Mostrando postagens com marcador zumbis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador zumbis. Mostrar todas as postagens

sábado, 17 de janeiro de 2015

Zombie Jesus



Em 2012 tive o grande privilégio de ir à Comic Con em San Diego com dois casais de amigos meus. A Comic Con é a grande Meca internacional para Nerds de Carteirinha como eu e foi uma experiência incrível, mas este post não é para falar sobre a Comic Con e sim sobre uma situação em particular que aconteceu durante este evento.

Bom, você já deve ter ouvido falar da Comic Con (senão, o que está fazendo lendo este blog??? Saia daqui! Você não é o público alvo!!!). Um dos elementos tradicionais deste grandioso evento é o fato de que a comunidade nerd aproveita para se fantasiar de seus personagens favoritos e poder se encontrar e agir de forma irracional ao encontrar com muitos de seus ídolos da cultura pop (americana, diga-se de passagem).

Outra tradição da Comic Con são as manifestações das igrejas evangélicas americanas, que todo ano enviam representantes para segurarem cartazes na tentativa de convencer ao público nerd que ler gibis não é legal mas que ler a bíblia é. Eu não sei ao certo qual é o problema que os cristãos fundamentalistas americanos vêm na Comic Con, mas eu acho que tem a ver com o que eles rotulam como “adoração de falsos ídolos” e o mandamento “não te vestiras com a cueca por cima da calça” como os fãs do Super-Homem o fazem.

Então, se você frequentar a Comic Con é muito provável que você veja alguns lunáticos como os da foto abaixo.


São jovens crentes que ficam segurando cartazes alertando aos nerds pecadores que “Jesus concede vida eterna”, ou “Nenhuma pessoa é honrada” ou “Deus é rico em misericórdia”. Tem que ter muita fé para achar que, no meio de uma multidão que pagou caro para estar em um evento onde é bombardeada por todo tipo de mecanismo audiovisual reforçando as séries e videogames que mais gosta, alguém vai olhar para essas letras pretas sobre fundo amarelo e pensar… “O que estou fazendo de minha vida? Este sabre de luz, ou esta caneca do Jurassic Park que eu adoro são falsos ícones de satanás, tenho que entregar a minha vida a Jesus!!!”. Não sei qual é a efetividade dessas estratégias, mas deve ser um “rito de passagem” para o cristão ativista do futuro, por isso eles continuam fazendo.

Infelizmente no momento não pensei em tirar foto, mas um cartaz que me chamou a atenção tinha as seguintes palavras: “The blood of Jesus will rinse all evil” (“O sangue de Jesus irá lavar todo o mal”). Não entendo qual é o contexto original desta frase, mas assim que eu a vi eu não consegui parar de pensar em zumbis. Tem algo errado comigo? Por ter pensado que existe uma analogia óbvia entre o sangue de Jesus e um zumbi sanguinário que contamina seus seguidores com seu sangue, expurgando-os do mal?

Zumbis nunca saíram de moda, mas em 2012 esse novo frenesi de mortos vivos ainda estava meio que voltando. Eu já estava havia alguns anos envolvido em meu projeto acadêmico de apreciação da fina arte da não-morte e já havia acumulado algumas pérolas ao meu repertório cinematográfico sobre o tema (que incluía filmes sobre Zumbis Nazistas, todos os filmes de George Romero desde Night of the Living Dead até Diaries of the Dead, todos os filmes da série Return of the Living Dead, e muitos outros), e a Comic Con estava cheia de revistas em quadrinhos todas as combinações de zombie + qualquer coisa que você pensar. Zombe bunnies? Tinha lá. Zombie strippers? Tinha! Mas mesmo assim, o status da cultura de zumbis ainda não havia atingido o patamar que atingiria nos anos seguintes em que a série The Walking Dead (que na época estava na terceira temporada eu acho) cresceu tanto em popularidade que de repente filmes de zumbi deixaram de ser entretenimento da elite e passaram a ser entretenimento das massas, gerando aberrações como por exemplo o filme “Meu namorado é um Zumbi” e livros como World War Z, Orgulho e Preconceito e Zumbis, etc etc.

Ah, não me deixe continuar falando de zumbis porque desse jeito nunca vou terminar a história original… Eu desandei no ponto em que estava mencionando as placas dos ativistas evangélicos americanos, lembra? Bom, quando eu vi a placa falando sobre o Sangue de Jesus a primeira coisa que veio à minha mente foi como seria muito engraçado se houvesse um participante da Comic Con fantasiado de Jesus zumbi segurando exatamente aquela placa, a que tinha escrito “O sangue de Jesus irá lavar todo o mal”. Fui até o albergue em que eu estava hospedado pensando nisso.

Cedo na manhã seguinte vou até o refeitório do albergue para tomar café da manhã. Sendo uma das atividades mais legais quando se viaja, puxei conversa com o rapaz ao lado que também estava tomando café. Não lembro do diálogo exatamente, mas deve ter começado comigo perguntando se ele estava participando da Comic Con (dãaaa), ele mencionando que estava participando como expositor e que era desenhista de quadrinhos e eu imediatamente falando para ele: “CARA! Alguém tem que fazer um gibi sobre Jesus Zumbi, que adquire novos seguidores mordendo e arrancando pedaços da carne deles! Cara, sério!”.

Por uma dessas casualidades incríveis, não é que esse mesmo cara com quem eu estava conversando era o desenhista de um gibi chamado… ZOMBIE JESUS???

É isso aí, eu falei para ele “NO FUCKING WAY MOTHEFUCKER!” (hm… podem não ter sido essas exatas palavras) e eu pedi imediatamente para que ele desenhasse para mim o Zombie Jesus. Ele pegou uma folha de meu fiel bloquinho e fez justamente isso.



Eu estava pasmo com a coincidência. Ele me falou que o gibi dele estaria exposto no balcão XX do corredor YY e que seria legal se eu passasse por lá e blah blah, todo esse papo de quadrinista querendo vender seu peixe.

Enfim, mais tarde na Comic Con eu encontrei o guichê dele e comprei um exemplar desta obra que é o ápice da cultura humana. Uma revista chamada… Zombie Jesus! Oh yeah!



Bom, vou ser sincero. O gibi é uma porcaria. Se os muçulmanos ficaram ofendidos com o que a revista Charlie Hebdo fez com Maomé, eles deveria ter visto o que estes caras fizeram com Jesus.

A analogia de Jesus com mortos vivos é muito óbvia, e é muito fácil cair nos lugares-comuns e fazer uma história totalmente sem criatividade. Ao contrário do brilhante curta Fist of Jesus, que também explora (em uma visão cômica) como seria se os poderes de cura de Jesus na verdade transformassem seus seguidores em zumbis, o gibi Zombie Jesus tem uma sequência muito óbvia de eventos: Jesus morre, volta como zumbi, transforma seus seguidores em zumbis, é caçado pelos romanos, capturado, levado para ser morto por leões famintos no Coliseu, então transforma os leões em zumbis, mata todo mundo e continua vagando por aí conseguindo mais seguidores. A história é bem chata e os leões zumbis são particularmente apelões. Mas pelo menos há algumas pérolas interessantes que salvam um pouco a dignidade dos roteiristas desta obra.

Por exemplo, quando os legionários romanos cercam o Zombie Jesus e gritam para ele: "Heed our words and prepare for your final crucifixion" (“Jesus de Nazaré! Ouça nossas palavras e prepare-se para sua crucificação final”). Já que uma crucificação pelo visto não era suficiente…

Outra: quando Jesus é capturado e levado ao Coliseu para sua execução mas consegue transformar em zumbis os dois leões que iriam refestelar em sua carne, ele grita para o Imperador: “You cannot kill that which cannot be crucified” (“Você não pode matar o que não pode ser crucificado”). É uma frase muito profunda! E muito verdadeira! Por exemplo, pensemos em coisas que não podem ser crucificadas. Eu não consigo crucificar uma tesoura, logo não é possível matar uma tesoura! Lógica sem erros!

Zombie Jesus, além de uma máquina de matar, quero dizer, de converter, também tem seu senso de humor sarcástico. Logo antes do Imperador ser morto por seus legionários leais, Zombie Jesus compartilha sua sabedoria: "Rome was not eaten in a day. You will do well to remember that.” ("Roma não foi devorada em um dia. Você fará bem em lembrar-se disso"). Não teria que lembrar por muito tempo, já que o Imperado é morto logo em seguida.

Por último, você já pensou que talvez as palavras de Jesus na última ceia fossem literais? Pelo menos as de Zombie Jesus eram! "Who so eateth my flesh and drinketh my blood hath eternal life and I will raise him up for my flesh is meat and my blood is drink” ("Aquele que comer de minha carne e beber de meu sangue terá vida eterna e eu o erguerei pois minha carne é carne e meu sangue é bebida”).

Enfim, embora a qualidade do gibi fosse baixissima, foi muito legal conhecer o cara que desenhava Zombie Jesus na manhã seguinte ao dia em que pensei em como seria legal se houvesse um gibi sobre Jesus Zumbi.

É a magia da Comic Con… Onde todos os tipos de zumbi têm lugar…

domingo, 30 de março de 2014

Cidade Desmorta - o prelúdio

Era uma tarde ensolarada de sábado quando o sargento Paixão e o cabo Oliveira chegaram ao local do chamado. Era uma rua sem saída com alguns carros estacionados nos dois lados. Quatro pessoas estavam discutindo em frente a uma pequena igreja evangélica. Dois homens estavam vestindo camisa social e gravata, um estava vestindo uma camisa de futebol e a última pessoa, uma senhora dona de casa, estava empunhando uma vassoura e gritando histericamente para os outros três.

O cabo Oliveira conseguiu impedir a tempo que a senhora quebrasse o cabo da vassoura na cabeça do corintiano, enquanto esta gritava: “Você me respeita, pirralho!”. O sargento Paixão pensou em como odiava atender chamados de briga de vizinho, especialmente aos sábados, mas pensou também em como poderia ser pior. Naquele mesmo momento seus colegas estavam participando de um tiroteio em uma favela do outro lado da cidade, e se houve uma coisa que dezessete anos na Polícia Militar conseguiram provocar no sargento foi uma alergia a ferimentos de bala.

- A senhora se controle senão vamos ter que levá-la para a delegacia! - exclamou o sargento. Ele tinha um tom de voz forte que intimidava qualquer um. E que soava engraçado vindo de alguém com seu nome.

Suas palavras surtiram efeito e a dona de casa parou de se debater nos braços do Oliveira. Ela, no entanto, continuou ofegante.

O sargento virou-se para um dos engravatados e começou a falar.

- Recebemos um chamado alertando sobre desordem provocada por sua igreja.
- Oficial, veja bem, está tudo sob controle, os cultos da tarde são um pouco altos mas nós conversamos com os moradores locais e eles não reclamam…

A dona de casa exclamou:

- Ah, é? Não reclamam? Você está de brincadeira? É o dia inteiro entrando e saindo gente, pastor gritando desesperado, essas músicas chatas tocando alto, eu tentando assistir minha novelinha e não consigo escutar meus pensamentos!

O sargento prestou atenção e reparou que desde o interior da igreja podia ser ouvida uma comoção. Muitas pessoas falando alto, alguns gritos.

- Foi a senhora que fez o chamado? - perguntou o sargento.
- Fui eu sinsinhô.
- No chamado está registrado que a senhora ouviu o barulho de tiros.
- Ouvi sim, foi aí que eu achei que a bagunça passou do limite.

O sargento olhou com uma cara feia para os engravatados. Um deles estava suando em profusão. O outro olhava nervosamente para o corintiano, que falou.

- Essa velha é louca, a gente conhece ela, fica inventando qualquer coisa para acabar com o nosso culto. Nois é filho de Deus, tamos aí tentando louvar um pouquinho e tal, mas fica difícil com a velha reclamando.
- Você cala essa boca moleque! Não aceito esse desrespeito!

O cabo Oliveira, ao tentar segurar a dona de casa, levou um golpe do cabo de sua vassoura. O sargento perguntou para os engravatados:

- Quem é o responsável pela igreja? Precisamos obter esclarecimentos.
- Ah, o responsável é o pastor Juarez, ele está meio ocupado agora e não pode vir.
- Pois mande ele vir agora mesmo. Agora vamos esclarecer que história é essa de barulho de tiro.

Um dos engravatados correu para dentro da igreja enquanto o outro ficou cuidando da entrada. De tempos em tempos olhava nervoso para o interior. Enquanto o outro não chegava com o pastor, a velha voltou a falar:

- Já é uma desgraça ter que ouvir os cultos dia a dia, mas quando eles fazem essas sessões de descarrego é o pior! A igreja inteira fica gritando, e é tudo uma farsa! A menina que estava “possuída” é daqui do bairro, conheço ela, e ela é bem comportada. O pastor fica inventando esses descarrego para impressionar os trouxas que vem de fora.

O sargento Paixão começou a ficar alarmado:

- O que o pastor fez com a menina?

O engravatado já ia começar a explicar sobre o poder divino de Jesus e outras ladainhas quando a senhora interrompeu com muita grosseria:

- Ah, o senhor tem que ouvir as barbaridades que o pastor fala! A menina é um doce, mas ele fica gritando coisas do tipo: abandona este corpo, Satanás! Este corpo não te pertence! E ficou dando tapas no rosto da menina. Eu estava indignada, mas os pais da menina estavam lá dentro, na primeira fila, então deixei passar. Mas quando ouvi o barulho de tiro eu não aguentei e chamei a polícia.

Nisto o engravatado que havia saído apareceu com o pastor. O pastor vestia um terno e gravata e estava muito nervoso. Talvez fosse porque sua roupa estava coberta de sangue.

O sargento olhou para isso e exclamou:

- O que está acontecendo neste lugar? Por que sua roupa está manchada de sangue?

O pastor tentou explicar.

- Ah, bem, não é nada de mais, oficial… Coisas da igreja…
- Coisas da igreja é o cacete, vamos já para a delegacia!
- Não! Espere, você não entende!

O pastor olhou nervosamente para o interior da igreja. Lá de dentro algumas poucas pessoas olhavam de volta para ele.

- Oficial, eh, é comum fazermos as sessões de descarrego, sabe? O capeta aproveita qualquer chance para ocupar o corpo de pessoas fracas e é nossa obrigação usar o poder de Cristo para remove-lo, principalmente se for alguém de nossa igreja e se sua família estiver em dia com o dízimo.
- Não me interessam os seus rituais. Eu quero é saber por que houve barulho de tiro e por que sua roupa está cheia de sangue.
- Bom, é que às vezes o poder de Cristo não é forte o suficiente.

O sargento olhou com indignação para o pastor.

- Essa menina que vocês estavam exorcizando. Eu quero vê-la agora!

O pastor olhou nervosamente para os dois engravatados. Olhou para o cabo Oliveira, para a senhora aposentada, e finalmente para o sargento.

- Tudo bem, vamos lá.

O sargento falou para o cabo Oliveira.

- Você fica aqui esperando e não deixa ninguém ir embora.

O cabo observou enquanto o sargento entrava na igreja e as pessoas abriam caminho para ele. O pastor abriu uma porta no fundo e o sargento entrou com ele. A porta de fechou atrás deles.

O corintiano tentou puxar um papo sobre futebol para aliviar um pouco a tensão, quando de repente se ouviram dois tiros. A porta dos fundos se abriu violentamente e o sargento e o pastor saíram correndo. O sargento segurava com força sua mão esquerda contra seu pescoço, de onde jorrava sangue. Na sua mão direita estava a sua arma, soltando fumaça pelo cano. As pessoas em volta, ao virem isto, começaram a gritar desesperadas e a sair da igreja. Os engravatados tentavam acalmar as pessoas, enquanto o corintiano aproveitou a deixa para vazar.

- Paixão, o que aconteceu? - perguntou Oliveira - O que havia lá dentro? Em quem você atirou?

O sargento sentou-se na calçada, com a cabeça virada para o chão.

- Estou bem. Por favor chame reforços.

O pastor olhava nervosamente para o sargento. A velha gritava raivosa, dizendo que tinha razão, que era uma igreja de degenerados.

Oliveira foi até a viatura e chamou por reforços. Em seguida perguntou para o pastor:

- Em quem vocês atiraram?
- Ahn, eh, não importa, está tudo bem, ela está em um lugar melhor agora, nos braços de Cristo.
- Eles atiraram na menina, ai meu Deus do céu - gritou a velha.

O cabo Oliveira não conseguia acreditar nesse papo. Segurou o pastor pelo colarinho e perguntou:

- Vocês atiraram na menina?
- Ah, não tinha outra alternativa, cabo! Ela estava possuída!

Oliveira olhou para o sargento, que já estava delirante. Olhou de novo para o pastor e disse:

- Quero ver o corpo. Você está ferrado seu filho da puta! Não sei o que você fez com o sargento, nem com essa menina, mas vou te meter numa cela e jogar a chave fora seu desgraçado! Quero ver o corpo da menina!

O pastor acenou para os dois engravatados os acompanharem. Os quatro entraram na igreja, agora quase vazia. As cadeiras de plástico estavam bagunçadas e o corintiano esbarrou neles enquanto corria para fora da igreja carregando uma caixa de som enorme nas costas. Um dos engravatados tentou segurá-lo, sem sucesso, mas o pastor nem prestou atenção.

Chegaram à porta. O pastor abriu e entrou primeiro. O cabo entrou atrás. Os engravatados ficaram esperando do lado de fora. A porta levava para uma pequena sala sem móveis em cujo centro havia um tapete, que estava coberto de sangue. O pastor olhou horrorizado para o tapete.

- Onde está o corpo? - gritou o cabo.
- Ela estava aqui! - respondeu desesperado o pastor.
- Então ela não morreu?
- Não é possível, ela levou três tiros, ai Jesus amado este pesadelo não termina!

O cabo estava intrigado. Que raios estava acontecendo? Ambos olharam para a parede dos fundos quando escutaram o rangido de uma porta, que estava entreaberta e que abriu-se de repente com um estrondo quando uma rajada de vento entrou. O cabo só percebeu agora que havia um rastro de sangue que ia até a porta. Ele correu e saiu por ela, indo parar em um beco que dava para uma avenida. Olhou para os lados e não viu ninguém. Correu até a avenida e, chegando lá, tampouco viu viva alma. Voltou para a igreja e exclamou para o pastor:

- Você está preso! Ocultação de cadáver é agravante para homicídio doloso. Você está em uma enrascada!
- Você não entende, ela está solta! Nós fizemos o que tinha que ser feito, mas não foi o suficiente, agora ela está solta em São Paulo!

O cabo Oliveira fez uma chave de braço no pastor e começou a algema-lo. Assim que terminou, os dois ouviram gritos vindos do salão da igreja, onde estavam os engravatados. Oliveira abriu a porta e viu o sargento Paixão. Ironicamente, ele segurava o coração ainda palpitante de um dos engravatados, cujo corpo estava estendido no chão, em meio a uma poça de sangue. O outro engravatado havia desaparecido. A boca do sargento estava cheia de sangue, e o olhar que ele dirigia para o cabo estava tão cheio de fúria quanto vazio de vida.

Oliveira ouviu o barulho do pastor, aos tropeços, fugindo pela porta dos fundos. Quando o sargento saltou em seu pescoço, Oliveira só teve tempo de pensar:

- Ih, fudeu.

continua

domingo, 1 de setembro de 2013

Nada como começar uma viagem épica matando uns malditos zumbis


Ontem, em um shopping abandonado na cidade de Reading, a pouco menos de meia hora de trem de Londres, participei de uma das experiências interativas mais alucinantes de que já tive chance de participar.

Tratava-se de um jogo chamado The Zombie Mall Experience, da Zed Productions. O shopping foi preparado como um cenário pós apocalipse zumbi, com atores representando zumbis e policiais. Um grupo de vinte sobreviventes recebia algumas instruções sobre as armas a serem usadas (escopetas de ar comprimido que disparavam bolinhas de plástico brancas) e sobre as missões a serem realizadas e depois éramos guiados pelo shopping pelos policiais, onde deveríamos cumprir as missões desviando ou "matando" zumbis. A sensação de imersão era incrível. Enquanto passávamos pelos corredores escuros, era impossível não sentir aquele frio na espinha toda vez que passávamos por alguma sala vazia. E o local era um shopping center, então tinha todo tipo de locações - um parquinho de criança (com piscina de bolinha!), escadas rolantes, lojas, etc. Muito parecido com o Left4Dead!


Havia vários tipos de zumbis. Havia o zumbi médico, a zumbi velha, a policial, o palhaço (!!!) e o agente especial. Este último era um zumbi com colete à prova de balas e máscara de gás, que resistia a nossos disparos de tudo quanto é jeito. Consideramos ele invencível, por isso só fugíamos dele. Só no final soubemos que ele deveria ser derrubado com tiros nas pernas. Até foi adicionado o detalhe interessante de que havia entre os sobreviventes um ator infiltrado que foi uma das primeiras vítimas dos zumbis. Ele havia sido puxado em meio a gritos através de uma porta em um corredor escuro e depois tivemos a oportunidade de encontra-lo transformado.

O jogo teve duas etapas. A primeira era o "story mode", em que dois policiais nos guiavam por várias situações no shopping em que deveríamos completar algumas missões. As missões incluíam encontrar suprimentos médicos, depois resgatar uma maleta com informação secreta militar e levá-la até o teto do shopping, na expectativa de sermos resgatados por um helicóptero militar, só para descobrir então que o helicóptero não apareceria porque não éramos tão importantes para sermos resgatados. Em um momento desta fase fomos a uma sala de controle, onde através dos monitores pudemos observar como uma equipe de soldados entrava no shopping e era sobrepujada pela horda de zumbis. Houve até um "survivor mode", em que durante cinco minutos tínhamos que sobreviver a um ataque contínuo de zumbis encurralados em um corredor sem saída. Não eram tantos zumbis assim para constituir uma horda, mas estes zumbis voltavam à vida por isso sempre havia zumbis fresquinhos para matar.

A segunda etapa era o "free-mode", no qual nós entramos no shopping sem os policiais e poderiamos andar à vontade. Neste modo o nosso objetivo era encontrar caixas com munição enquanto desviavamos dos zumbis.

Antes de começarmos o jogo recebemos algumas instruções de como deveriamos agir em equipe, e as dicas que recebemos foram realmente interessantes. É o tipo de coisa que você vê acontecendo nos filmes mas cuja importância você só entende quando vive na pele. Por exemplo, quando o grupo anda enfileirado quem está à frente não tem idéia do que acontece no final da fila, e quem está no final não tem idéia do que está na frente. O grupo tem que criar o hábito de avisar sobre todos os os obstáculos ou direções que o grupo deve tomar, para não pegar ninguém desprevenido. Então, quando o primeiro da fila decide descer uma escadaria ao fim do corredor escuro, ele murmura "Stairs down" para quem está imediatamente atrás, que irá repetir para quem está atrás, até chegar ao último da fila. Se quem está atrás está ciente de algum perigo (como por exemplo um zumbi invencível com colete à prova de balas que caminha inexorávelmente em direção ao grupo) e grita "RUUUUUUN", então todo mundo tem que correr mesmo! E, ao atravessar um corredor cheio de salas escuras em ambos os lados, é reconfortante ao passar por estas salas saber que quem está à frente já checou que estavam vazias e que o grupo pode passar sem se preocupar.

É claro que o ato de matar os zumbis também era muito legal. Fomos instruídos a não tentar fazer headshots, pois isto deixaria os zumbis mais zangados (e garantiria expulsão do jogo para nós). Mas bastava dar um tiro na barriga dos zumbis que estes temporariamente cairiam no chão e ficariam lá imóveis. Pelo fato de se movimentarem muito lentamente, era possível passar correndo pelo meio deles, escolher um bom local e atirar. Aqui também havia uma dica para não gastar munição desnecessariamente tendo vários membros da equipe atirando simultaneamente. Sempre que alguém avistasse um zumbi, deveria gritar "Contact!" para alertar ao grupo, e quando alguém decidisse atirar deveria gritar "Engaging!" para que todos soubessem.

O grupo que participou era muito divertido. Acho que não tão surpreendentemente todo mundo que estava lá era da faixa etária dos 25 aos 35 anos. Havia vários casais e grupos grandes de amigos, inclusive um quarteto que decidiu matar zumbis com fantasias de ninja, sendo que um deles era uma tartaruga ninja. Havia uns dois ou três que levavam bem a sério a imersão, e agiam com seriedade como o se fossem soldados treinados, fazendo aqueles gestos que você vê nos filmes, tipo apontando com dois dedos para os olhos e depois em alguma direção. Como eu não fazia a menor idéia do que eles queriam dizer, eu acenava com a cabeça e depois fazia o que tinha vontade de fazer mesmo.

A experiência foi excelente e não consigo recomendar suficientemente para quem vier passar uma temporada na Inglaterra. Só é necessário observar o fato de que é necessário entender bem inglês (e com esse sotaque desgraçado que os ingleses têm isso é bem difícil), pois o coração de toda a experiência está em entender e ficar envolvido na história. Mais informações sobre o evento podem ser encontradas no site da Zed Events.