quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O Ouro do Imperador - Capítulo 5

Este é o texto 6 de 10 da Primeira Maratona de Posts do Patinete a vela.
Se você ainda não o fez, leia O Ouro do Imperador - Capítulo 4.


O Ouro do Imperador

Capítulo 5

Onde a busca começa a ficar mais difícil.

Aquela foi a primeira noite bem dormida de Henrique. Ele se surpreendeu ao ver em seu relógio que já eram oito da manhã e, quando saiu da barraca, encontrou Roberto com sua barraca desmontada e guardada e sua mochila já arrumada para partir. Além disso, Henrique percebeu que seu amigo tossia incessantemente.

- Por que você não me acordou antes, Roberto?
- Achei que era melhor deixar você dormir um pouco mais, afinal não precisamos ter tanta pressa assim.
- E essa tosse feia?
- Passei muito frio à noite, você não? Acho que peguei uma maldita gripe.

Henrique deu um bocejo alto e sentiu que algo não estava certo. Olhou ao redor e então perguntou alarmado:

- Onde está o Remy?
- Ele voltou para Martigny. Ontem fiquei conversando com ele e consegui convence-lo a nos emprestar o equipamento e deixar que continuássemos a excursão sozinhos.
- Como foi que você o convenceu? Ele parecia irredutível.
- Tive que oferecer algum dinheiro para ele. Mas não tem problema agora. Ele deixou o telefone via satélite para ligarmos para ele quando quisermos voltar, aí ele vem nos buscar.
- Ótimo, que bom é ver que está tudo sob controle!

Henrique nem parou para pensar de onde teria Roberto tirado dinheiro, já que o folgado estivera viajando às custas dele desde o primeiro dia de viagem. Mas mesmo que tivesse achado isso estranho, agora a preocupação era começar a jornada e encontrar logo o tão sonhado tesouro.

Tomaram um café da manhã rápido e começaram a caminhada. Roberto apontou para seu mapa e disse:

- De acordo com meu mapa estamos prestes a encontrar uma bifurcação na estrada, onde vamos sair da estrada principal. Essa estrada secundária que vamos pegar serpenteia encosta abaixo. Provavelmente mais um dia de caminhada e vamos conseguir encontrar o ponto marcado no mapa onde deve estar nosso tesouro.

Os dois caminharam por aproximadamente uma hora até chegarem à bifurcação. Não era exatamente o que Henrique estava esperando. A bifurcação levava a uma trilha estreita e íngreme no meio das rochas. A decida seria mais uma escalada do que uma caminhada.

- Você não acha estranho que a carroça com o ouro real tenha pego esta estrada secundária? Acho que mesmo nós vamos sentir dificuldades em descer. - disse Henrique.
- O mapa está certo, vamos lá. - talvez fosse por causa da gripe, mas Roberto estava começando a soar um pouco impaciente.

A decida foi bem trabalhosa. Era necessário usar as duas mão para se segurarem nas rochas enquanto deslizavam trilha abaixo. Continuaram assim por cerca de uma hora até chegarem a uma outra trilha, mais larga, que continuava ladeando a montanha.

A trilha estava coberta de vegetação e parecia que não era muito usada, nem por seres humanos nem por qualquer animal que habitasse as montanhas. Henrique e Roberto usavam seus detectores de metal continuamente, especialmente sobre arbustos ou regiões de vegetação mais espessa.

Pararam para descansar um pouco. Apesar de estarem no verão, a temperatura naquela região ainda era muito baixa, próxima de zero graus. Henrique achava que o frio fazia com que ele se cansasse menos durante a caminhada, mas não estava fazendo muito bem a Roberto que continuava tossindo como se fosse um fumante crônico.
Passaram mais algumas horas seguindo pela estrada, que ora ficava mais estreita, ora mais larga. Em alguns trechos era possível, olhando para cima, ver a estrada principal, mas muitas vezes a estrada secundária serpenteava pelo meio das rochas de forma que era impossível de ver a outra estrada.

- Esta estrada em que estamos seguindo é quase invisível desde a estrada principal - disse Roberto. - Essa é a nossa sorte, pois pouquissimas pessoas devem conhece-la, o que reduz a chance de que alguém tenha chegado ao tesouro antes.

O resto do dia foi apenas de caminhada. Quando escureceu, armaram as barracas e prepararam uma pequena fogueira.

- Estamos quase chegando. Provavelmente amanhã vamos conseguir chegar no ponto marcado no mapa.
- Roberto essa sua tosse está muito feia.
- Eu sei, esta maldita gripe está acabando comigo. E tinha que me acontecer logo aqui, quando precisamos estar com o máximo de nossa disposição. Que droga.
- É melhor você descansar um pouco. Amanhã podemos começar cedo e vamos logo encontrar nosso tesouro.

Roberto despediu-se de Henrique e foi dormir. Henrique estava com pouco sono, por isso ficou mais alguns minutos olhando para a fogueira envolvido em seus pensamentos. Em volta, o silêncio era total, exceto pela tosse de Roberto. Henrique já previa que seu amigo não conseguiria dormir direito por causa da gripe.

Quando a fogueira se apagou, foi até sua barraca, se enrolou em seu saco de dormir e adormeceu.

... continua em O Ouro do Imperador - Capítulo 6.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Ouro do Imperador - Capítulo 4

Este é o texto 5 de 10 da Primeira Maratona de Posts do Patinete a vela.
Se você ainda não o fez, leia O Ouro do Imperador - Capítulo 3


O Ouro do Imperador

Capítulo 4

Onde nossos amigos mais um guia sem noção começam a sua jornada épica

Henrique acordou sobressaltado. Olhou no relógio que eram cinco e meia da manhã. O quarto anda estava escuro mas tênues feixes de luz começavam a se fazer sentir através das persianas. 

Revisou sua mala, vestiu-se e desceu ao refeitório, onde Roberto e Remy já estavam conversando animadamente enquanto tomavam café da manhã. Não havia outros hóspedes no hotel, mas a senhora simpática da recepção estava tomando um café em uma mesa com um homem que devia ser seu marido. O homem sorriu para Henrique e acenou, ao que nosso protagonista retribuiu.

Quando chegou à mesa, Roberto e Remy o saudaram com alegria.

- Bom dia Henrique! Hoje é o dia!
- É mesmo, eu estou tão ansioso que consegui dormir só duas horas nesta noite.

Remy, com seu horroroso piercing de porcelana balançando sob seu nariz, puxou uma cadeira para Henrique. Quando este se sentou percebeu que havia um mapa aberto sobre a mesa e alguns panfletos publicitários do "Tour da Travessia”.

- Eu estava explicando para o Robért qual vai ser nosso roteiro - disse Remy em inglês, com um sotaque horroroso. Não adianta, homens franceses falando em inglês são pavorosos. Só o sotaque feminino se salva, como vocês bem devem se recordar da atendente da Swiss.
- Nós vamos subir de jipe até o Hospice de St Bernard, que fica no ponto mais alto da estrada. Lá nós vamos parar para uma rápida visita, então vamos deixar o jipe estacionado e vamos pegar a estrada histórica, aquela que foi usada por Napoleão e o exército da reserva quando decidiram tomar os austríacos de surpresa.

Remy fez o traçado da estrada no mapa com seu dedo.

- A estrada não é muito longa, mas o terreno é muito acidentado e por isso nós vamos avançar devagar. Vamos parar em alguns pontos para usar os detectores de metal para encontrar relíquias da época da travessia. Nunca encontrei ouro, mas às vezes dá para encontrar bugigangas que pertenceram aos soldados. Vamos precisar parar para dormir na estrada dois dias, até chegarmos na base das montanhas no lado italiano, onde vamos parar para descansar e fazer um lanche enquanto esperamos que meu sócio vá nos buscar para o caminho de volta.
- Excellent! - exclamou Roberto em inglês, mas falou baixinho em português para Henrique - Deixa comigo que vamos nos livrar desse trouxa o quanto antes.

Remy começou a depositar alguns equipamentos em cima da mesa.

- Vou apresentar para vocês os equipamentos que vou levar. Nesta época do ano a passagem é muito segura, não há que ter  medo, mas para qualquer eventual emergência temos um telefone celular via satélite, um GPS, três detectores de metal portáteis, binóculos, cordas e mosquetões para montanhismo. Também trouxe três barracas individuais, alguns isqueiros e uma garrafa de querosene para ajudara a acender as fogueiras. Trouxe três kits de primeiros socorros e um pouco de comida e água, que deve ser suficiente para os dois dias que vamos passar na montanha. Por último tem esta pá dobrável que pode ser convertida em uma picareta.

Henrique estava muito empolgado. Ele nunca tinha feito uma excursão de montanhismo e estava quase esquecendo do verdadeiro propósito da presença dele e de seu amigo naquele lugar.
- Certo, então vamos lá!

Os três terminaram de tomar café e caminharam em direção ao jipe detonado de Remy. Por que eles tinham que ir de jipe até Hospice de St Bernard era um mistério, pois a estrada era tão boa que seria possível subir de patinete, se a isso alguém se propusesse. Mas Remy gostava de adicionar um pouco de teatralidade ao seu tour.

- Senhores passageiros, apertem os cintos e preparem-se para a decolagem!

O jipe vacilou durante alguns minutos até dar partida, mas finalmente pegou e em poucos minutos já haviam deixado Martigny para trás. O trajeto não seria longo, provavelmente menos que uma hora. Durante o caminho Remy aproveitou para contar um pouco sobre as guerras napoleônicas, sobre como o elemento surpresa da travessia assegurou uma posterior vitória completa em Marengo, enfim, todos os fatos que ele deve ter repetido dezenas de vezes para todo tipo de turista, isto é, assumindo que de fato turistas se interessassem por aquele tipo de passeio.

Chegaram ao Hospice St Bernard, um conjunto de construções que havia muitos séculos servia como um lugar de apoio e resgate a viajantes que atravessavam as montanhas. É deste lugar a tradição de usar cães São Bernardo para resgatar pessoas perdidas nas montanhas, como agora deve ter ficado óbvio pelo nome. Agora o Hospice funciona como hotel, de um padrão um pouco maior do que os amigos poderiam arcar, pelo menos enquanto não encontrassem as moedinhas do Imperador.

Fizeram um tour rápido pelas instalações, mas Roberto e Henrique estavam ansiosos demais para começar a jornada, o que foi percebido por Remy. Este não ficou exatamente satisfeito porque ele tinha um acordo com o dono da loja de souvenires, por isso ele sempre fazia questão de levar todos seus passageiros por um passeio bem longo pela loja, mas já viu que desses dois brazucas ele não conseguiria arrancar mais dinheiro.

- Certo, senhores, vocês podem ver uma trilha de terra batida, agora bastante coberta de vegetação, já que é tão pouco usada. Imaginem milhares de soldados passando por essa estrada, em condições climáticas bem piores do que estamos vivendo agora. Vocês já devem ter visto o quadro de Napoleão em seu majestoso cavalo branco, representando sua heróica travessia dos Alpes. Na verdade os cavalos tinham muita dificuldade em passar por essas trilhas, por isso Napoleão teve que subir montado em um burrinho. Por mais simpático que o burrinho fosse, dá para entender por que Napoleão quis ser retratado em seu corcel, não é mesmo?

Os amigos começaram a caminhar pela estrada de terra. Estava muito frio, e ambos os lados da estrada apresentavam camadas de neve. A terra estava congelada em muitos pontos, o que a tornava muito escorregadia. Mas Roberto já havia se prevenido e havia trazido dois pares de botas com travas para evitar acidentes indesejados.

O começo do trajeto foi muito agradável. Remy havia fornecido um mapa histórico da estrada, onde Henrique e Roberto puderam acompanhar seu progresso. A vista era maravilhosa, especialmente das montanhas nevadas ao fundo. Mas não era isso o que interessava aos nossos protagonistas! Eles olhavam com atenção a cada bifurcação e formação rochosa da estrada, tentando lembrar-se e encaixar o que viam com o mapa de Roberto.

De tempos em tempos eles paravam de caminhar para beber um pouco de água e descansar. Remy havia ensinado Henrique a usar o detector de metais e havia sugerido que este os usasse nos pontos de vegetação mais alta ou em fendas entre as rochas. Henrique achou agradável usar o aparelho, com seu bipe suave que aumentava sua cadência quando chegava perto de algum metal.

- Peraí, pessoal, achei, achei alguma coisa! - exclamou Henrique.
- Hahaha, seu engraçadão, você acabou de encontrar minhas chaves, agora tira esse detector de metais de cima de meu bolso.

Henrique se afastou de Roberto dando risada e continuando a brincar com o detector de metais.

Continuaram a jornada. Sem que Remy visse, Roberto comparava o caminho que faziam com o de seu mapa. Ainda estavam em um ponto no qual as duas rotas coincidiam, mas parecia faltar pouco para chegarem ao ponto em que deveriam mudar o caminho.

- Vocês conseguem acreditar que Napoleão tinha apenas trinta anos quando liderou os exércitos através dos Alpes? - contou Remy. - E ele já era Primeiro Cônsul francês, o cargo de comando mais alto que era possível exercer, isso até que alguns anos depois ele se declarou Imperador.
- É admirável mesmo - declarou Henrique.
- E nós, o que estamos fazendo com trinta anos de idade? - continuou Remy, começando a soar um pouco desanimado. - Estamos aqui, presos em uma cidadezinha miserável, onde nunca aparecem turistas, tentando convencer qualquer pessoa que nos dê um pingo de atenção a que nos dê uma chance de mostrar que nosso tour é legal, só para depois ficarmos ouvindo reclamações de que o jipe é desconfortável, que a estrada é escorregadia, que a neve é fria e molhada - Remy começou a soluçar enquanto falava estas coisas. Certamente ele era um pouco complexado e não ajudava muito ficar relembrando a história de Napoleão repetidas vezes.
- Ehm, Remy, que tal se você nos falar um pouco sobre o tesouro perdido de Napoleão?

Remy se recompôs e começou a narrar como, durante o transporte do tesouro do exército através das montanhas, a roda de uma carroça de quebrou e provocou sua queda por um desfiladeiro de cinquenta metros. Levou um dia inteiro para conseguir recuperar o tesouro, mas com a necessidade de realizar a contabilidade às pressas, não se sabe ao certo se todo o ouro foi de fato recuperado.

- Tampouco sabemos ao certo onde foi exatamente que isto aconteceu - disse Remy. - Apesar de que já houveram incontáveis expedições para encontrar qualquer coisa, vocês podem ver que a área de montanha serpenteada pela estrada é enorme, então é bem plausível que algo possa ter se perdido e que ninguém nunca vá conseguir achar.

“Pelo menos ninguém que não tenha nosso mapa”, pensou Henrique.

A estrada parecia dirigir-se diretamente para um precipicio. Quando chegaram na beirada, constataram que a estrada fazia uma curva fechada e prosseguia por algumas centenas de metros ladeada por um lado pelo cume da montanha e pelo outro por um abismo de mais de cem metros de altura.

- Recomendo que descansemos um pouco antes de continuar. - Disse Remy.

Henrique e Roberto deram boas vindas à sugestão. Descarregaram suas mochilas, sentaram-se em uma roha e aproveitaram para beber água. Roberto viu com o canto do olho como Remy se afastou um pouco até chegar em um ponto em que supunha estar fora do alcance de visão deles. Roberto viu Remy colocando a mão no bolso e jogando algo no meio de umas pedras.

- Sempre que eu paro para descansar gosto de usar meu detector de metais - exclamou Remy em uma voz pouquíiiiiissimo suspeita, enquanto varria a área em sua volta com o aparelho. - Nunca se sabe quando se pode encontrar alguma coisa.

Enquanto dizia isso, Remy passou o detector de metais bem por cima do lugar onde Roberto o havia visto deixando cair o objeto misterioso que estava em seu bolso. O detector de metais começou a fazer um barulho característico.

- Amigos! Acho que encontrei algo! No meio destas pedras, me ajudem!

Roberto e Henrique correram em direção a Remy.

- Me ajudem a levantar esta pedra enquanto eu vejo o que tem embaixo!

Os dois amigos levantaram a pedra, enquanto Remy enfiou seu braço e voltou segurando algo.
- Vejam que sorte! Encontrei uma moeda antiga!

Mostrou a moeda rapidamente para Henrique e Roberto.

- Com certeza é um franco de cobre da era pós Revolução Francesa, de incrível valor histórico. - declarou o conhecedor Remy. - Vejam, é datada de 1797.

Henrique olhou com interesse para a moeda. Roberto estava pasmo.

- Apesar de que eu tenho paixão por colecionar objetos antigos, entendo que vocês queiram levar como lembrança, um autêntico tesouro napoleônico. Por isso eu posso vender para vocês por um preço irrisório.
- Sério mesmo? - disse Henrique empolgado - Quanto você quer por essa moeda?
- Acho que trezentos dólares é um valor bom, especialmente porque uma moeda destas facilmente pode valer mais que mil dólares para um colecionador.
- Me deixa ver essa maldita moeda - disse Roberto. - Mil setecentos e noventa e sete? Você acha que somos trouxas? Isto é um franco de cobre de Mil novecentos e noventa e sete, aqui o nove foi raspado com uma chave de fenda para parecer um sete.
- Nossa, que estranho. Como será que essa moeda veio parar aqui no meio das pedras?

Remy não se deixou abalar por ter sido pego no pulo. Agiu com a maior naturalidade e pediu sua moeda de volta para Roberto com a maior delicadeza, sem querer provocar a ira do brasileiro, e deu um sorriso amarelo cheio de dentes com uma falange de porcelana por cima.

- Se não interessa a vocês a lembrança, pelo menos para mim interessa!

Continuaram caminhando por mais algumas horas, parando ocasionalmente para tirar fotos e brincar com os detectores de metal. Quando já estava quase escurecendo, Roberto alcançou Henrique e conversou baixinho.

- Falei com o Remy, e ele não está muito a fim de nos deixar sozinhos com o equipamento dele. Ele diz que é um equipamento caro e não quer se arriscar a que quebremos ou alguma coisa.
- Você tem que convencê-lo a nos deixar sozinhos! Ou será que não poderíamos convida-lo a procurar com a gente? A experiência dele pode talvez nos ajudar.
- Nem sonhando, esse cara é uma anta. Olha só, o mapa é bem claro e até agora bateu certinho com a trilha. Acho que não vamos ter dificuldade em continuar sozinhos. Mas vou ter que conversar mais um pouco com ele, ser um pouco mais persuasivo.

Pararam para recolher alguns gravetos na beira da estrada. Armaram uma pequena fogueira, que provavelmente não conseguiriam manter acesa por muito tempo. Montaram as barracas e ficaram conversando um pouco em volta do fogo, enquanto comiam sanduíches.

A noite surgiu, límpida e estrelada. A lua cheia iluminou o cume das montanhas, espalhando um brilho lúgubre causado pelo reflexo na neve. Era possível até mesmo enxergar o vale lá embaixo.

Henrique acumulava cansaço fazia alguns dias, então despediu-se de seus amigos e foi até sua barraca dormir. Enquanto se afastava ouviu Roberto negociar com Remy em francês.

Eles estavam cada vez mais próximos, Henrique consegui ouvir o chamado do ouro. Só faltava se livrarem do guia inconveniente.

Fechou os olhos sorrindo. Esta noite ele dormiu tão profundamente que não conseguiria ser acordado nem mesmo se o exército inteiro de Napoleão passasse pelo lado de sua barraca.

... continua em O Ouro do Imperador - Capítulo 5.

O Ouro do Imperador - Capítulo 3

Este é o texto 4 de 10 da Primeira Maratona de Posts do Patinete a vela.
Se você ainda não o fez, leia O Ouro do Imperador - Capítulo 2

O Ouro do Imperador

Capítulo 3

Em que nossos heróis encontram alguém que irá ajuda-los em sua empreitada.

O voo da Swiss Airlines pousou em Genebra em uma manhã ensolarada e fresca. O voo de quinze horas não foi completamente desagradável, apesar de que Roberto serviu de travesseiro para um homem de grande envergadura. Dado tempo suficiente, talvez a seleção natural acabe gerando uma raça de super-seres que serão capazes de dormir sentados, enquanto são pressionados para baixo por outros seres humanos que não o conseguem, e nem consigo imaginar que características físicas tais super-seres terão. Mas no presente estágio evolutivo de Henrique e Roberto estes apenas conseguiram acordar sobressaltados repetidas vezes a cada solavanco do avião ou a cada  abraço involuntário do gigante adormecido ao lado.

Mas a excitação dos dois era tal que nem isso era um problema. Já que não conseguiam dormir, passaram a maior parte do voo conversando, discutindo os planos, imaginando o que fariam com o dinheiro, insultando um ao outro por falar em voz alta sobre os planos (que deveriam ser secretos), enfim. O voo passou em um piscar de olhos e quando se deram conta o avião já estava tocando a pista de aterrissagem do Genève Aéroport, com perdão de meu francês.

O desembarque foi tranquilo, mas um prenúncio não muito positivo foi percebido por Roberto quando, depois de quase uma hora esperando, a mala que ele cuidadosamente preparara com todo tipo de equipamento útil à empreitada não apareceu na esteira de bagagem do aeroporto. De lá, foram direto ao balcão da companhia aérea onde Henrique assistiu de camarote a um grandioso e eloquente embate entre seu amigo e a funcionária que, com muita dificuldade, ainda tentava manter a compostura. A discussão era em francês, que Henrique não entendia, mas pelos gestos que a funcionária fazia enquanto falava ele suspeitava corretamente que o problema deles não seria resolvido.

Roberto virou-se bruscamente e saiu andando rápido, chamando Henrique para ir embora junto, enquanto a funcionária olhava pasma. Henrique conversou com ela em inglês, com um horrível sotaque portugófono, perguntando o que acontecera, e ela respondera, também em inglês mas com um adorável sotaque francófono, que seu amigo era um porco mal educado, que nenhuma mala fora despachada do Brasil e que a Swiss nunca perdera uma bagagem em voo internacional. Nisso Roberto, que ficara esperando que Henrique o acompanhasse, voltou correndo e o puxou pelo braço.

- Para de falar com essa bruxa e vamos embora, não acredite em nada do que ela fala.

Ao que se seguiu uma breve troca de insultos do Roberto com a funcionária, mas neste momento foi Henrique que puxou seu amigo.

- E agora, o que vamos fazer sem seu equipamento?
- Não se preocupe, isso não é nada. Quando voltarmos ao Brasil resolvemos o problema. Além disso eu tenho um plano B, deixa comigo.
- Ótimo!
- Agora temos que achar um ônibus para Martigny. Se chegarmos ainda de dia podemos aproveitar para visitar a cidade e fazer mais alguns preparativos.

Martigny é uma cidadezinha de dezessete mil habitantes onde começa a estrada que atravessa os Alpes e que termina na cidade italiana de Aosta. A famosa estrada atravessada por Napoleão e seus cinquenta mil soldados da reserva, mais de duzentos anos antes. Obviamente a estrada não era asfaltada naquela época, nem tinha lanchonetes e postos de gasolina distribuídas ao longo das partes mais baixas. A travessia teria sido muito mais fácil se houvesse estas facilidades, mas os exércitos da Grand Armé tiveram que se contentar com o apoio dos monges do Hospice de St. Bernard ao atingir o ponto mais alto da travessia, que os recebiam com queijo e conhaque.

Mas chega de divagues! Henrique e Roberto chegaram a Martigny já faz quase meia hora e nós estamos aqui, perdendo tempo com detalhes inúteis. Veja como eles caminham alegres pelas ruas limpas e desertas desta pequena cidadezinha de montanha.

- Aaah como é puro o ar dos das montanhas! Alguém deveria engarrafar e vender lá em São Paulo… - exclamou Roberto, sentindo-se vivo de verdade.
- Até que está bem fresco aqui né?
- Quando estivermos na montanha vai ser gelado, pode apostar. Olha, este deve ser o albergue, Hotel des Folles. Vamos fazer o checkin e sair para dar umas voltas.

Entraram no albergue, uma pequena casa rústica de madeira vermelha e telhado verde. Roberto estava tão exultante e alegre que conversou com a recepcionista com a familiaridade que normalmente se reserva a parentes. Henrique aproveitou para dar uma olhada nos quadros decorativos nas paredes do albergue e parou sua vista em um pequeno busto de Napoleão que estava depositado sobre a lareira. “Que estranho estarmos realmente aqui”, pensou, “passando por um lugar onde o próprio Napoleão passou”.

Seus pensamentos foram interrompidos por um chamado de Roberto.

- Ahn, Henrique, você poderia acertar o albergue? Estou sem meu cartão… Mas depois acerto tudo com você, viu? Prometo!
- Eh, tá bom, já estou acostumando.

Depois de deixarem suas malas no albergue saíram para caminhar. A cidade era uma típica cidadezinha suíça de embalagem de chocolate. Só faltavam as vaquinhas violetas e as ordenhadeiras loiras cantando “ioroleeeeiii”.

- Quero dar um pulo neste lugar, o “Museu da Travessia” - disse Roberto apontando para um pequeno mapa que pegou no albergue. - É um nome muito sugestivo.

Enquanto riam e conversavam, uma senhora idosa aproximou-se dos dois. Ela estava em um estado lastimável, com roupas velhas e cheias de remendos, arrastando uma bengala lascada. Quando se aproximou o suficiente, largou a bengala, segurou pelo colarinho a Roberto e começou a gritar alguns impropérios em francês, que prefiro não traduzir em respeito aos ouvidos delicados de meu caro leitor. Nunca diga que não me preocupo com você. Em seguida, agarrou Henrique pelo braço e continuou gritando, mas desta vez com uma voz de chorosa.

- Toma aqui e vai embora.- disse Roberto, nervoso, entregando algumas moedas para a idosa. Esta se recompôs, olhou para os amigos com desprezo, pegou sua bengala, apontou para os dois, apontou para as montanhas e falou em uma voz muito sinistra:
- Mort!

Isso tomou os amigos de surpresa, e eles ficaram parados olhando um para o outro em silêncio enquanto a velhinha se afastava.

- Que foi isso? Você entendeu alguma coisa do que ela disse? - perguntou Henrique.
- Ahn… Sei lá, essa velha é louca. Eu acho que ela estava xingando o marido, depois ela te agarrou e pediu dinheiro. Que coisa, e eu pensando que na Suíça as coisas seriam diferentes.
- E o que ela quis dizer com “mort" quando apontou para a montanha?
- Ela estava se referindo ao Mont Mort, que não recebeu esse nome por ser um lugar agradável para passar a tarde - uma voz estranha respondeu em inglês.

A voz pertencia a um rapaz magro e alto na janela de um estabelecimento comercial ao lado de onde se encontravam. O rapaz era enérgico, usava um estiloso conjunto de bigode e barba, que contrastavam com seu cabelo curto, e usava uma blusa de gola rolê preta. Como se seu nariz não fosse chamativo o suficiente, ele tinha um enorme piercing, um cilindro branco que parecia…

- É uma falange. - disse o rapaz, lendo os pensamentos de Henrique, que não conseguia parar de olhar fixamente para o adereço estético.
- Uma falange? É um osso? De um animal?
- É um osso, sim, mas não de um animal qualquer. É de um ser humano.

Ao dizer isto o rapaz mostrou sua mão direita para os dois amigos, mostrando que faltava um enorme pedaço de seu dedo indicador.

- Eu perdi este dedo escalando o Mont Mort, o mesmo lugar para onde vocês vão. Para procurar o tesouro de Napoleão.

Henrique ouviu esta frase com um baque. Como era possível que ele soubesse? E que tipo de doente era esse que usava o próprio dedo como piercing?

- Roberto, como ele sabe o que nós viemos fazer?
- Deixa de ser trouxa, eu já tinha contatado o Remy por e-mail lá desde o Brasil, ele estava nos esperando. E o tour de caça ao tesouro do qual ele é guia é a única atração turística que esta cidadezinha tem, isto é tirando as velhas loucas.

Remy deu uma risada alta e virou a mão direita, para mostrar que seu dedo indicador na verdade estava apenas dobrado, e não cortado. Era bem uma brincadeira para criança

- Este piercing não é de osso de verdade, é uma imitação de cerâmica. É muito mais higiênico! Mas entrem, entrem e conheçam o mundialmente famoso "Museu da Travessia”.

Os dois entraram no museu, que era na verdade apenas uma pequena sala com fotos e quadros espalhados pelas paredes.

- Dá uma olhada no museu enquanto eu converso com o Remy, já nos falamos Henrique.

Henrique olhou pausadamente para os quadros. Alguns eram apenas pinturas de belas paisagens montanhosas, mas havia algumas réplicas de mapas antigos. Um deles chamou a sua atenção, pois mostrava o trajeto que Napoleão teria feito para atravessar os Alpes em sua famosa campanha. Havia algo errado naquela trajetória, algo que não encaixava, e Henrique se esforçou para tentar perceber o que era.

- Curtindo o museu? - disse Roberto, entrando na sala de exibição.
- Roberto, posso dar uma olhada no seu mapa?

Roberto tirou de seu bolso um caderno, e do caderno tirou uma folha de sulfite dobrada. Era uma fotocópia do mapa que ele havia mostrado a Henrique tanto tempo atrás, naquele dia memorável na padaria.

- Olha só, as trajetórias são muito diferentes. Elas começam igual, mas tem um ponto aqui no meio em que elas se separam - disse Henrique comparando o mapa de Roberto com o mapa na parede.

Roberto olhou com atenção para o mapa na parede.

- É provável que, para acelerar um pouco a travessia, Napoleão tivesse  ordenado que as tropas seguissem pela passagem principal, enquanto as cargas menos cruciais fossem por caminhos alternativos. Para não atrapalhar a marcha das tropas, entende?
- Sei. - respondeu Henrique com pouca convicção.
- Eu boto mais fé no nosso mapa.
- Eu não gostei muito dessa história de tour de caça ao tesouro. Não era que só o seu tatarabisavô sabia da existência desse saco de ouro perdido? E se alguém mais já achou?
- Não se preocupa, ninguém achou. Todo mundo conhece a história da carroça cheia de ouro que caiu no desfiladeiro, mas só nós sabemos que não foi todo o ouro que foi recuperado. E, quer saber mais, eu acho que  foi bom você ter descoberto que o nosso mapa é diferente desse mapa, que provavelmente é o que todo mundo conhece. Isso me deixou mais confiante ainda!
- Tá bom, vou tentar compartilhar seu entusiasmo!

A conversa foi interrompida por Remy, que apareceu no meio dos dois e os segurou forte pelos ombros.
- Meus amigos brasileiros, então vocês vão comigo amanhã explorar o Mont Mort? O nosso amigo Robért aqui pegou o pacote completo, incluindo os detectores de metal. Vai ser jóia, vocês vão ver só, e estou com um pressentimento de que vamos ter sorte e encontrar coisas muito bacanas lá! Ah, só que o pagamento é adiantado…

Roberto olhou para Henrique com um sorriso meio envergonhado enquanto coçava sua nuca com a mão direita.

- Er… Você poderia acertar? 
- Claro, já é muito tarde para ficar com frescura, né?

Henrique tirou seu cartão de crédito da carteira e depois de ter assinado o canhoto da compra Remy abriu um enorme sorriso e exclamou.

- Muito bem, senhores! Amanhã às seis da manhã passarei para buscá-los no albergue com todo o equipamento. De lá, vamos repetir os passos imortais do Imperador!

Henrique e Roberto saíram do museuzinho mequetrefe alegres e empolgados com o entusiasmo de Remy. Decidiram tirar o resto do dia para descansar bem, pois os próximos dias seriam de esforço físico e mental extremos.

- Roberto, não entendo por que temos que ir com o Remy se temos o mapa.
- O Remy era meu plano B. Só que ele não aceitou alugar só o equipamento, tinha que ter o tour junto. Mas não se preocupa que quando estivermos nas montanhas dou um jeito de despachá-lo e aí continuamos sozinhos.

Voltaram ao albergue sem encontrar com a velhinha neurótica. Jantaram uma refeição leve, despediram-se e foram a seus quartos.

Henrique tentou, mas mesmo cansado que estava do voo mal dormido e de toda a agitação do dia, não conseguia dormir. Pôs-se a contar moedinhas, em vez de carneirinhos, entrando em um grande cofrinho de ouro, até que conseguiu finalmente dormir o sono dos justos.

... continua em O Ouro do Imperador - Capítulo 4.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O Ouro do Imperador - Capítulo 2

Este é o texto 3 de 10 da Primeira Maratona de Posts do Patinete a vela.
Se você ainda não o fez, leia O Ouro do Imperador - Capítulo 1.

O Ouro do Imperador

Capítulo 2

Onde uma viagem é organizada e nosso herói enfrenta dúvidas.

Ah, o chamado para a aventura!  Que força invisível é esta, que nos puxa pelas entranhas para fora daquela zona confortável em que vivemos nossa vida e que é capaz de nos fazer trocar tudo, segurança, estabilidade, por uma chance de viver o impensável, de galgar por onde poucos já galgaram? Por que essa idéia abstrata da jornada do herói, que muitas vezes termina com o herói destruído, descobrindo sua fragilidade e impotência perante a imutabilidade da natureza, tem tamanha influência sobre os homens e seus destinos?

Depois da conversa com seu amigo Roberto, pensamentos de riquezas e glória não deixavam a cabeça de Henrique, a qualquer hora do dia. Eu sei, consigo lê-los como se fossem os meus próprios. Ele não conseguia ler um livro, nem ver um filme, sem desvairar e começar simplesmente a sonhar acordado com uma viagem que, vista desde qualquer ângulo, não fazia o menor sentido. Todo seu bom senso havia sido substituído por um otimismo tolo, uma noção de que bastaria ele e seu amigo chegarem aos alpes suíços que, depois de mais de dois séculos, estaria esperando por eles uma bolsa cheia de moedas de ouro. Como se cada centímetro quadrado dessa cadeia montanhosa não tivesse sido explorada inúmeras vezes por montanhistas muito mais experientes e capacitados do que ele e Roberto jamais seriam. Mas isso não interessava, seu otimismo era a força que o guiava para frente e nisso se agarrava com todas suas esperanças.

O entusiasmo foi esfriando quando foram passando semanas e Henrique não recebia notícias de Roberto. Uma depressão foi tomando conta de seu corpo e, aquela chama acesa naquela mesa de padaria parecia prestes a se apagar.

Um dia, enquanto se distraía estudando a geografia da Suíça, seu telefone começou a tocar desesperadamente como se através dele estivesse chegando a ligação mais importante de sua pequena vida eletrônica. Afoito, Henrique atendeu o rapidamente e ouviu aquela voz familiar.

- Grande Henrique, quanto tempo!
Roberto, você sumiu cara, que história é essa?
Eu estava trabalhando nos preparativos. Precisamos do equipamento certo!
Eu preferia que você me mantivesse informado! Já achei que havia acontecido alguma coisa errada.
Nada de errado, meu caro. Já reservei os voos, providenciei hospedagem e estou providenciando equipamento profissional.
Ótimo!
Nosso voo sai daqui a duas semanas, já te passo um e-mail com todos os dados das reservas das passagens. Você já pode ir arrumando suas malas e não esqueça de levar bastante roupa de frio, porque lá nos Alpes é gelado mesmo no verão.
Sim, claro. Ah, só uma coisa…
Que foi?
Será que eu não poderia dar uma olhada nas cartas do seu… ahn… tatarabisavo?
Claro que você pode, só que infelizmente não pode, entende? Percebe a importância de manter em segredo todo este negócio? Imagina se alguém fica sabendo e tenta chegar antes de nós? Imagina o desperdício de tempo e dinheiro que teríamos tido? As cartas estão trancadas em um baú no sótão da casa de minha avó e só eu tenho a chave.
Sim claro, entendi.
Mas não se preocupe, tudo o que é importante saber eu já memorizei ou anotei no meu caderninho e depois posso ir te informando.
Tá bom Roberto.
Ah eu eu também queria te pedir um favor… Perdi meu cartão de crédito e não consigo pagar a minha passagem, será que você poderia pagar para mim?
Bem eu… Suponho que sim…
Não se preocupe, depois eu te pago… Mas quanto encontrarmos nossas moedinhas de ouro você vai ficar tão surpreso que nem vai pensar no dinheiro da passagem, eu te garanto.
Claro. Beleza Roberto, nos falamos depois então.
Falou Henrique!

Leitor, você nota a dúvida no semblante de Henrique enquanto ele desliga o telefone? Claro, isto não é uma novela gráfica ou um filme, a única forma de você notar o semblante de nosso protagonista é em sua imaginação, então eu lhe peço: imagine Henrique com um semblante de dúvida.

"Quem é de verdade esse cara?”, estava pensando Henrique naquele exato momento. Roberto era seu amigo havia pouco tempo, uns dois anos. Conheceram-se em uma viagem pelo Peru e descobriram uma grande afinidade, além da grande coincidência de que viviam na mesma cidade. Henrique nunca conhecera amigos ou parentes do Roberto, e Roberto nunca mostrara interesse em conhecer os amigos de Henrique. Dava para confiar nele? Não estaria Roberto tentando apenas faturar uma viagem em suas costas? Será que ele iria devolver o dinheiro de sua passagem?

Henrique pôs as dúvidas de lado e tentou se reconfortar em seu otimismo habitual. Tudo daria certo. Eles encontrariam o ouro perdido de Napoleão ou, pelo menos, teriam uma história excelente para contar para os amigos.

Passou as duas semanas seguintes se preparando psicologicamente para a viagem. Ocasionalmente Roberto telefonava para acertar um ou outro detalhe, mas o dia do voo chegou sem qualquer imprevisto.

Roberto e Henrique se encontraram no aeroporto algumas horas antes de seu voo. Não conseguiam parar de discutir, muito empolgados, sobre todos seus planos durante as semanas seguintes. Roberto contagiava Henrique com sua empolgação, então naqueles momentos iniciais da jornada era impossível para qualquer um dos dois imaginar que qualquer coisa poderia dar errado. Julgavam-se donos do mundo e com muita confiança estavam indo buscar aquilo que lhes pertencia.


Ah, meu caro leitor, só posso lamentar como é pesado o fardo da onisciência…

... continua em O Ouro do Imperador - Capítulo 3

domingo, 18 de janeiro de 2015

O Ouro do Imperador - Capítulo 1

Este é o texto 2 de 10 da Primeira Maratona de Posts do Patinete a vela. A pressão por escrever é uma excelente motivadora para tirar da cabeça aquelas idéias de conto que nunca vão para o papel, por mais intimidadoras que sejam.

Espero que você goste desta introdução a um grande conto épico que tenho planejado, chamado




O Ouro do Imperador

Capítulo 1

Onde conhecemos nosso protagonista e ele recebe a oportunidade de participar de uma curiosa empreitada.

O leitor que me honra com sua atenção está prestes a ser informado de uma série muito estranha de fatos. Tive a oportunidade de presenciar os acontecimentos que narro a seguir, como é a prerrogativa de todo narrador onisciente, e escolho compartilhar com você na esperança de que o ato de colocar estes acontecimentos em palavras me permita entender melhor o que de fato aconteceu.

Esta narrativa gira em torno de um rapaz chamado Henrique, que neste momento vemos sentado em uma mesa de uma padaria na cidade em que vive. É um homem de vida mansa vivendo em uma cidade de ritmo frenético. Poderia o leitor suspeitar de um homem da idade do Henrique estar simplesmente sentado, lendo um jornal tranquilamente, em um horário que é muito tarde para qualquer trabalhador respeitável estar tomando café da manhã na padaria e muito cedo para estar almoçando. Isso é facilmente explicável pois Henrique está esperando um amigo, que apesar da urgência com a qual lhe falou ao telefone que precisava vê-lo, já levava mais de quarenta minutos de atraso com relação ao horário combinado. Mas termos elucidado a razão pela qual ele calmamente lia o jornal em uma padaria no meio da manhã não ajuda a limpar sua reputação, pois ele de fato não é um trabalhador respeitável. Aproveitemos então o atraso do seu amigo para nos metermos um pouco na vida de Henrique e conhece-lo melhor, afinal é a sua jornada que nos irá transportar no tempo e no espaço e nos tornará testemunhas de fatos que pouquíssimas pessoas já tiveram oportunidade de vivenciar.

Henrique está nos seus trinta e poucos anos e está desempregado. Não foi sempre desempregado, mas um desconforto com sua vida pregressa, uma necessidade de se aventurar e ser responsável por seu próprio destino o fez elaborar um plano de largar seu emprego e trabalhar como autônomo, de forma completamente independente. Até agora a primeira parte do seu plano fora completamente bem sucedida, mas a segunda parte nem tanto. Henrique percebera que é preciso ter muita força de vontade para conseguir estabelecer e atingir suas próprias metas, e quando ele saiu do abraço protetor de uma corporação que o empregava e lhe dizia o que tinha que fazer, ele ficara completamente perdido.

Fez o que todo homem perdido deve fazer: viajou. Conheceu seu país, fez amizades e adquiriu um apreço pela liberdade que hoje tinha, embora agora o tempo de viajar já havia passado e era hora dele se preocupar com coisas mais concretas para sua vida. Morava sozinho, não tinha namorada e mantinha um contato pouco frequente com seus pais, que moravam muito longe. Trabalhava agora em alguns projetos pessoais com os quais tinha dificuldade de se animar, e se encontrava na verdade dentro de um poço do qual não enxergava forma de sair.

Mas agora vemos seu amigo entrando na padaria, esbaforido, transpirado, carregando uma valise de couro embaixo do braço. Henrique conhecera esse rapaz afoito durante sua viagem e rapidamente os dois “conectaram”, em um sentido completamente desprovido de conotações homossexuais. Nada contra, mas Henrique e seu amigo descobriram afinidades mais abstratas, uma mesma vontade de fazer coisas grandiosas e um apreço pelo desconhecido.

- Oi Henrique! Desculpa pelo atraso, mas prometo que vai valer a pena.

O amigo de Henrique sentou-se à mesa e acenou para o garçom, enquanto abria sua valise e espalhava algumas pastas sobre a mesa.

- Amigo, me vê um pingado e um pão na chapa - disse o rapaz ao garçom que acabara de se aproximar.
- E aí Roberto, o que era tão importante que você precisava me ver tão rápido?
- São planos grandiosos, cara. Você e eu vamos embarcar em uma jornada extraordinária!

Henrique virou os olhos. Roberto era de uma volatilidade extrema e ele sempre ficava empolgadíssima com todas suas idéias de projeto.

- O que é desta vez?
- Olha Henrique, isto que eu vou te mostrar é um segredo de família que eu tenho guardado e estudado há muitos anos. Escolhi compartilhar com você porque preciso da ajuda de alguém em quem eu possa confiar. E há oportunidade de riqueza para nós dois!

A atenção de Henrique fora capturada pela menção de riqueza.

- Não é de novo aquela idéia idiota de construir um submarino para transportar drogas na Amazônia, né? Já te falei que não quero saber de nenhuma empreitada criminosa!
- Não não, nada disso! Eu diria que tem mais a ver com arqueologia do que com tráfico de drogas… Ah, me deixa contar logo a história.

Roberto abriu uma das pastas e mostrou um mapa sobre a mesa.

- Já te contei que meus avós maternos são franceses e chegaram ao Brasil no começo do século vinte. Minha avó sempre contava histórias da família dela, especialmente de um bisavô dela que havia servido no Grande Exército de Napoleão!

Henrique olhou com um pouco mais de atenção ao mapa que Roberto estava segurando.

- Esse meu tatara… tataratata… hm… O bisavô de minha avó esteve com Napoleão quando ele e seu exército atravessaram os Alpes para expulsar os austríacos da Itália, você deve estar familiarizado com essa história.

Evidentementre Henrique não estava. Roberto adorava qualquer chance de dar uma de sabichão para cima dos outros.

- Ela sempre me mostrava alguns documentos que ainda tinha preservado dele. Alguns mapas, mas principalmente muitas cartas que ele escrevia para sua esposa, que havia ficado com os filhos na França.
- É uma história fascinante, Roberto, mas onde você quer chegar?
- Este mapa foi desenhado por ele por ocasião da travessia dos Alpes. Minha avó nunca entendeu direito o que era este mapa, ela apenas achava que era um registro que ele deveria ter feito em suas atribuições de ajudante de campo.
- E o que seria esse mapa?
- Seria o trajeto que eles fizeram ao atravessar os Alpes, não ficou óbvio?

Henrique já estava começando a ficar mais interessado na história.

- Mas então, por que esse mapa é interessante?
- Minha avó nunca teve paciência de ler as cartas que o bisavô dela mandava para sua bisavó, mas eu tive um período em que fiquei profundamente intrigado com minhas raízes nas Guerras Napoleônica e cheguei a estudar um pouco de francês para conseguir entender as cartas.
- E o que tinha de interessante nas cartas?
- Eu já chego lá! O meu avô era ajudante de campo, o que significava que ele operava sob o comando do comandante da guarnição em atividades de logística, como por exemplo o transporte de munições, transporte de alimentos e, mais importante para o nosso futuro próximo, o transporte do tesouro do exército.
- Tesouro do exército?
- Sempre que os exércitos de Napoleão se deslocavam era necessário transportar grandes reservas de ouro junto. Para pagar os soldados, comprar suprimentos, entre outras coisas. As carroças que transportavam o ouro eram sempre as mais bem guardadas, você pode imaginar.
- Imagino que deveria ser uma tentação para qualquer soldado fugir com todo esse ouro!
- É, mas a guarda do tesouro era selecionada entre os guardas mais leais do exército, que adoravam Napoleão como a um deus. Nunca deixariam qualquer coisa acontecer com o tesouro.
- Mas então, o que isso tudo tem a ver com a gente?
- Calma bicho, a história está chegando ao seu ápice! A travessia dos Alpes foi feita em condições climáticas horrorosas, o próprio Napoleão quase morreu na jornada. Imagina um exército de cinquenta mil homens, milhares de cavalos, carroças, canhões, tendo que atravessar passagens estreitas, penhascos, desfiladeiros… Eu fiz uma pesquisa e descobri que durante essa travessia era muito comum perder carroças cheias de suprimentos, quando escorregavam e caíam em um desfiladeiro. Em geral era tolerável perder uma carroça com comida, mas em um episódio específico uma carroça cheia de ouro caiu de um penhasco e o exército parou a travessia até conseguir recuperar tudo.
- Deve ter sido uma tarefa terrível!
- Com certeza. Agora vem o segredo que você tem que me prometer que não vai contar para ninguém.
- Seu segredo está seguro comigo!
- Nas cartas de meu tatara… er… do bisavô de minha avó para sua esposa ele relatava que foi um dos encarregados de recuperar o ouro dessa carroça. Foi uma tarefa atroz, do jeito que ele a descreve, e moedas e sacos de ouro se espalharam por lugares muito difíceis de acessar, alguns caíram em um rio, outros em buracos fundos… Quando sua equipe havia terminado o serviço, ele ficou para trás fazendo uma última verificação. E ele encontrou um saco cheio de moedas de ouro que ninguém mais havia visto.
- Incrível!
- É mesmo! Na França sua situação financeira não era muito confortável, e todo aquele ouro seria um grande alívio. Então ele enfrentou sua consciência, escondeu o saco de ouro em um lugar que poderia encontrar depois, quando voltasse com mais calma, e retomou seu lugar junto ao Grande Exército.
- E é por isso que ele desenhou o mapa!
- Isso mesmo! Ele deixou algumas pistas em suas cartas e outras no mapa, e eu acho que se você e eu formos até lá somos capazes de conseguir encontrar esse saco de ouro.
- Mas Roberto, o que garante que seu tatara… tataratata… o bisavô de sua avô já não voltou e pegou todo o ouro para si?
- Infelizmente ele morreu em Austerlitz antes de conseguir se livrar de seu serviço no exército, por isso não teve tempo de recuperar o ouro.
- E a bisavó?
- É algo meio constrangedor, mas ela estava tendo um caso com outro homem quando o bisavô saiu da França. Muitas das cartas que ele enviou de volta estavam no baú empoeirado de minha avó com os selos ainda intactos. Por isso eu acho que ninguém mais, além de você e eu, sabe disso.

Henrique ficou boquiaberto.


- Roberto… Isto é incrível… Por que você está contando isso para mim?
- Faz anos que estou pesquisando e estudando como fazer para encontrar esse tesouro, mas eu sei que não consigo fazer isso sozinho. Eu preciso da ajuda de alguém em quem eu possa confiar, e você é esse alguém. Sem você eu não consigo esse ouro, Henrique!
- E você sabe quanto de ouro o bisavô de sua avó escondeu?
- Pelas cartas era um saco de dez quilos, repleto de francos de ouro. Cada moeda pode valer até cinco mil dólares para colecionadores, e em dez quilos deve haver umas duas mil moedas. Henrique, são dez milhões de dólares perdidos nos Alpes esperando alguém buscar!
- E você quer que eu vá com você?
- Claro que quero!

Henrique parou para pensar. A história parecia absurda. Não existem tesouros escondidos, isso é coisas de histórias de ficção, pensou. Mas mesmo que não exista, o que ele teria a perder? Seria uma viagem de aventura, junto com seu amigo, e no pior dos casos eles pelo menos conheceriam gente e atravessariam os Alpes. Então, por que não?

- Roberto, seu danado, você já sabia desde o começo o que eu ia responder, não é mesmo?
- É mesmo, mas eu tenho que ouvir de sua boca!
- É claro que sim! Vamos logo comprar essas passagens!

continua em: O Ouro do Imperador - Capítulo 2