado pelo cume da montanha e pelo outro por um abismo de mais de cem metros de altura.

- Recomendo que descansemos um pouco antes de continuar. - Disse Remy.

Henrique e Roberto deram boas vindas à sugestão. Descarregaram suas mochilas, sentaram-se em uma roha e aproveitaram para beber água. Roberto viu com o canto do olho como Remy se afastou um pouco até chegar em um ponto em que supunha estar fora do alcance de visão deles. Roberto viu Remy colocando a mão no bolso e jogando algo no meio de umas pedras.

- Sempre que eu paro para descansar gosto de usar meu detector de metais - exclamou Remy em uma voz pouquíiiiiissimo suspeita, enquanto varria a área em sua volta com o aparelho. - Nunca se sabe quando se pode encontrar alguma coisa.

Enquanto dizia isso, Remy passou o detector de metais bem por cima do lugar onde Roberto o havia visto deixando cair o objeto misterioso que estava em seu bolso. O detector de metais começou a fazer um barulho característico.

- Amigos! Acho que encontrei algo! No meio destas pedras, me ajudem!

Roberto e Henrique correram em direção a Remy.

- Me ajudem a levantar esta pedra enquanto eu vejo o que tem embaixo!

Os dois amigos levantaram a pedra, enquanto Remy enfiou seu braço e voltou segurando algo.
- Vejam que sorte! Encontrei uma moeda antiga!

Mostrou a moeda rapidamente para Henrique e Roberto.

- Com certeza é um franco de cobre da era pós Revolução Francesa, de incrível valor histórico. - declarou o conhecedor Remy. - Vejam, é datada de 1797.

Henrique olhou com interesse para a moeda. Roberto estava pasmo.

- Apesar de que eu tenho paixão por colecionar objetos antigos, entendo que vocês queiram levar como lembrança, um autêntico tesouro napoleônico. Por isso eu posso vender para vocês por um preço irrisório.
- Sério mesmo? - disse Henrique empolgado - Quanto você quer por essa moeda?
- Acho que trezentos dólares é um valor bom, especialmente porque uma moeda destas facilmente pode valer mais que mil dólares para um colecionador.
- Me deixa ver essa maldita moeda - disse Roberto. - Mil setecentos e noventa e sete? Você acha que somos trouxas? Isto é um franco de cobre de Mil novecentos e noventa e sete, aqui o nove foi raspado com uma chave de fenda para parecer um sete.
- Nossa, que estranho. Como será que essa moeda veio parar aqui no meio das pedras?

Remy não se deixou abalar por ter sido pego no pulo. Agiu com a maior naturalidade e pediu sua moeda de volta para Roberto com a maior delicadeza, sem querer provocar a ira do brasileiro, e deu um sorriso amarelo cheio de dentes com uma falange de porcelana por cima.

- Se não interessa a vocês a lembrança, pelo menos para mim interessa!

Continuaram caminhando por mais algumas horas, parando ocasionalmente para tirar fotos e brincar com os detectores de metal. Quando já estava quase escurecendo, Roberto alcançou Henrique e conversou baixinho.

- Falei com o Remy, e ele não está muito a fim de nos deixar sozinhos com o equipamento dele. Ele diz que é um equipamento caro e não quer se arriscar a que quebremos ou alguma coisa.
- Você tem que convencê-lo a nos deixar sozinhos! Ou será que não poderíamos convida-lo a procurar com a gente? A experiência dele pode talvez nos ajudar.
- Nem sonhando, esse cara é uma anta. Olha só, o mapa é bem claro e até agora bateu certinho com a trilha. Acho que não vamos ter dificuldade em continuar sozinhos. Mas vou ter que conversar mais um pouco com ele, ser um pouco mais persuasivo.

Pararam para recolher alguns gravetos na beira da estrada. Armaram uma pequena fogueira, que provavelmente não conseguiriam manter acesa por muito tempo. Montaram as barracas e ficaram conversando um pouco em volta do fogo, enquanto comiam sanduíches.

A noite surgiu, límpida e estrelada. A lua cheia iluminou o cume das montanhas, espalhando um brilho lúgubre causado pelo reflexo na neve. Era possível até mesmo enxergar o vale lá embaixo.

Henrique acumulava cansaço fazia alguns dias, então despediu-se de seus amigos e foi até sua barraca dormir. Enquanto se afastava ouviu Roberto negociar com Remy em francês.

Eles estavam cada vez mais próximos, Henrique consegui ouvir o chamado do ouro. Só faltava se livrarem do guia inconveniente.

Fechou os olhos sorrindo. Esta noite ele dormiu tão profundamente que não conseguiria ser acordado nem mesmo se o exército inteiro de Napoleão passasse pelo lado de sua barraca.

... continua em O Ouro do Imperador - Capítulo 5.